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8 frases que pessoas muito egoístas dizem sem perceber

Dois homens utilizam um smartphone enquanto estão sentados numa mesa de café com caderno e ampulheta ao lado.

A primeira vez que ouves mesmo uma frase egoísta, bate como uma palmada pequena. Estás a meio de uma conversa, a partilhar algo pessoal, e a outra pessoa larga uma frase tão casual, tão “normal”, que quase pensas que ouviste mal. O estômago aperta, o cérebro bloqueia por um segundo, e depois ris-te para disfarçar porque… o que mais podes fazer naquele momento?
Mais tarde, nessa noite, a repetir a cena no duche ou no autocarro, as palavras picam de outra forma. Reparas no padrão. Na maneira como algumas pessoas conseguem colocar-se no centro de cada história, cada problema, cada plano.
E, assim que começas a identificar estas frases, deixas de conseguir não as ver.

1. “Sou assim”

Vais ouvir esta logo a seguir a alguém te magoar. Fizeram uma piada cruel, interromperam-te, ou ignoraram um limite que tu exprimiste com clareza. Em vez de pedirem desculpa ou sequer pararem um segundo, encolhem os ombros e dizem: “Sou assim.”
À superfície, soa a honestidade. Uma espécie de autenticidade crua. Por baixo, é muitas vezes um escudo. Uma forma de dizer “não vou mudar, aguenta”, fingindo que é sobre personalidade, não sobre responsabilidade.
A mensagem nas entrelinhas é simples: o meu conforto é mais importante do que os teus sentimentos.

Imagina um jantar de aniversário. Amigos reunidos, bolo encomendado, toda a gente animada. A Emma finalmente partilha que tem sentido um grande desgaste no trabalho e precisa de mais apoio da equipa. Antes de alguém conseguir responder, o Mark, o mais barulhento do grupo, faz uma piada sobre “rainhas do drama” e muda o assunto de volta para a sua última rotina de ginásio.
A Emma contrai-se, mais tarde chama-o à parte e diz que se sentiu desvalorizada. O Mark nem pestaneja: “Vá lá, sou assim. Sou frontal. Tu conheces-me.”
O que podia ter sido um momento de ligação torna-se um beco sem saída. A noite continua. A mágoa fica.

Esta frase é perigosa precisamente porque parece inofensiva. Veste a teimosia de autoconhecimento. Diz à outra pessoa: adapta-te às minhas falhas, não esperes crescimento, não peças melhor.
No fundo, é uma recusa em lidar com o impacto. A intenção passa a ser a única coisa que conta e, se eu não quis magoar-te, então estás a exagerar.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, mas quando “sou assim” vira a frase padrão de alguém, não estás a lidar com honestidade. Estás a lidar com alguém que quer toda a liberdade e nenhuma consequência.

2. “És demasiado sensível”

Esta costuma cair logo depois de tentares expressar um sentimento perfeitamente razoável. Dizes: “Essa piada magoou-me”, ou “Não gostei da forma como falaste comigo”, e a resposta vem instantânea: “És demasiado sensível.”
É eficaz. Em três palavras, os papéis invertem-se. De repente, o problema és tu, não o comentário, não o comportamento, não a farpa que te apertou o peito.
Com o tempo, ouvir isto pode fazer-te duvidar do teu próprio radar emocional.

Imagina que envias uma mensagem longa e vulnerável ao teu parceiro/a sobre algo que te tem corroído. Talvez se tenham esquecido de uma data importante, ou gozado contigo à frente de amigos, ou desvalorizado quando precisavas de ajuda. Escolhes as palavras com cuidado, tentando não soar acusatório/a.
A resposta chega: “Uau. Estás a pensar demais em tudo. És demasiado sensível.” Sem curiosidade. Sem um “conta-me mais”. Só um carimbo em cima dos teus sentimentos.
Depois de algumas rondas disto, podes começar a autocensurar-te antes mesmo de falares, a engolir o desconforto para não receberes esse rótulo outra vez.

“Demasiado sensível” é uma táctica de silenciamento disfarçada de feedback. Diz-te que a tua experiência emocional está errada, exagerada, inconveniente. Que o teu mundo interior é um problema a resolver.
Para pessoas profundamente egoístas, funciona como magia. Se te convencerem de que a tua reacção é o problema, nunca têm de olhar para as próprias acções. Não há reparação. Não há responsabilidade.
Quando alguém se importa de verdade, pode dizer: “Ajuda-me a perceber o que sentiste.” Quando alguém repete “És demasiado sensível”, o que está realmente a dizer é: a tua dor é menos importante do que o meu conforto.

3. “Estou só a ser honesto/a”

Honestidade é uma palavra bonita. Cheira a ar limpo e janelas abertas. E é exactamente por isso que pessoas egoístas adoram esconder-se atrás dela.
Vais ouvir “Estou só a ser honesto/a” logo depois de um comentário que corta por baixo da pele. Uma farpa sobre o teu corpo. Uma crítica às tuas ambições. Um julgamento geral sobre as tuas escolhas de vida que tu não pediste.
A honestidade vira passe livre para a crueldade e, se tu reages, fazem de conta que és contra a verdade.

Pensa num colega que se inclina para ver a tua apresentação e diz: “Isto está mau. Ninguém vai levar isto a sério. Estou só a ser honesto.” Sem sugestões reais, sem interesse em ajudar-te a melhorar. Só um murro verbal seguido de uma auréola falsa.
Ou um familiar num reencontro que olha para o teu prato e comenta o teu peso com uma risadinha, acrescentando depressa: “Relaxa, estou só a ser honesto, alguém tinha de dizer.”
O que sentes no corpo nesse momento não é honestidade. É humilhação com um disfarce moral.

A honestidade verdadeira procura informar, apoiar, às vezes desafiar, mas não esmagar. “Estou só a ser honesto/a”, na boca de uma pessoa egoísta, é uma forma de fugir à responsabilidade pela ferida que acabou de abrir.
Se protestas, dizem que não sabes lidar com “a verdade”. Se ficas calado/a, mantêm o poder. É um jogo viciado.
A verdade nua é: quando a honestidade é usada como arma, deixa de ser honestidade - é agressividade com melhor relações-públicas.

4. “Tens sorte eu sequer…”

Esta frase costuma aparecer quando ousas pedir um pouco mais. Uma resposta mais clara. Um pequeno esforço. Um toque de respeito básico.
“Tens sorte eu sequer ter respondido.”
“Tens sorte eu ter ficado.”
“Tens sorte eu ter aparecido.”
Cada versão transforma uma cortesia mínima num grande favor e pinta-te como ingrato/a por quereres algo normal.

Imagina alguém chegar 45 minutos atrasado/a para te ajudar numa mudança, queixa-se do trânsito, faz o mínimo, e passa metade do tempo ao telemóvel. Quando dizes “Hoje precisava mesmo de mais ajuda”, responde-te: “Tens sorte eu sequer ter vindo. Toda a gente faltou.”
De repente, em vez de falarem da falta de esforço deles, és empurrado/a para defenderes o teu direito de estares desiludido/a. A dinâmica vira do avesso.
Pessoas egoístas são mestres a reescrever a história para que as migalhas deles pareçam um banquete.

Esta frase é sobre poder e escassez. Ao dizerem que tens “sorte”, colocam-se como o prémio, o recurso raro, a pessoa que te está a fazer um favor enorme só por existir perto de ti.
Treina-te a baixar os padrões. A aceitar o mínimo e chamar-lhe generosidade. Com o tempo, podes esquecer-te do que sabe um esforço saudável e mútuo.
Quando alguém se importa de verdade, não te lembra constantemente de quanta “sorte” tens por receberes a presença deles. Mostra-te através de consistência, não através de facturas emocionais.

5. “Não tenho tempo para dramas”

Nas redes sociais, esta frase soa confiante e madura. Na vida real, na boca de alguém profundamente egoísta, muitas vezes significa outra coisa: “Não tenho tempo para as tuas necessidades, queixas ou limites.”
Vais ouvi-la quando tentas abordar um problema. Quando trazes à tona uma tensão. Quando dizes: “Precisamos de falar sobre o que aconteceu.”
Em vez de entrar na conversa, rotulam tudo como “drama” e afastam-se a sentir-se superiores.

Imagina que dizes calmamente a um amigo: “Senti-me mesmo sozinho/a na semana passada quando ignoraste as minhas mensagens depois de dizeres que estarias lá.” Não estás a gritar, nem a atacar. Estás apenas… a expressar.
Ele/ela revira os olhos, suspira e diz: “A sério, não tenho tempo para este drama.” Depois pega no telemóvel e faz scroll como se tu fosses uma série que acabou de ser cancelada.
Não é falta de tempo. É falta de vontade de sair da própria zona de conforto emocional.

Chamar “drama” aos teus sentimentos é uma forma rápida de os descredibilizar sem discussão real. Coloca-te na defensiva. Ou te calas, ou começas a justificar que não, não estás a dramatizar, estás apenas… magoado/a.
Para pessoas egoístas, isto é eficiente. Evitam o trabalho confuso de ouvir, pedir desculpa, ajustar. Ficam “acima” da situação, como espectadores cool.
Quando alguém diz “Não tenho tempo para dramas” sempre que as coisas ficam reais, muitas vezes o que quer dizer é: só quero as partes de ti que são fáceis para mim.

6. “As outras pessoas não têm problema com isso”

Esta pode fazer-te sentir imediatamente isolado/a. Levantas uma preocupação e, em vez de lidarem com o que disseste, puxam por uma multidão invisível: “As outras pessoas não têm problema com isso.”
É uma frase traiçoeira porque soa quase lógica. Se “toda a gente” está bem, talvez o problema sejas tu, certo?
Começas a encolher dentro da tua própria cabeça, a pensar se estás a pedir demais.

Pensa num/a chefe que envia emails tarde da noite e espera respostas na manhã seguinte. Finalmente ganhas coragem para dizer que gostavas de proteger as tuas noites.
A resposta: “Mais ninguém na equipa tem problema com isso.” Sem prova, sem nomes, apenas uma maioria vaga usada para te calar.
Ou um parceiro/a que flerta muito com outras pessoas em festas e, quando dizes que te incomoda, responde: “A minha ex nunca se importou. As outras pessoas não têm problema com isso.” Sentes-te imediatamente irracional, mesmo que o teu limite seja válido.

Esta frase arma a comparação. Pressiona-te a abandonar as tuas necessidades para encaixares num padrão imaginário. Não te é permitido ter limites próprios; esperam que te adaptes ao que “toda a gente” supostamente tolera.
Pessoas egoístas adoram este truque porque mantém a atenção longe do comportamento delas e focada na tua reacção. Se cedes, elas ganham. Se insistes, és “difícil”.
Relações saudáveis não medem o teu conforto contra um grupo invisível. Tratam o teu desconforto como real, mesmo que sejas a única pessoa a senti-lo.

7. “Deves-me”

As palavras nem sempre são tão directas, mas a vibração é essa. “Depois de tudo o que fiz por ti.” “Tu não estarias aqui sem mim.” “Lembra-te de quem te ajudou quando mais ninguém ajudou.”
Uma pessoa egoísta raramente dá sem fazer contas. Cada favor é uma arma futura. Cada acto de apoio vem com uma factura invisível anexada.
A frase “Deves-me” transforma o que devia ser bondade em dívida emocional.

Imagina um pai ou uma mãe que pagou os teus estudos. Anos mais tarde, já adulto/a e a tomar as tuas decisões, dizes que queres emigrar, mudar de carreira, ou definir um limite.
Respondem: “Depois de tudo o que sacrifiquei, é assim que me pagas?” A ajuda original transforma-se numa corrente que te prende às expectativas deles.
Ou um amigo que te emprestou dinheiro uma vez e agora espera trabalho emocional interminável, favores de última hora e lealdade cega, porque “tu sabes que me deves, não sabes?”

Generosidade com condições é apenas controlo em embalagem mais bonita. “Deves-me” é uma frase que cancela a liberdade da gratidão e substitui-a por obrigação.
Apaga o teu direito de dizer não. Sugere que a escolha passada deles de ajudar lhes dá acesso vitalício ao teu tempo, energia e decisões.
Cuidado com placar não é bem cuidado. É um investimento a longo prazo para ter poder sobre ti.

8. “Não faças isto sobre ti”

Ironicamente, esta linha muitas vezes vem da pessoa que faz tudo girar à volta de si. Tentaste partilhar como uma situação te afectou, e ela dispara: “Não faças isto sobre ti.”
É especialmente comum em lutos, celebrações ou conflitos em que querem manter-se no centro do palco. Os teus sentimentos tornam-se uma ameaça ao foco delas.
O resultado é que aprendes a sair em bicos de pés da tua própria história.

Pensa num irmão/irmã que anuncia uma grande conquista num jantar de família. Estás feliz por ele/ela, mas também partilhas que estás a passar um momento difícil e te sentes pressionado/a por comparações constantes.
A resposta vem imediata: “Podes não fazer isto sobre ti, por uma vez?” A sala fica em silêncio. De repente, és pintado/a como egoísta por ousares existir emocionalmente no grande momento deles.
Ou, durante uma separação, quando expressas como as acções da pessoa te magoaram, ela diz: “Para de fazer isto tudo sobre os teus sentimentos, eu também estou a passar por muita coisa.”

Esta frase corta a reciprocidade. Diz-te que a única narrativa emocional válida é a deles. A tua vida interior é uma nota de rodapé - na melhor das hipóteses um incómodo, na pior uma intrusão.
Pessoas egoístas usam-na para manter monopólio emocional. Elas são o/a protagonista; tu deves ser uma personagem secundária, quieta.
Numa ligação real, há espaço para “tu” e “eu” na mesma cena. Quando “Não faças isto sobre ti” vira reflexo, revela alguém que tem dificuldade em partilhar o palco.

Como responder quando ouves estas frases

Não precisas de um guião perfeito de resposta. Às vezes, o primeiro passo é simplesmente reparar na reacção do teu corpo e fazer uma pausa. Se o peito aperta ou a garganta fecha quando alguém diz “És demasiado sensível” ou “Sou assim”, isso é informação.
Um pequeno movimento é abrandar a conversa. Podes dizer coisas como: “Não te estou a pedir para mudares quem és, estou a pedir-te que ouças como isto me afectou”, ou “Estou a partilhar um sentimento, não a criar drama.”
Não estás a tentar ganhar. Estás a testar se existe espaço, nesta dinâmica, para a tua realidade.

Haverá vezes em que sais e ficas a repetir o momento na cabeça, desejando ter dito mais, ou menos, ou de outra forma. Isso é humano. O que importa mais é o padrão ao longo do tempo. Esta pessoa alguma vez amolece, reflecte, faz perguntas? Ou repete as mesmas falas egoístas e espera que tu te ajustes?
Tens o direito de recolher provas em silêncio. Tens o direito de reduzir a tua exposição emocional a alguém que te diz constantemente que as tuas necessidades são “demais”.
Às vezes, a coisa mais gentil que podes fazer por ti é parar de implorar para alguém se importar.

“Presta muita atenção à forma como as pessoas respondem quando expressas um limite ou uma mágoa. Essa reacção diz-te mais do que qualquer pedido de desculpa alguma vez dirá.”

  • Repara na frase - Dá-lhe um nome na tua cabeça: “Lá veio o ‘és demasiado sensível’ outra vez.”
  • Verifica o teu corpo - Maxilar tenso, respiração curta, nó no estômago são sinais de alerta precoce.
  • Ganha tempo - Diz: “Preciso de um momento para pensar nisso”, em vez de te defenderes de imediato.
  • Testa a flexibilidade - Experimenta uma frase directa: “Não estou a exagerar, estou a partilhar um sentimento.” Vê o que a pessoa faz com isso.
  • Ajusta o acesso - Podes manter-te educado/a e, ainda assim, partilhar menos, depender menos e esperar menos dessa pessoa.

Porque é que estas frases ficam connosco

Estas frases ficam a ecoar na cabeça muito depois de a conversa acabar. Não só porque magoam, mas porque reescrevem subtilmente o teu sentido do que é aceitável. Depois de meses ou anos de “És demasiado sensível” ou “As outras pessoas não têm problema com isso”, podes começar a policiar-te antes mesmo de alguém abrir a boca.
Retiras as tuas necessidades. Engoles esse “Não.” Explicas demasiado cada limite. Não porque és fraco/a, mas porque o teu sistema nervoso aprendeu a evitar conflito a todo o custo.
E, em silêncio, a tua voz vai ficando mais pequena.

Parte do trabalho é reaprender como soa o normal. Amigos que dizem: “Obrigado por me dizeres isso.” Parceiros que respondem: “Não percebi que isso te magoava, quero fazer melhor.” Colegas que dizem: “Tens razão, aquele prazo era irrealista.”
O contraste pode parecer quase irreal ao início. Como se estivesses a ser mimado/a. Não estás. Estás apenas a viver respeito sem condições.
Com o tempo, essas frases mais saudáveis podem tornar-se os teus novos pontos de referência, a tua bússola interna para o que vais e não vais tolerar.

Talvez reconheças algumas destas frases egoístas na tua própria boca também. A maioria de nós já usou pelo menos uma delas num dia cansativo, num momento quente, com alguém de quem gosta. A verdadeira diferença é o que acontece a seguir. Duplicas a aposta, ou voltas atrás e dizes: “Desculpa, isto foi desvalorizante, diz-me outra vez como te sentiste”?
As pessoas que vale a pena manter por perto não são as que nunca dizem a coisa errada. São as que se conseguem ouvir, mudar, e encontrar-te a meio quando dizes, suave mas claramente: “Eu também importo aqui.”

Ponto-chave Detalhe Valor para o/a leitor/a
Reconhecer frases egoístas “És demasiado sensível”, “Sou assim”, “Estou só a ser honesto/a” Ajuda-te a detectar manipulação emocional mais cedo
Confiar nas tuas reacções Repara nos sinais físicos e emocionais quando ouves estas frases Valida o teu alarme interno em vez de o silenciar
Ajustar os teus limites Reduzir acesso, testar flexibilidade, procurar respeito mútuo Protege a tua energia e melhora a qualidade das relações

FAQ:

  • Pergunta 1 E se alguém disser estas frases, mas não parecer “profundamente egoísta”?
  • Pergunta 2 Como posso responder sem escalar o conflito?
  • Pergunta 3 E se eu perceber que já usei algumas destas frases?
  • Pergunta 4 Quando é altura de me afastar de alguém que fala assim?
  • Pergunta 5 Pessoas egoístas conseguem mesmo mudar a forma como comunicam?

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