Psicólogos dizem que os avós mais queridos raramente são os mais ricos ou os mais divertidos. São aqueles cujos hábitos do dia a dia fazem as crianças sentirem-se seguras, vistas e amadas. Desde a forma como ouvem até à forma como recuam, o seu comportamento deixa impressões emocionais que perduram muito para lá da infância.
A cola invisível dos laços entre avós e netos
Em diferentes culturas, as crianças descrevem muitas vezes os avós como um “porto seguro”. Não porque as regras desapareçam, mas porque a pressão diminui. Os investigadores falam de “segurança emocional”: a sensação de ter um adulto fiável do nosso lado, mesmo nos dias em que somos difíceis de gostar.
A presença constante de um avô pode funcionar como um andaime emocional, ajudando as crianças a sentirem-se firmes enquanto descobrem quem são.
A psicologia não descreve esta ligação como magia. Associa-a a comportamentos específicos e repetíveis. Aqui ficam sete hábitos que tendem a surgir, repetidamente, em avós que são recordados com profundo carinho décadas mais tarde.
1. Amor incondicional sem permissividade excessiva
As crianças percebem depressa se o afeto depende do desempenho. Os avós que são adorados transmitem uma mensagem clara: “És amado quando tens sucesso, e és amado quando não tens.”
Isto não significa dizer que sim a todas as exigências nem ignorar maus comportamentos. Significa separar o valor da criança do último teste ou da última birra. A criança pode ouvir: “Não gostei do que fizeste, mas continuo a amar-te.”
Estudos sobre afeto e vinculação sugerem que a ternura consistente por parte dos cuidadores está ligada a menor ansiedade, maior autoestima e melhores relações mais tarde na vida. Os avós têm muitas vezes um espaço único para oferecer esse calor, porque normalmente estão menos envolvidos nas batalhas diárias sobre trabalhos de casa ou tarefas domésticas.
Nenhum brinquedo compensa a sensação de sermos plenamente aceites. Para muitos adultos, as memórias mais ternas dos avós centram-se na sensação de serem bem-vindos, não no que lhes foi dado.
2. Escuta ativa que faz as crianças sentirem-se importantes
Os avós queridos raramente fazem mil coisas enquanto conversam. Levantam os olhos, pousam o telemóvel e ouvem de facto. A história da criança sobre as “políticas” do recreio ou sobre um videojogo não é descartada como trivial.
A escuta ativa inclui muitas vezes:
- Contacto visual ao nível da criança
- Perguntas curtas e abertas: “O que aconteceu a seguir?” “Como é que isso te fez sentir?”
- Refletir as emoções: “Isso parece mesmo frustrante”
- Resistir à vontade de avançar imediatamente com soluções
Os psicólogos veem isto como uma forma poderosa de construir autoestima. Quando um avô ouve com atenção, a criança aprende que os seus pensamentos e emoções importam. Essa crença tende a refletir-se na sala de aula, nas amizades e, mais tarde, nas relações adultas.
3. Autenticidade em vez de tentar ser o avô “perfeito”
As crianças costumam ser melhores a detetar encenação do que os adultos imaginam. Os avós profundamente amados raramente se comportam como santos impecáveis. Deixam ver as suas manias. Ri-se dos próprios erros. Admitem quando estão cansados ou maldispostos.
Esta naturalidade transmite uma mensagem subtil, mas vital: não é preciso ser irrepreensível para merecer amor. Um avô que canta desafinado ou uma avó que queima os biscoitos e se ri disso está a dar uma lição viva de autoaceitação.
Avós autênticos mostram que pessoas reais têm limites, humores e hábitos estranhos - e que essas coisas não anulam o seu valor.
Para crianças que crescem num mundo de fotografias filtradas e pressão para “performar”, passar tempo com alguém confortável na própria pele pode ser silenciosamente libertador.
4. Presença constante em vez de grandes gestos ocasionais
Muitos avós preocupam-se por não verem os netos com a frequência que gostariam ou por não poderem pagar viagens elaboradas. A investigação sugere que o que conta mais é a fiabilidade. Aparecem quando dizem que vão aparecer? Mantêm contacto de forma consistente?
Mesmo rituais simples e repetidos podem ter muito peso emocional:
- Uma videochamada semanal ao domingo à tarde
- Ir sempre às festas escolares, se a distância o permitir
- Enviar um postal ou uma carta curta antes de eventos importantes
- Manter uma pequena tradição, como um pequeno-almoço especial quando visitam
Estudos de longo prazo, incluindo trabalhos da Universidade de Oxford, associam avós envolvidos a melhor bem-estar emocional nas crianças. Esse envolvimento não precisa de ser diário. Precisa de ser previsível e confiável.
5. Incentivar a curiosidade e o risco seguro
Algumas das memórias mais queridas com avós têm um toque de aventura: subir a uma árvore um pouco mais alta, provar um alimento com um nome estranho, fazer o “caminho mais longo” para casa por um trilho lamacento.
Os psicólogos falam também aqui de “andaimes”. O avô fica suficientemente perto para a criança se sentir segura, mas suficientemente recuado para a deixar experimentar. Este tipo de exploração orientada pode:
| Hábito do avô | Benefício para a criança |
|---|---|
| Sugerir novas atividades | Desenvolve curiosidade e abertura |
| Deixar a criança liderar o jogo ou o projeto | Reforça a confiança e a tomada de decisão |
| Enquadrar os erros como parte da aprendizagem | Reduz o medo de falhar |
Quando um avô diz “Vamos ver o que acontece se tentarmos isto” em vez de “Tem cuidado, vais magoar-te”, a criança aprende que o mundo é algo com que se pode interagir, não apenas algo que se tem de suportar.
6. A arte de largar no momento certo
Os avós profundamente amados costumam perceber que o seu papel não é substituir os pais. Intervêm onde acrescentam valor e recuam quando a criança - ou os pais - precisam de espaço.
Isto pode significar permitir que um adolescente escolha se quer visitar, em vez de insistir. Pode significar conter-se quando discordam de uma regra dos pais e discutir isso em privado mais tarde, em vez de o fazer à frente da criança.
Largar envia um sinal poderoso de confiança: “Acredito que consegues lidar com isto, mesmo que tropeces pelo caminho.”
Teorias psicológicas sobre autoeficácia sugerem que as crianças constroem resiliência ao enfrentarem desafios geríveis. Os avós que resistem ao impulso de “salvar” a cada pequeno contratempo ajudam os mais novos a tornarem-se adultos mais capazes.
7. Proteger tempo para uma ligação verdadeira
“Tempo de qualidade” tornou-se um cliché, mas continua a captar algo real. Os avós que são recordados com carinho tendem a proteger pequenos momentos de tempo sem distrações, mesmo em vidas ocupadas.
Pode ser um jogo de tabuleiro regular, cozinhar juntos uma receita simples, ou contar a mesma história de sempre - aquela de que a criança finge que se queixa, mas que secretamente adora. A atividade em si importa menos do que a sensação de atenção partilhada.
As crianças raramente se lembram do que estava a dar na televisão durante uma visita. Lembram-se do jogo de cartas, da piada partilhada, do momento em que um adulto as olhou de verdade.
Como pais e avós podem trabalhar em conjunto
As ligações mais fortes tendem a surgir quando pais e avós atuam como aliados, não como concorrentes. Uma conversa rápida sobre limites - doces, tempo de ecrã, horas de deitar - pode evitar conflitos e proteger a relação com a criança.
Algumas famílias consideram útil combinar algumas regras claras que todos cumprem, deixando espaço para “privilégios de avós” que não minem valores essenciais. Por exemplo, mais uma história antes de adormecer pode ser aceitável, enquanto ignorar regras de segurança não é.
Ideias práticas para avós que vivem longe
A distância não tem de diluir o afeto. Com um pouco de criatividade, muitos dos hábitos acima podem ser adaptados:
- Enviar notas de voz curtas em vez de mensagens longas que as crianças não vão ler.
- Marcar uma “atividade virtual” mensal - ler um capítulo em voz alta, mostrar como cozinhar algo, ou fazer um quiz.
- Manter um “projeto partilhado”, como um álbum de recortes a que a criança acrescenta coisas em casa e sobre o qual comenta por correio ou vídeo.
- Criar pequenos rituais, como uma chamada telefónica antes de testes ou atuações importantes.
Estes gestos reforçam que, mesmo à distância, está presente e atento.
Riscos de boas intenções mal direcionadas
Avós bem-intencionados por vezes deslizam para papéis que desgastam as relações: desautorizar os pais à frente da criança, partilhar preocupações de adultos com uma mente jovem, ou usar presentes para “comprar” afeto. Com o tempo, as crianças podem sentir-se divididas entre lealdades ou sobrecarregadas por problemas de gente grande.
Os psicólogos alertam que o conflito entre pais e avós, quando acontece à frente das crianças, pode reduzir os benefícios emocionais de ter mais um adulto cuidador na vida. Alinhar no essencial e manter desacordos fora da vista protege a criança desta tensão.
Porque estes hábitos importam muito depois da infância
Quando adultos descrevem o seu avô favorito anos mais tarde, raramente falam de férias perfeitas. Falam de se terem sentido ouvidos num dia difícil na escola, daquela pessoa que nunca fez o amor parecer condicional, da gargalhada que transformou um erro numa história.
Estes sete hábitos - cuidado incondicional, escuta ativa, autenticidade, presença constante, incentivo à exploração, largar no momento certo e tempo protegido em conjunto - moldam não só a forma como as crianças recordam os avós, mas também como aprendem a tratar-se a si próprias e aos outros à medida que crescem.
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