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A razão do enjoo é que os olhos e o ouvido interno enviam sinais contraditórios ao cérebro.

Mulher no carro à beira-mar, concentrada ao ler um mapa, luz do pôr-do-sol entrando pela janela.

One estava tombado contra a janela, olhos bem fechados, a respirar com cuidado pela boca. Outro apertava um saco de plástico como se fosse uma tábua de salvação. À frente, o professor olhava em frente, a negociar em silêncio com qualquer força superior que impedisse o vómito de atingir o corredor.

Lá fora, a autoestrada passava em linhas limpas e constantes. Cá dentro, tudo parecia inclinar-se, oscilar, pulsar. Alguém entreabriu uma janela. Outra pessoa sussurrou a pedir rebuçados de menta. Aquele cheiro ténue e azedo de desconforto partilhado misturava-se com a estranha intimidade de pessoas a sentirem-se mal juntas.

Se alguma vez estiveste ali a pensar “Porque é que o meu corpo está a fazer isto? Eu só estou sentado”, não estás sozinho. O teu cérebro está, literalmente, numa discussão com os teus próprios sentidos.

Porque é que o teu corpo está a enviar mensagens contraditórias

No papel, carros e comboios são milagres de conforto. Bancos almofadados, controlo de climatização, estradas suaves. E, no entanto, o estômago pode dar uma volta depois de meia dúzia de curvas. Uma parte de ti sabe que estás seguro e parado. Outra parte grita que há algo muito errado.

Os teus olhos são, normalmente, o chefe. Dizem: “Estamos a ler uma mensagem, a fazer scroll no Instagram, a olhar para o banco da frente. Nada de especial.” Ao mesmo tempo, estruturas minúsculas no fundo do ouvido interno - o sistema vestibular - registam cada aceleração, cada curva, cada pequeno solavanco. Para elas, o teu mundo está a mover-se depressa.

Por isso, o teu cérebro recebe duas versões ao mesmo tempo: “Não estamos a mexer” pelos olhos, “Estamos mesmo a mexer” pelo ouvido interno. Esse choque é exatamente onde começa o enjoo de movimento.

Um inquérito a condutores e passageiros concluiu que mais de metade das pessoas se sente enjoada em viagens longas, pelo menos às vezes. Algumas ficam arrasadas com uma simples viagem de autocarro pela cidade. Outras só o sentem no mar, quando o horizonte desaparece e o chão não pára quieto.

Imagina uma jovem num autocarro de manhã, cheio de gente, a caminho do trabalho. Saltou o pequeno-almoço, bebeu café, abriu os e-mails. Quatro paragens depois, começa a suar das mãos. O ecrã treme o suficiente para desfocar as palavras. A boca enche-se de saliva. Ela fixa ainda mais o telemóvel, como se pudesse teimar mais do que o próprio ouvido interno.

Depois o motorista trava mais a fundo do que o habitual. Alguém esbarra no ombro dela. É nesse momento que o cérebro decide: isto não bate certo. Ela procura às apalpadelas o botão de paragem, sai três paragens antes e encosta-se a uma parede fria até o mundo voltar a parecer honesto.

Essa é a crueldade escondida do enjoo de movimento. Não quer saber quão “rijo” és, nem quão habituado estás a viajar. Só quer saber de uma coisa: dados em conflito. Os olhos dizem que estás parado. O ouvido interno diz que não. O teu cérebro, preso no meio, interpreta essa discrepância como um possível veneno ou uma ameaça neurológica.

Do ponto de vista evolutivo, estar tonto e enjoado significava “Algo tóxico está a interferir com o nosso sistema nervoso.” A atitude mais segura? Esvaziar o estômago, deitar-se, desligar tudo. Os transportes modernos acionam esse alarme antigo sem qualquer respeito pelos teus planos de fim de semana.

Como acalmar a guerra entre os olhos e o ouvido interno

O truque mais eficaz é surpreendentemente simples: dá aos teus olhos uma tarefa que combine com aquilo que o ouvido interno sente. Senta-te junto à janela sempre que puderes. Fixa o olhar no horizonte, ou em algo lá fora que se mova de forma suave com a paisagem, como edifícios ao longe ou montanhas.

Quando os olhos acompanham o movimento, o cérebro finalmente recebe uma história coerente: “Sim, estamos a mover-nos, e eu consigo ver isso.” É por isso que o lugar da frente num carro ou num autocarro costuma ser melhor do que o de trás. Vês mais estrada, mais curvas futuras, menos do movimento caótico de um lado para o outro.

Se estiveres num barco, subir ao convés para olhar para a linha estável do horizonte é melhor do que ficar a olhar para os sapatos numa cabine. Num avião, espreitar pela janela quando o voo está estável pode ancorar os sentidos, mesmo que te sintas um pouco ridículo a fazê-lo.

Muita gente tenta “aguentar” mergulhando ainda mais no telemóvel. Muitas vezes, isso piora. Ler ou fazer scroll prende os olhos num objeto parado, enquanto o corpo está em movimento. É a receita perfeita para sinais contraditórios.

Há também a vergonha discreta que muita gente carrega em relação ao enjoo. Adultos pedem desculpa, fazem piadas, fingem que “não acontece assim tantas vezes”. Pais passam bolachas a crianças pálidas no banco de trás e dizem que estão “só um bocadinho cansadas”. Em viagens de família, pode haver uma pessoa que, em silêncio, teme cada curva do mapa.

Pequenos ajustes ajudam. Come alimentos leves e simples antes de viajar, em vez de saltar refeições por completo. Escolhe lugares onde o movimento é mais suave: perto das asas num avião, a meio do barco, no lugar do passageiro da frente num carro, se for possível. Respirar devagar e profundamente, inspirando e expirando pelo nariz, pode estabilizar o sistema nervoso mais do que imaginas.

“Não é que o teu corpo seja fraco”, explica um terapeuta vestibular. “É que o teu cérebro está a receber dados de má qualidade. O objetivo não é ‘endurecer’, mas limpar o sinal.”

Alguns padrões repetem-se, vezes sem conta, em quem sofre:

  • Esperam até se sentirem péssimo antes de mudar de lugar ou levantar o olhar.
  • Subestimam o quanto o scroll e a leitura pioram tudo.
  • Sentem-se embaraçados por pedir para abrir uma janela ou trocar de lugar.
  • Esquecem-se de que ar fresco, água fresca e uma pausa curta podem “reiniciar” tudo.
  • Assumem que “é assim mesmo” em vez de experimentar pequenos ajustes.

Sejamos honestos: ninguém faz isto na perfeição todos os dias. Todos sabemos a teoria - sentar à frente, olhar para o horizonte, não ler - mas, na vida real, vamos a correr, aceitamos o pior lugar que sobrou, pegamos no telemóvel por hábito. A distância entre o que ajuda e o que realmente fazemos é onde vive grande parte do sofrimento.

Viver com um cérebro que não gosta de ser mexido

O enjoo de movimento pode parecer um incómodo menor visto de fora. Por dentro, pode redesenhar o mapa da tua vida. Há quem recuse viagens de carro com amigos. Quem evite ferries, voos de longo curso, parques temáticos com os filhos. Até os óculos de realidade virtual podem desencadear o mesmo problema de “cablagem”, porque os olhos dizem “Estamos numa montanha-russa”, enquanto o ouvido interno jura que estás no sofá.

Uma verdade silenciosa: não há uma cura mágica única. O que existe é uma caixa de ferramentas. Alguns juram por gengibre, em cápsulas, chá ou rebuçados mastigáveis. Outros confiam em adesivos de farmácia que libertam, de forma lenta, medicação antiemética através da pele atrás da orelha. Outros ainda vão dessensibilizando o corpo com viagens mais curtas, deslocações de baixa intensidade, técnicas de respiração.

O ponto de partida é perceber o que está realmente a acontecer. Quando entendes que os olhos e o ouvido interno estão a discutir, as tuas reações fazem sentido. O cansaço súbito, a transpiração, o bocejo, aquela onda fria que atravessa o peito - não são sinais de que estás a “exagerar”. São o corpo a tentar reconciliar o caos na sala de controlo.

Partilhar essa história em voz alta pode ser desarmante, no melhor sentido. Num autocarro turístico cheio, alguém a perguntar baixinho “Mais alguém fica mal nestas coisas?” pode desbloquear uma onda de acenos e sorrisos amassados, aliviados. É aí que começam a circular as mentas, as trocas de lugar e as estratégias improvisadas.

E talvez essa seja a parte mais estranha: um mundo construído à volta da velocidade e do movimento esquece-se, muitas vezes, de quantos corpos têm dificuldade com ambos. Quanto mais falarmos sobre este desencontro entre olhos e ouvidos, menos solitária terá de ser a próxima viagem enjoativa.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Conflito olhos–ouvido interno Os olhos dizem “estamos imóveis”, o ouvido interno diz “estamos a mover-nos depressa” Perceber finalmente porque é que o enjoo aparece “sem razão”
Estratégia visual Olhar para o horizonte, sentar à frente, evitar ecrã e leitura Ações concretas para testar já na próxima viagem
Caixa de ferramentas pessoal Gengibre, medicamentos, respiração, escolha do lugar, pausas Criar um método à medida em vez de sofrer em cada viagem

FAQ:

  • Porque é que fico enjoado quando vou como passageiro, mas não quando conduzo?
    Quando conduzes, os olhos, o ouvido interno e os músculos antecipam o movimento à medida que viras, travas e aceleras. Essa previsão reduz o conflito de sinais. Como passageiro passivo, o corpo é movido sem o mesmo nível de controlo ativo.
  • O enjoo de movimento pode piorar com a idade?
    Para algumas pessoas, sim. Hormonas, medicação, stress e alterações no ouvido interno podem tornar-te mais sensível ao longo do tempo. Para outras, o cérebro adapta-se gradualmente e os sintomas aliviam. Acompanhar o teu padrão ao longo de alguns anos dá pistas melhores do que qualquer regra geral.
  • Os comprimidos para o enjoo funcionam mesmo?
    Podem funcionar, sobretudo em casos moderados a graves. Muitos reduzem a sensibilidade do ouvido interno ou a resposta do cérebro à náusea. O reverso é que alguns provocam sonolência ou boca seca, por isso vale a pena testá-los numa viagem mais curta antes de depender deles numa deslocação longa.
  • O enjoo do mar é a mesma coisa que o enjoo no carro?
    É o mesmo conflito básico: o ouvido interno e os olhos discordam. Num barco, o balanço constante e suave pode ser ainda mais confuso, sobretudo se estiveres abaixo do convés e não conseguires ver o horizonte. O cérebro continua a receber sinais de movimento sem uma referência visual estável.
  • Posso “treinar” o meu cérebro para deixar de enjoar?
    Em alguns casos, sim. Exposição gradual - viagens curtas, escolha de lugares com menos movimento, prática de respiração e estratégias de olhar - pode ajudar o cérebro a adaptar-se. Em casos persistentes ou extremos, a reabilitação vestibular com um especialista pode orientar esse treino de forma mais segura e eficaz.

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