Estás numa reunião de escritório cheia. O chefe lança uma bomba: vêm aí grandes mudanças.
À tua esquerda, os olhos de alguém brilham. Já está a rabiscar ideias, entusiasmado. À tua direita, um colega enrijece os ombros. Maxilar cerrado, em silêncio, parece que preferia desaparecer dentro da cadeira. A mesma notícia. A mesma sala. Mundos interiores completamente diferentes.
Mais tarde, em casa, um amigo ri-se de um fim de relação como se fosse uma reviravolta numa série, enquanto outra pessoa precisa de semanas para voltar a dormir bem. O mesmo acontecimento. Um universo diferente.
Andamos por aí a partilhar momentos, mas nunca a partilhar verdadeiramente as reacções.
E é nesse intervalo, nessa diferença invisível, que a psicologia se torna muito, muito interessante.
Porque é que a mesma situação se sente completamente diferente na nossa cabeça
Pensa numa cena simples. Dois irmãos crescem com os mesmos pais, a mesma casa, as mesmas regras. Um recorda uma casa quente e barulhenta. O outro lembra-se de andar em bicos de pés e de se sentir invisível. Pergunta-lhes sobre a infância e jurarias que cresceram em planetas diferentes.
Essa é a armadilha: achamos que a “realidade” é o que acontece. Para o cérebro, realidade é aquilo que percebemos e o que contamos a nós próprios sobre o que acontece. Os factos brutos são apenas o ponto de partida. O resto é pintado por experiências passadas, crenças e pequenos detalhes que nem sequer notamos.
Por isso, quando várias pessoas enfrentam o mesmo momento, não estão a reagir ao acontecimento. Estão a reagir ao significado pessoal desse acontecimento.
Imagina um voo atrasado. Um passageiro abre calmamente um livro. Outro anda de um lado para o outro, furioso, a falar em “falta de respeito” e “tempo perdido”. Uma terceira pessoa sorri, aliviada, liga a um amigo, feliz por ter uma desculpa para respirar.
As mesmas cadeiras de metal. O mesmo ar bafiento. Histórias diferentes na cabeça.
A investigação em psicologia cognitiva mostra que as nossas “avaliações cognitivas” - a forma como interpretamos uma situação - conduzem as reacções emocionais mais do que a própria situação. Duas pessoas perdem o emprego. Uma pensa: “Sou um falhanço, isto acontece-me sempre.” A outra pensa: “Ok, assusta, mas talvez seja uma oportunidade para mudar de rumo.” O sistema nervoso segue essa história como um guião.
Por baixo disso, estão a funcionar vários filtros psicológicos. Há o temperamento: alguns cérebros são naturalmente mais sensíveis à ameaça ou à novidade. Há a história de vinculação: quem cresceu com cuidados imprevisíveis tende a procurar sinais de perigo e rejeição mais depressa. Há a cultura e as regras familiares sobre emoções: em algumas casas, a raiva é proibida; noutras, são as lágrimas.
Depois vêm os hábitos de pensamento. Catastrofização, leitura da mente, pensamento a preto‑e‑branco - estes padrões moldam o tamanho que uma situação parece ter. Um comentário pequeno pode ser uma brisa leve para uma pessoa e um ataque total para outra.
Portanto, não estamos a “reagir em excesso” ou a “reagir pouco”. Estamos a reagir através de camadas construídas ao longo de anos.
Como navegar reacções - as tuas e as dos outros
Há uma pequena prática que os psicólogos usam e que muda tudo: parar e, depois, nomear.
Quando algo acontece e sentes uma onda - raiva, pânico, vergonha, ou até euforia - apanha-a como apanharias uma notificação. Dá-lhe um nome por dentro: “Estou a sentir-me encurralado”, “Estou a sentir-me desvalorizado”, “Estou entusiasmado”. E acrescenta mais um passo: pergunta-te “Que história é que estou a contar sobre isto?”
Passas o foco de “Eles fizeram-me sentir assim” para “O meu cérebro está a interpretar isto de uma forma específica”. Essa pequena mudança não apaga o sentimento. Apenas te dá algum espaço para que a reacção não conduza o carro sozinha.
Uma cena clássica do dia-a-dia: envias uma mensagem, vês “lida” e não há resposta durante horas. Uma pessoa encolhe os ombros e segue. Outra entra em espiral: “Estão zangados comigo, fiz alguma coisa mal, estão a dar-me ghost.” O erro que muitos de nós cometemos é acreditar que a segunda reacção é a verdade, em vez de uma hipótese.
Um caminho mais empático é tratar a tua primeira reacção como um primeiro rascunho, não como a versão final. Podes dizer a ti próprio: “Uma parte de mim acha que fui rejeitado. Outra parte sabe que podem estar apenas ocupados.” As duas podem coexistir durante algum tempo.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas nos dias em que fazes, o clima emocional muda.
Um terapeuta que entrevistei resumiu isto numa só frase:
“As nossas reacções não são veredictos morais; são mensagens da nossa história.”
Quando manténs isto em mente, tornam-se possíveis vários movimentos práticos:
- Perguntar às pessoas: “Como viveste aquele momento?” em vez de assumires que sabes.
- Dizer: “A minha reacção é forte, e eu sei que tem a ver comigo tanto quanto com a situação.”
- Dar aos outros o direito de reagirem de forma diferente sem julgar de imediato.
- Reparar em que tipos de situações te activam em padrões repetidos.
- Dar tempo. A velocidade emocional não é uma competição.
Estes pequenos gestos não apagam as diferenças. Tornam-nas habitáveis.
Viver com mundos interiores diferentes numa realidade partilhada
Quando começas a prestar atenção, a vida parece um pouco como um cinema cheio onde cada pessoa está a ver um filme diferente no mesmo ecrã. Um parceiro ouve “Precisamos de falar” e sente pavor. Tu ouves e sentes alívio. Um colega adora falar em público; tu preferias fazer os impostos às escuras. A diversidade de reacções não é um defeito - é a forma como os humanos se adaptaram a ambientes e histórias muito diferentes.
O movimento de poder silencioso é tornares-te bilingue: falar a tua própria linguagem interior com clareza e ficares curioso sobre a linguagem interior dos outros. Não tens de concordar com a reacção deles para respeitar que faz sentido na lógica interna deles. É aí que os conflitos amolecem e as relações aprofundam.
Da próxima vez que vires pessoas a reagir de formas totalmente opostas à mesma notícia, resiste à vontade de pensar “Estão a exagerar” ou “Sou demasiado sensível”. Pergunta antes: “Que história estão eles a viver? Que história estou eu a viver?”
Só essa pergunta pode abrir uma porta que nem sabias que estava trancada.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A percepção molda a reacção | Reagimos à nossa interpretação dos acontecimentos, não aos acontecimentos em si | Ajuda-te a parar de culpar-te a ti ou aos outros por sentimentos “irracionais” |
| A história e o temperamento importam | Vinculação, cultura e sensibilidade natural filtram cada situação | Dá contexto para perceber porque é que alguns gatilhos parecem tão intensos ou tão leves |
| Prática de parar e nomear | Dar nome às emoções e às histórias subjacentes cria distância psicológica | Oferece uma ferramenta simples para acalmar e responder de forma mais consciente |
FAQ:
- Porque é que eu choro enquanto os outros ficam calmos na mesma situação? O teu sistema nervoso pode ser mais sensível, ou a situação pode ecoar experiências passadas dolorosas ou assustadoras. As lágrimas são o teu corpo a dizer “Isto importa”, não são prova de que és fraco ou “estragado”.
- Posso mudar a forma como reajo às coisas? Sim, com o tempo. Práticas como terapia, escrita (journaling), mindfulness e dar nome às emoções podem, de forma gradual, reconfigurar a ligação entre situação e reacção, embora o primeiro impulso possa continuar a aparecer.
- Porque é que o meu parceiro parece “frio” quando eu estou chateado? Algumas pessoas lidam com o desconforto desligando-se emocionalmente ou entrando em modo de resolução de problemas em vez de mostrar emoção. Pode parecer frieza, mas muitas vezes é uma estratégia de sobrevivência aprendida, não falta de cuidado.
- Há um tipo de reacção mais “normal” do que outro? Não propriamente. Uma reacção pode ser mais ou menos útil consoante o contexto, mas, por si só, geralmente faz sentido dentro da história, da educação e do temperamento dessa pessoa.
- Como posso respeitar as reacções dos outros sem desvalorizar as minhas? Usa “e” em vez de “mas”: “Eu senti-me magoado, e vejo que tu viveste isto de forma diferente.” Assim crias espaço para as duas realidades em vez de as colocares em competição.
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