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A psicologia explica porque algumas pessoas se sentem desconfortáveis quando tudo está a correr bem.

Mulher sentada à mesa com chá, caderno e relógio digital às 3:00. Cozinha ao fundo.

O trabalho é estável, a relação é tranquila, o saldo bancário não está a gritar por socorro. Os amigos continuam a dizer: “Estás com tanta sorte agora.” Tu acenas, sorris para a selfie, até publicas uma story sobre as tuas “pequenas bênçãos”.
Depois chegas a casa, lavas os dentes, deitas-te numa cama perfeitamente boa… e o peito aperta sem razão clara.

O teu cérebro começa a varrer o horizonte à procura de um problema que ainda não existe. Há qualquer coisa estranha.

Esta é a inquietação estranha que algumas pessoas sentem quando a vida finalmente fica suave. E a psicologia tem algumas coisas certeiras a dizer sobre isso.

Quando o teu cérebro não confia na calma

Algumas pessoas cresceram em casas onde a paz nunca durava. Discussões, castigos do silêncio, mudanças repentinas de humor. O sistema nervoso aprendeu cedo uma regra silenciosa: a calma é só a pausa antes da tempestade. Por isso, quando a vida agora está fácil, o corpo não relaxa - sobressalta-se.

A promoção, o(a) parceiro(a) amoroso(a), os bons resultados de saúde… a mente sussurra: “Isto não vai durar.” O resultado é uma mistura estranha de gratidão à superfície e um medo baixo e constante por baixo. Pareces funcional, até soas positivo(a). Lá no fundo, o teu cérebro está a andar de um lado para o outro no corredor.

Vejamos a Lena, 34 anos. Finalmente mudou-se para um apartamento com sol, arranjou um chefe respeitador e começou a sair com alguém carinhoso. No papel, este era o capítulo de sonho.

Três meses depois, acordava às 3 da manhã, convencida de que ia ser despedida, traída ou atingida por alguma catástrofe vaga. Nada concreto. Só um nevoeiro de “vem aí alguma coisa má”. Chegou até a provocar discussões com o(a) parceiro(a) por detalhes mínimos, como se precisasse de prova de que as coisas não eram assim tão boas. Sabotagem disfarçada de controlo.

Mais tarde, uma terapeuta deu-lhe um nome: o seu sistema estava a tentar recriar a tensão que lhe era familiar, porque a paz lhe parecia insegura.

Os psicólogos falam de “viés de negatividade” e de “cérebros preditivos”. As nossas mentes não foram feitas para apreciar pores-do-sol; foram feitas para detetar ameaças. Para pessoas habituadas ao caos, a ameaça é muitas vezes a ausência de ameaça. A calma parece suspeita, como uma rua demasiado silenciosa à noite.

Então o cérebro preenche o silêncio com “e se…”. E se eu perder este trabalho? E se deixarem de me amar? E se eu ficar doente agora que está tudo estável? A inquietação é a forma desajeitada do corpo dizer: “Eu não sei viver sem estar em alerta.” Sejamos honestos: ninguém desaprende este padrão numa semana.

Como parar de esperar pelo desastre

Um método simples, ligeiramente estranho: dizer o bem em voz alta, e depois dizer o medo que vem com ele.

Em vez de fingires que estás “apenas grato(a)”, tenta isto na cabeça ou no papel: “A minha relação está a correr bem. Tenho medo que desapareça.” As duas verdades na mesma linha. Isto impede que o medo se esconda no escuro.

A seguir, traz isso de volta ao corpo. Repara onde a inquietação se instala - garganta, peito, estômago - e respira lentamente para esse ponto específico durante 30 segundos. Estás a ensinar o teu sistema nervoso, de forma muito concreta: “As coisas boas estão aqui, e eu consigo ficar.”

A armadilha em que muitas pessoas caem é o autoassédio. “Porque é que eu não consigo simplesmente ser feliz? Outras pessoas matavam-se por esta vida.” Essa vergonha só alimenta a ansiedade. Sentes-te mal por te sentires mal, e o ciclo aperta.

Uma abordagem mais gentil é tratar esta inquietação como software antigo. Manteve-te em alerta quando precisavas; agora está apenas desatualizado. Não gritas com o telemóvel por ter uma app antiga; atualizas aos poucos. Aqui é igual. Uma pequena prática, com regularidade, vence uma promessa heróica que nunca vais cumprir.

“A segurança não é apenas a ausência de perigo. Para muitos de nós, a segurança tem de ser aprendida, ensaiada e sentida no corpo, vezes sem conta.”

  • Micro check-ins
    Uma vez por dia, pergunta: “Agora, neste minuto exato, o que é que está realmente bem?” Não em teoria. Neste minuto.
  • Teste de realidade por escrito
    Quando o medo aparecer, escreve o receio numa frase e depois escreve uma evidência concreta contra ele.
  • Tempo de preocupação marcado
    Dá ao teu cérebro 15 minutos por dia para catastrofizar no papel. Fora desse período, dizes ao pensamento: “Agora não, logo às 19h.”
  • Pequenas doses de alegria
    Planeia prazeres pequenos, não enormes: uma caminhada, uma música, cinco minutos de sol. A alegria em migalhas é mais fácil de tolerar do que a alegria em fogo de artifício.
  • Fala disso, não o escondas
    Partilhar “fico ansioso(a) quando as coisas correm bem” com uma pessoa de confiança quebra a ilusão de que estás “estragado(a)” ou a ser ingrato(a).

Viver com coisas boas sem sobressaltar

Há uma revolução silenciosa em aprender a ficar quando a vida é gentil contigo. Não correr para a próxima crise, não começar uma discussão, não abrir o e-mail à meia-noite “só para ver”. Simplesmente deixar um bom dia ser um bom dia, mesmo que o estômago dê um nó.

Algumas pessoas chamam a isto auto-sabotagem, mas muitas vezes é auto-proteção mal ligada. A tua mente acha que está a ajudar ao preparar-te para a perda. O trabalho não é apagar essa voz - é parar de a deixar conduzir.

Podes notar que, quando deixas de perseguir o próximo problema, aparece um espaço estranho. Mais tempo livre, mais silêncio, mais margem emocional. Esse espaço pode assustar se a tua identidade foi construída em sobreviver, em arranjar soluções, em correr atrás de drama.

É aqui que surge uma pergunta mais profunda: quem és tu quando não estás a apagar fogos? O que é que realmente gostas quando os ombros finalmente baixam? Estas não são perguntas de produtividade. São perguntas de identidade, e não têm respostas rápidas.

A inquietação quando tudo está a correr bem não é sinal de que és ingrato(a) ou que estás condenado(a). É sinal de que o teu sistema nervoso está a apanhar o ritmo da tua realidade. Alguns vão precisar de terapia para isso; outros vão apoiar-se em amigos; outros vão escrever num diário à meia-luz do quarto.

Não há um protocolo perfeito. Há apenas esta aprendizagem lenta: coisas boas podem vir e ir, e tu não tens de ensaiar a perda com antecedência. O momento presente nunca melhora por sofreres por ele mais cedo.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A inquietação na calma é aprendida O caos passado ensina o cérebro que a paz é insegura Reduz a auto-culpa e reenquadra a ansiedade como adaptação, não como falha
Primeiro o corpo, depois os pensamentos Localizar as sensações e respirar para elas acalma o sistema nervoso Dá uma ferramenta concreta para aqueles momentos de “há algo de errado” à noite
Práticas pequenas e consistentes Micro check-ins, testes de realidade e blocos de preocupação Oferece hábitos realistas que cabem em vidas reais, não em vidas ideais

FAQ:

  • Porque é que me sinto ansioso(a) quando a minha vida finalmente está estável?
    Porque o teu cérebro pode ter associado “calma” a “está a chegar perigo” a partir de experiências passadas; por isso, a estabilidade de agora ativa padrões antigos de sobrevivência.
  • Isto significa que, no fundo, estou infeliz com a minha vida?
    Não necessariamente. Podes gostar genuinamente da tua vida e, ainda assim, ter um sistema nervoso que ainda não se atualizou.
  • Este sentimento pode desaparecer completamente?
    Para algumas pessoas, sim; para outras, amolece em vez de desaparecer. O objetivo é senti-lo sem deixar que controle todas as escolhas.
  • Devo falar disto com amigos ou guardar para a terapia?
    Se tiveres pessoas seguras, partilhar pode ser muito poderoso. A terapia dá estrutura e ferramentas, mas conversas honestas ajudam-te a sentir-te menos estranho(a) e menos sozinho(a).
  • Como sei se preciso de ajuda profissional?
    Se o medo for constante, afetar o sono, o trabalho ou as relações, ou se começares a sabotar coisas boas repetidamente, é sensato procurar um(a) profissional de saúde mental.

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