Estás a conversar com um amigo, a contar-lhe sobre uma semana difícil. Mal acabas a frase e ele interrompe: “Sim, mas achas que isso é mau? Ouve o que me aconteceu a mim.”
O foco muda. A conversa deixa, silenciosamente, de ser “nossa” e passa a ser “dele/dela”.
Sais de lá a sentir-te estranhamente esgotado/a.
Não propriamente ofendido/a. Só… invisível.
Esses momentos vêm muitas vezes embalados em pequenas frases, atiradas quase sem intenção.
Palavras que, à superfície, parecem normais - mas revelam algo mais fundo: uma forma de ver o mundo em que as necessidades, o conforto e a história dessa pessoa vêm sempre primeiro.
Quando começas a ouvir estas frases, já não consegues deixar de as ouvir.
1. “Não tenho tempo para isto” (quando “isto” és tu)
Toda a gente diz “não tenho tempo” de vez em quando. A vida é cheia, as agendas estão lotadas, a atenção é cortada em pedaços minúsculos.
Mas quando pessoas profundamente egoístas usam esta frase, ela tem outra cor.
Elas não dizem: “Podemos falar mais tarde? Estou assoberbado/a.”
Dizem: “Não tenho tempo para isto”, num tom que reduz o teu problema, o teu sentimento, a tua existência a ruído de fundo.
Tu não és outro ser humano sob pressão.
És uma interrupção.
Imagina isto.
Finalmente ganhas coragem para dizer ao/à teu/tua parceiro/a que te tens sentido um pouco sozinho/a ultimamente. Tens carregado mais peso mental, mais tarefas, mais apoio emocional.
Ele/ela olha para o telemóvel, suspira e dispara: “Não tenho tempo para isto agora.”
Sem continuidade. Sem um “Falamos logo à noite?”
Engoles as palavras.
Da próxima vez, vais pensar duas vezes antes de te abrires. Ao longo de semanas e meses, essa frase torna-se um treino subtil: as tuas necessidades são “demais”, as deles/as são urgentes.
Porque é que esta frase dói tanto?
Porque o tempo é a forma mais básica de respeito. Quando alguém diz repetidamente que “não tem tempo para isto” - sobre os teus sentimentos - o que está realmente a dizer é: Não és prioridade.
As pessoas egoístas nem sempre se apercebem de que o estão a fazer.
No guião interno delas, elas são a personagem principal, e tudo o que não serve diretamente o conforto delas parece um atraso.
Por isso, vais ouvir muitas vezes esta frase quando expressas dor, estabeleces um limite, ou simplesmente precisas de cinco minutos de presença real.
2. “Estás a exagerar” e outras 10 frases que, discretamente, te apagam
Identificar egoísmo não é fazer psicanálise às pessoas. Começa por ouvir de forma diferente.
Não apenas o que alguém diz, mas o que as frases favoritas dessa pessoa te fazem - ao longo do tempo.
Há frases que minimizam as tuas emoções.
Frases que sugam qualquer conversa de volta para a pessoa.
Frases que soam razoáveis, mas te deixam sempre a duvidar de ti.
Aprender a reconhecê-las é um ato silencioso de autoproteção.
Aqui estão 10 frases - além de “Estás a exagerar” - que aparecem, vezes sem conta, na boca de pessoas profundamente centradas em si mesmas:
- “Estás a exagerar.”
- “Não faças disto sobre ti.”
- “Eu nunca te pedi para fazeres isso.”
- “Eu sou assim.”
- “Se gostasses mesmo de mim, tu…”
- “Só estou a ser honesto/a.”
- “Acalma-te, não é nada de especial.”
- “És demasiado sensível.”
- “Tu levas sempre tudo a mal.”
- “Não vejo qual é o problema.”
Cada uma, isoladamente, pode parecer inofensiva.
Em conjunto, criam um clima em que os teus sentimentos são sempre “demais” e os deles/as são sempre razoáveis.
Estas frases funcionam como pequenos interruptores.
Devolvem-te a responsabilidade - todas as vezes.
Estás magoado/a? És “demasiado sensível”.
Pões um limite? Estás “a exagerar”.
Apontas algo injusto? Estás “a fazer disto sobre ti”.
A lógica é simples: preservam o conforto delas empurrando, com gentileza, a tua realidade para o lado.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem saber - pelo menos um pouco - o que está a fazer.
Com o tempo, começas a editar-te antecipadamente. Encolhes as emoções antes de as sentires por inteiro. Pedes desculpa antes sequer de falares.
É assim que o egoísmo subtil sobrevive: não através de grandes discussões, mas de pequenos apagamentos repetidos.
3. Como responder quando estas frases te acertam no estômago
O objetivo não é “apanhar” as pessoas como se estivesses a mostrar um cartão vermelho num jogo de futebol.
O que realmente muda a tua vida é aprender a responder naquele segundo minúsculo após uma destas frases cair.
Um método simples é: pausa, nomeia, redireciona.
Pausa: respira, para não entrares logo em modo de defesa.
Nomeia: identifica, com suavidade, o que acabou de acontecer - por exemplo: “Quando dizes que estou a exagerar, sinto-me desvalorizado/a.”
Redireciona: traz o foco de volta ao assunto real - “Gostava que falássemos do que partilhei, não de se os meus sentimentos são válidos.”
Frases curtas, calmas, quase aborrecidas.
Protegem-te mais do que qualquer grande discurso.
A maioria de nós cresceu sem guião para isto.
Ou explodimos, ou fechamo-nos. Ambas as reações beneficiam, secretamente, a pessoa egoísta: a tua “explosão” prova o argumento dela, o teu silêncio deixa-a manter o controlo.
Então, aqui vai um caminho mais suave.
Podes dizer: “Eu percebo o que estás a dizer, e mesmo assim estou magoado/a”, em vez de explicares durante vinte minutos.
Podes dizer: “Não me sinto confortável que me chamem ‘demasiado sensível’”, e depois parar de falar.
Não tens de ganhar o debate.
Estás apenas a traçar uma linha à volta do teu espaço emocional - mesmo que a tua voz trema um pouco ao fazê-lo.
Às vezes, a frase mais corajosa numa conversa é simplesmente: “Eu vejo isto de forma diferente, e a minha perspetiva também importa.”
- Frase a notar: “Estás a exagerar.”
Resposta curta: “A minha reação faz sentido para mim.” - Frase a notar: “Não faças disto sobre ti.”
Resposta curta: “Estou a partilhar como isto me afeta; isso faz parte da situação.” - Frase a notar: “Eu nunca te pedi para fazeres isso.”
Resposta curta: “Talvez não, mas eu continuo a merecer reconhecimento, não desvalorização.” - Frase a notar: “Eu sou assim.”
Resposta curta: “O facto de seres tu não apaga o impacto que as tuas ações têm em mim.” - Frase a notar: “És demasiado sensível.”
Resposta curta: “A sensibilidade não é o problema. A forma como isto foi dito é que é o problema.”
4. Ouvir de forma diferente as tuas conversas do dia a dia
Quando começas a ouvir estas 11 frases, acontece uma coisa estranha.
Percebes que elas não vivem apenas em relações obviamente tóxicas.
Escorregam para escritórios, jantares de família, grupos de chat, até amizades que parecem perfeitas no Instagram.
Às vezes ouves isto de pessoas que te amam de verdade, mas nunca aprenderam outra forma de existir que não seja no centro da sala.
Às vezes apanhas-te a dizê-las também - e essa picada de reconhecimento é desconfortável e, ao mesmo tempo, estranhamente libertadora.
O objetivo não é rotular toda a gente de “egoísta” e ir embora.
É ajustar a distância, a expectativa e a energia que dás a quem, com as palavras, te vai encolhendo.
Há um poder silencioso em simplesmente pensares: “Isto não é sobre eu ser demais. É sobre eles não saberem partilhar espaço.”
A partir daí, decides.
Talvez tenhas uma conversa calma e honesta num dia bom, quando as defesas estão mais baixas.
Talvez limites certos temas com essa pessoa, para que as tuas vulnerabilidades mais profundas não te sejam sempre devolvidas contra ti.
Talvez te afastes de algumas dinâmicas por completo.
Podes escolher, diariamente, a que é que o teu sistema nervoso fica exposto.
Isso não é egoísmo. É autorrespeito.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o/a leitor/a |
|---|---|---|
| Identificar as frases | Reconhecer 11 frases recorrentes que minimizam, desviam ou centram apenas uma pessoa | Dá palavras a uma sensação que já tinhas, para deixares de duvidar da tua perceção |
| Notar o padrão | Ver como estas frases se repetem ao longo do tempo e moldam o clima emocional | Ajuda-te a distinguir um dia mau de uma dinâmica crónica e autocentrada |
| Responder com calma | Usar frases curtas de limites para pausar, nomear e redirecionar a conversa | Oferece ferramentas simples para proteger o teu espaço sem discussões constantes ou culpa |
FAQ:
- Pergunta 1 E se alguém disser estas frases mas, de resto, for uma pessoa querida?
- O contexto importa. Se for ocasional e a pessoa estiver aberta a feedback, provavelmente estás a lidar com pontos cegos, não com egoísmo profundo. Os padrões ao longo do tempo dizem-te mais do que uma conversa má isolada.
- Pergunta 2 Posso ser eu a usar estas frases sem me aperceber?
- Sim. A maioria de nós já disse algumas delas pelo menos uma vez. A diferença está em estares disposto/a a reparar, pedir desculpa e tentar uma forma diferente de falar da próxima vez.
- Pergunta 3 Como respondo sem começar uma discussão enorme?
- Mantém curto e ancorado na tua experiência: “Quando ouço ‘estás a exagerar’, sinto-me desvalorizado/a. Gostava que ficássemos no que eu estou a sentir.” Depois, pausa. Não precisas de os convencer naquele momento.
- Pergunta 4 E se a pessoa se rir e disser que eu sou demasiado sensível?
- Isso é mais informação. Podes repetir o teu limite uma vez, com calma, e depois mudar de assunto ou sair da conversa. Proteger os teus limites não exige a aprovação dela.
- Pergunta 5 Vale alguma vez a pena confrontar pessoas profundamente egoístas?
- Às vezes sim, se a tua segurança não estiver em risco e a relação for importante para ti. Outras vezes, a escolha mais saudável é reduzir o contacto. A tua energia é finita, e podes gastá-la onde ela é genuinamente correspondida.
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