O outro dia, numa estação de metro cheia, um homem com cerca de sessenta e muitos anos dobrou o jornal com calma depois de o ter realmente acabado de ler. Sem telemóvel, sem auriculares, sem pressa de atualizar uma aplicação. Limitou-se a olhar pela janela e… a esperar. À volta dele, toda a gente fazia scroll, tocava no ecrã, saltava entre cinco coisas ao mesmo tempo. Ele parecia viver noutro ritmo, como se o mundo fosse barulhento e ele tivesse aprendido, há muito, a carregar o silêncio por dentro.
Ao observá-lo, dava para perceber que crescera noutra era. Daquelas em que os pais não seguiam a tua localização, em que os planos se marcavam pelo telefone fixo e se cumpriam sem confirmações constantes, em que te aborrecias e ninguém vinha a correr salvar-te disso.
Os psicólogos dizem que essa era deixou marcas mentais.
1. A arte perdida de esperar sem se desmoronar
As pessoas que cresceram nos anos 60 e 70 foram treinadas - sem o saberem - para esperas longas e desconfortáveis. Esperava-se pelo próximo episódio, pelo autocarro, pelos resultados do rolo no laboratório de fotografia, pela carta de alguém de quem se gostava. Não havia nada instantâneo. O teu sistema nervoso tinha de aprender a esticar esses minutos vazios sem explodir.
Os psicólogos chamam a isto “gratificação adiada” e estudam-na desde as famosas experiências do marshmallow no final dos anos 60. As crianças que conseguiam esperar por um segundo marshmallow, muitas vezes, saíam-se melhor anos depois: melhores notas, empregos mais estáveis, menos dependências. A geração dos anos 60 e 70 viveu, basicamente, esse teste em repetição - todos os dias.
Essa competência silenciosa - esperar sem estimulação constante - está a tornar-se rara num mundo de tudo-a-um-clique e notificações permanentes.
Imagina uma adolescente em 1975. Liga a uma amiga para saber se ele vai à festa. Ninguém atende. Sem voicemail, sem mensagem, sem “visto”. Ela desliga, encolhe os ombros e decide ir na mesma, confiando que as pessoas simplesmente “aparecem”. A noite inteira acontece sem uma única mensagem de check-in. Era normal.
Agora imagina uma adolescente em 2025. Os planos geram dezenas de mensagens. “Ainda vens?” “Onde estás?” “Manda a localização.” Um atraso de três minutos parece rejeição. Os psicólogos estão a ver mais “intolerância à incerteza” em pacientes mais jovens: ansiedade quando as respostas não são instantâneas, quando alguém não responde, quando um resultado demora.
As crianças dos anos 60 e 70 não tinham de “praticar” paciência. A vida impunha-lha - silenciosa e implacavelmente.
Do ponto de vista psicológico, essas longas esperas treinaram a regulação emocional. Quando nada acontece durante algum tempo, o cérebro aprende que o desconforto não é uma emergência. O aborrecimento torna-se tolerável. Uma frustração leve não entra logo em espiral até ao pânico.
Hoje, muitos de nós fazemos curto-circuito a esse processo com micro-doses constantes de dopamina. Atualizamos, fazemos scroll, alternamos aplicações. A nossa atenção salta como um pássaro nervoso. Entretanto, aquele homem no metro, com o jornal dobrado, parece estranhamente centrado. O cérebro dele está habituado ao tempo lento, a perguntas que demoram dias a ter resposta, a prazeres que não aparecem por encomenda.
Esse “músculo” mental pode ser uma das forças mais raras hoje: a capacidade de não saber, de não ter - e, ainda assim, sentir-se fundamentalmente bem.
2. Crescer resistente sem ficar duro por dentro
Os psicólogos que estudam resiliência descrevem muitas vezes os anos 60 e 70 como uma era de “infância em liberdade”. As crianças andavam pelo bairro até acenderem os candeeiros da rua. Caíam das bicicletas, perdiam-se, discutiam com amigos, voltavam para casa com nódoas negras e histórias. Os pais amavam-nas, mas não pairavam por cima. A resposta padrão a pequenos problemas era: “Tu resolves.”
Essa mistura de liberdade e risco construiu um tipo diferente de resistência interior. Não a resistência fria e blindada, mas a crença silenciosa: “Eu consigo lidar com isto.” Quando já apanhaste um autocarro sozinho aos 10 anos, ou foste de bicicleta três terras adiante com um mapa e uma sandes, o mundo adulto parece menos aterrador.
Talvez por isso tantos psicólogos descrevam esta geração como “estoica, mas calorosa”.
Pergunta a alguém que tenha crescido em 1972 sobre a infância e, muitas vezes, ouves o mesmo tipo de cenas. Um braço partido por subir a uma árvore. Ser apanhado pela chuva a quilómetros de casa. Entrar numa loja em criança e falar com adultos sem guião nem citação do smartphone. Ninguém documentava cada segundo, por isso os erros viviam sobretudo na memória - não online para sempre.
Um homem, hoje com sessenta e muitos anos, explicou a uma terapeuta que a frase preferida do pai era: “Volta quando já tiveres tentado três coisas por ti.” Parece duro pelos padrões de hoje. Mas também significava que a primeira reação da criança a um problema não era terceirizar, mas experimentar.
A investigação em psicologia liga consistentemente esse tipo de autonomia precoce a mais confiança, melhor resolução de problemas e menos ansiedade na idade adulta.
O reverso hoje é uma explosão do que alguns especialistas chamam “impotência aprendida por conveniência”. GPS para cada passo, aplicações para cada decisão, conselhos intermináveis para cada dúvida. Quando a vida está altamente otimizada, a menor perturbação pode parecer enorme. Uma entrega atrasada parece uma crise. Uma bateria descarregada torna-se uma catástrofe.
A juventude dos anos 60 e 70 viveu algo mais próximo do “bom stress”: desafio suficiente para fortalecer a mente, não tanto que a partisse. Aprenderam a aguentar o desconforto, a improvisar, a perder-se e depois a encontrar-se. Esse treino não era glamoroso e ninguém lhe chamava “construir resiliência”.
No entanto, era exatamente isso: micro-adversidades do dia a dia que criaram uma coluna interior durável.
3. Como “emprestar” estas 9 forças mentais raras hoje
A boa notícia é que não precisas de viajar no tempo para desenvolver os mesmos músculos interiores. Os psicólogos dizem que muitas destas forças podem ser treinadas de forma deliberada, mesmo num mundo hiper-digital. Começa com hábitos pequenos, quase antiquados, que recuperas de propósito.
Experimenta fazer uma coisa de cada vez, como se fosse 1975. Lê uma coisa de cada vez, sem outro ecrã a chamar por ti. Fica numa fila sem pegar no telemóvel. Deixa o cérebro sentir a comichão da distração e resiste durante sessenta segundos. Isto é treino de micro-paciência.
Reintroduz “bolsas” do dia em que estás incontactável: um passeio sem telemóvel, uma sesta sem alarme, uma noite em que os planos são aproximados. É assim que se reconstrói tolerância à incerteza, uma pequena falha de cada vez.
Ao fazer isto, conta com desconforto. O teu sistema nervoso está habituado a estímulos constantes. Podes sentir-te inquieto, ansioso, até um pouco vazio. Isso não significa que estás a fazer mal; significa que estás exatamente no lugar onde o trabalho acontece.
Um erro comum é transformar estas práticas noutro projeto impossível de autoaperfeiçoamento. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Falhar um dia não apaga os benefícios. O que importa é a direção geral, não a disciplina perfeita.
Se cresceste mais recentemente, também podes sentir uma pontinha de vergonha ao ler sobre os “mais duros” miúdos dos anos 60 e 70. Larga isso. Eras diferentes moldam feridas e forças diferentes. Não tens de copiar a vida deles. Estás apenas a escolher que ferramentas deles queres apanhar, em silêncio.
A psicóloga Jean Twenge, que estuda gerações há décadas, resume isto de forma simples: “A tecnologia muda depressa. A natureza humana não. As competências que ajudaram os teus avós a lidar com as coisas são surpreendentemente próximas das competências que ajudam as pessoas a lidar com as coisas hoje.”
Aqui estão nove forças mentais frequentemente vistas em quem cresceu nos anos 60 e 70 - e que podes cultivar conscientemente agora:
- Esperar com calma, sem feedback instantâneo
- Estar confortável com o aborrecimento e o silêncio
- Confiar nos outros sem prova digital constante
- Improvisar quando os planos falham
- Resolver pequenos problemas sem os terceirizar
- Aceitar a imperfeição e resultados “suficientemente bons”
- Falar cara a cara, mesmo sobre temas difíceis
- Separar emergências reais de desconforto ligeiro
- Manter esperanças de longo prazo apesar de contratempos de curto prazo
Não precisas de uma infância diferente para desenvolver isto; precisas de micro-escolhas diferentes no presente.
O legado silencioso de uma infância mais lenta
Olha com atenção e vais notar que esta geração carrega uma certa “meteorologia” psicológica. Nem sempre solar, nem sempre sábia, mas muitas vezes mais estável do que o caos digital em que agora vive. Lembram-se de um mundo em que nada chegava instantaneamente, em que as notícias podiam demorar dias, em que amizade significava aparecer - não apenas carregar em “gosto”.
Alguns ainda usam essas ferramentas antigas sem lhes dar nome. Chamam-lhe “bom senso” ou “era assim que fazíamos”. Os psicólogos veem outra coisa: um conjunto artesanal de hábitos internos que os protege de parte da sobrecarga mental de hoje.
Se cresceste mais tarde, o passado deles pode tornar-se o teu manual. Podes emprestar a forma como esperam, como lidam quando as coisas não correm como planeado, como sobrevivem a momentos aborrecidos sem pegar num ecrã. Podes até perguntar-lhes diretamente: “Como é que lidavas com isto quando tinhas a minha idade?” Essa pergunta pode construir uma ponte entre eras e lembrar ambos os lados de que, embora o mundo tenha mudado, a mente humana continua a aprender as mesmas lições antigas.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Paciência à moda antiga | Reconstruir a capacidade de esperar, aborrecer-se e tolerar a incerteza | Menos ansiedade, mais foco, maior satisfação com momentos simples |
| Autonomia resiliente | Praticar a resolução de pequenos problemas sem apoio digital constante | Mais autoconfiança, melhor resolução de problemas na vida real |
| Hábitos da era lenta | Recuperar rotinas simples dos anos 60/70, como fazer uma coisa de cada vez e tempo offline | Formas práticas de se sentir mais calmo e mais centrado no dia a dia |
FAQ:
- Toda a gente dos anos 60 e 70 ficou mesmo mais resiliente?
Claro que não. Algumas pessoas carregam traumas profundos dessa época. A ideia é que certas condições quotidianas de então tendiam a treinar mais a paciência, a autonomia e a tolerância à incerteza do que os ambientes de hoje muitas vezes treinam.- Uma pessoa na casa dos 20 pode desenvolver estas mesmas forças mentais?
Sim. O cérebro mantém plasticidade durante muito mais tempo do que se pensava. Ao adicionar intencionalmente momentos “lentos”, desconforto e resolução offline de problemas, os jovens adultos podem construir, com o tempo, uma resiliência muito semelhante.- A tecnologia é sempre má para a força mental?
De todo. A tecnologia pode apoiar a saúde mental através de aplicações de terapia, comunidades online e aprendizagem. O risco aparece quando a estimulação constante substitui todo o aborrecimento, toda a solidão e todo o desafio no mundo real.- Tenho de abdicar do smartphone para beneficiar disto?
Não. Isto é sobre equilíbrio, não sobre pureza. Podes manter os teus dispositivos e, ainda assim, criar “bolsas dos anos 70” protegidas no teu dia, em que vives de forma mais lenta e independente.- Como começo se a minha capacidade de atenção já parece destruída?
Começa muito pequeno: 30 segundos a não fazer nada numa fila, dois minutos a caminhar sem telemóvel, um problema simples resolvido sem ir ao Google. Pequenas vitórias reconstroem esse músculo interior em silêncio - como nos anos 60 e 70: um momento comum de cada vez.
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