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Aprendi aos 60: poucos sabem a diferença entre ovos brancos e castanhos.

Senhora idosa examina ovos numa prateleira de supermercado usando uma lupa.

Aos 60, achas que já viste tudo num supermercado.
Sabes onde se escondem os iogurtes mais baratos, qual a caixa mais rápida, que corredor tem as promoções “armadilhadas”. Quase andas em piloto automático. Nesse dia, peguei numa caixa de ovos castanhos como faço sempre, com aquela sensação discreta de virtude. Castanho é igual a “do campo”, “mais natural”, “melhor”, certo?

Depois, a mulher ao meu lado, talvez com 30 anos, estendeu a mão para ovos brancos, sorriu e disse: “Eu compro destes, são exatamente iguais. O meu avô criava galinhas.”

A frase ficou comigo até à caixa.
Nessa noite, fui por um buraco abaixo de galinhas, cascas e mitos de supermercado.

O que descobri aos 60 fez-me sentir ao mesmo tempo um pouco tolo e estranhamente aliviado.
Porque aqueles ovos brancos e ovos castanhos? Não são o que tu pensas.

O que ninguém te diz sobre a cor dos ovos

O primeiro choque veio de uma fotografia. Duas galinhas, lado a lado: uma branca, outra ruivo-castanha. Debaixo de cada uma, um ovo. A galinha branca pôs um ovo branco. A castanha pôs um ovo castanho. Nada de surpreendente.

Mas debaixo da legenda estava a frase que mudou as minhas omeletes de domingo: “A cor da casca depende da raça da galinha, não da qualidade.”
Só isto.

Sem milagres, sem vitaminas secretas, sem pesticidas escondidos. Apenas genética.
E, de repente, uma vida inteira de escolhas automáticas no corredor dos ovos começou a parecer um pouco ridícula.

Comecei a perguntar por aí.
O meu vizinho, que compra orgânicos com orgulho, só castanhos, disse-me: “Os ovos brancos são de produção industrial, os castanhos são mais naturais.” Depois, uma prima confessou que achava que os ovos castanhos tinham mais proteína.

Não estamos sozinhos. Em muitos países, as pessoas associam castanho a “rústico” e branco a “industrial”. Nos EUA, os ovos brancos dominam as prateleiras, enquanto em partes da Europa e da América Latina, os ovos castanhos são vendidos como mais “autênticos”.
Algumas marcas aproveitam discretamente essa onda, embalando ovos castanhos em caixas de cartão com desenhos de celeiros e cercas.

Comemos a história tanto quanto comemos o ovo.

A realidade científica é quase aborrecida.
A cor da casca vem de pigmentos que a galinha deposita durante a formação do ovo. Galinhas de penas brancas com lóbulos auriculares claros geralmente põem ovos brancos. Galinhas ruivas ou castanhas com lóbulos mais escuros tendem a pôr ovos castanhos. Há até galinhas que põem ovos azuis ou verdes.

Lá dentro, no entanto? A mesma nutrição de base. A mesma proteína, vitaminas semelhantes, minerais semelhantes. Existem pequenas diferenças de galinha para galinha, mas isso tem a ver com a alimentação e o estilo de vida, não com a cor da casca.

Por isso, se a tua omelete sabe melhor quando é feita com ovos castanhos, é provável que seja o teu cérebro a falar. E os cérebros são muito persuasivos.

Então o que é que realmente muda a qualidade de um ovo?

Depois de aceitar que a cor era apenas uma lotaria genética, voltei à caixa e olhei de novo.
Desta vez, não fiquei a olhar para o tom da casca. Li o texto pequeno e irritante, impresso em letras minúsculas. Origem. Condições de criação. Código de tamanho.

É aí que a verdadeira história se esconde.
Se queres um ovo melhor, não olhas para bege versus branco. Olhas para como a galinha viveu, o que comeu, há quanto tempo aquele ovo está ali parado sob luzes de néon.

Comecei a fazer algo radical: virava a caixa ao contrário antes de a pôr no carrinho.

Uma manhã, fui a uma pequena quinta com um amigo. As galinhas estavam cá fora, a escarafunchar, a correr, a fazer aqueles sprints histéricos sem razão aparente. O agricultor recolhia ovos brancos e castanhos no mesmo cesto.

Ele riu-se quando lhe perguntei quais eram “mais saudáveis”. Partiu dois ovos para uma frigideira: uma casca branca, outra castanha. As gemas pareciam idênticas, ambas vivas e densas. O sabor? Rico, redondo, quase doce.

“A diferença”, disse ele, “não é a casca. É que estas galinhas mexem-se, apanham sol e comem algo mais do que ração o dia todo.”
A cor do ovo não importava. A cor da vida delas é que importava.

A partir daí, tudo fez sentido.
Uma galinha que sai para o exterior, bica erva e insetos e não está apertada numa gaiola, muitas vezes põe ovos com gema mais carregada e melhor sabor. A alimentação também conta: quanto mais variada e rica em certos nutrientes, mais altera o perfil de gordura e, um pouco, o conteúdo vitamínico.

A frescura é o segundo fator-chave. Um ovo com uma semana e outro com um mês podem parecer semelhantes na caixa, mas não na frigideira. As claras de ovos mais frescos ficam mais firmes, as gemas mantêm-se altas. Os ovos mais velhos espalham-se e achatam.

A cor da casca não te diz nada sobre isso. Nada mesmo.

Como escolher ovos sem cair na armadilha da cor

Agora, em frente às prateleiras dos ovos, faço algo novo: ignoro o marketing.
Procuro o pequeno código impresso no ovo ou na embalagem. Em muitos países, um número indica o método de criação: 0 para biológico, 1 para ar livre, 2 para criação em aviário, 3 para gaiolas. É informação seca, pouco “sexy”, mas diz muito mais do que o tom da casca.

Depois verifico a data. Não apenas a data de validade, mas a data de postura ou de embalagem quando existe. Quanto mais perto do dia de hoje, melhor os ovos cozidos descascam e melhor as merengas crescem.

A cor, honestamente, passou a ser o meu último critério.

Já todos estivemos nesse momento em que metemos no carrinho a caixa “mais requintada” na esperança de que isso signifique que estamos a comer melhor.
O marketing adora aquela pequena culpa que carregamos em relação à comida. Ovos castanhos em caixas com ar ecológico, palavras como “estilo caseiro”, “fresco do campo”, “rústico” em letras de tons terra. Fala ao nosso desejo de comer comida “a sério”.

Sejamos honestos: ninguém lê todos os detalhes de todos os rótulos todos os dias.
Mas se mudares apenas um hábito, que seja este: lê o método de criação e a origem antes de olhar para a casca. O teu corpo não quer saber da cor. Quer saber como viveu a galinha e o que entrou na alimentação dela.

Às vezes, as verdades mais simples chegam tarde na vida.
“Aos 60, finalmente percebi que andava a pagar mais por uma história de cor”, escrevi no meu caderno. “Daqui para a frente, compro condições, não ilusões.”

  • Olha primeiro para o código de criação (0, 1, 2, 3): diz-te como vivem as galinhas.
  • Verifica as datas: data de postura ou de embalagem, se possível; depois, a validade.
  • Compara o preço por ovo, não apenas por caixa: às vezes, o “aspeto rústico” é só cartão caro.
  • Dá prioridade a produtores locais ou regionais quando puderes: menos dias de transporte, ovos muitas vezes mais frescos.
  • Escolhe em função do que vais cozinhar: ovos ligeiramente mais velhos para cozer, muito frescos para escalfar ou para merengue.

O que eu realmente aprendi aos 60, em frente à prateleira dos ovos

No dia em que deixei de julgar os ovos pela cor, percebi quantos outros pequenos mitos moldam as nossas escolhas diárias sem darmos por isso. Castanho significa saudável, branco significa industrial, embalagem sofisticada significa qualidade.

Os ovos são quase uma metáfora. Um alimento simples, do dia a dia, que traz um cesto inteiro de crenças na sua casca frágil. Durante anos, paguei mais por ovos castanhos a pensar que estava a fazer algo bom pela minha saúde, quando, no fundo, só estava a alimentar um estereótipo.

Da próxima vez que abrires uma caixa, olha para aqueles pequenos ovais brancos ou castanhos e pergunta-te que histórias lhes colaste.
Depois parte um para a frigideira e foca-te no cheiro, na textura, no sabor. A tua vida aos 30, 45 ou 70 ainda pode mudar por detalhes pequenos assim. E isso é estranhamente reconfortante.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A cor da casca é genética Ovos brancos ou castanhos vêm de raças diferentes, não de qualidade diferente Evita que pagues mais apenas pelo aspeto da casca
As condições de criação são o mais importante Criação ao ar livre, biológico e melhor alimentação influenciam mais o sabor e a nutrição do que a cor Ajuda-te a escolher ovos alinhados com saúde e prioridades éticas
Ler o rótulo e as datas Códigos, origem e datas de frescura contam a verdadeira história do ovo Melhora os resultados na cozinha e dá mais controlo sobre o que comes

FAQ:

  • Os ovos castanhos são mais saudáveis do que os brancos? Nutricionalmente, são quase idênticos. As diferenças de saúde costumam vir da alimentação e das condições de vida da galinha, não da cor da casca.
  • Porque é que os ovos castanhos são muitas vezes mais caros? As raças que põem ovos castanhos podem ser ligeiramente maiores e consumir mais ração, e o marketing posiciona-os como mais “naturais”, o que puxa o preço para cima.
  • Os ovos castanhos sabem melhor? O sabor depende da frescura e do que a galinha come. Um ovo branco fresco de uma galinha criada ao ar livre pode saber muito melhor do que um ovo castanho velho de uma galinha stressada numa gaiola.
  • A casca dos ovos castanhos é mais grossa? A espessura da casca está ligada à idade e à saúde da galinha, não à cor. Galinhas jovens e bem alimentadas põem ovos com cascas mais resistentes, sejam brancos ou castanhos.
  • Que ovos devo comprar para ter a melhor qualidade? Dá prioridade ao método de criação (0 ou 1, se possível), à frescura e à origem. Escolhe a cor de que gostas, mas baseia a decisão na vida por trás do ovo, não no seu tom.

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