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A regra dos 19 °C está ultrapassada: especialistas recomendam agora uma nova temperatura para aquecer a casa.

Pessoa ajusta termóstato da parede, chá quente num móvel, cobertor dobrado, plantas no fundo.

O primeiro dia frio do ano acerta sempre da mesma maneira. Entra-se na sala, dá-se um toque no termóstato e fica-se a olhar para o ecrãzinho como se fosse um teste moral. 18… 19… 20 °C? Uma vozinha sussurra: «Lembra-te: 19 °C, essa é a regra, sê razoável.» Outra voz responde: «Sim, mas estou gelado(a), o gás está caro e eu só quero sentir-me bem na minha própria casa.»

Durante anos, esse número - 19 °C - andou por aí a flutuar como um mandamento sagrado. A temperatura dos «bons cidadãos» que se preocupam com o planeta e com a conta.

A questão é que, agora, os especialistas estão discretamente a dizer outra coisa.

A velha regra dos 19 °C já não se ajusta às nossas vidas

A famosa orientação dos 19 °C nasceu noutra era. As casas eram menos bem isoladas, a energia era mais barata e o conforto era algo que se aguentava, mais do que algo que se discutia. A regra soava simples, fácil de repetir, um slogan arrumadinho para campanhas públicas.

Hoje, porém, as nossas vidas não têm nada a ver com as dos anos 80. Trabalhamos a partir de casa, passamos mais tempo no interior, temos crianças a fazer os trabalhos de casa à mesa da cozinha. E os corpos também são diferentes: idade, problemas de saúde, metabolismo - tudo isso influencia o frio ou o calor que sentimos. Um único número mágico, de repente, parece um pouco absurdo.

Veja-se o exemplo da Laura, 35 anos, que começou a trabalhar remotamente três dias por semana. A 19 °C no seu pequeno apartamento, passava as manhãs embrulhada em duas camisolas, com os dedos rígidos no teclado. Em dezembro, tinha dores constantes no pescoço e a produtividade caiu a pique. O médico não lhe disse para «aguentar». Disse-lhe, sem rodeios: «Aumente a temperatura - vai estar sentada oito horas.»

No extremo oposto, o pai reformado, que anda sempre de um lado para o outro, vive contente a 19 °C. Cozinha, sobe e desce escadas, faz bricolage. Mesmo país, mesma orientação, necessidades totalmente diferentes. Estas histórias começam a acumular-se em consultórios médicos e em gabinetes de aconselhamento energético.

Por isso, cada vez mais especialistas estão a mudar a conversa: de um número fixo para intervalos. Para zonas de estar onde estamos maioritariamente sentados, vários organismos europeus de saúde pública sugerem agora 20–21 °C como uma zona de conforto realista para muitas pessoas. Para idosos, algumas associações de geriatria recomendam subir para 22–23 °C, para reduzir o risco de infeções respiratórias e quedas.

A lógica é simples (ainda que menos «vendável»): a temperatura deve adaptar-se à vida real - e não o contrário. Os 19 °C já não são um objetivo universal; são apenas um ponto numa escala muito mais ampla de conforto e saúde.

As novas temperaturas de referência que os especialistas realmente recomendam

Então, quais são os novos pontos de referência que estão a emergir da investigação e da experiência no terreno? Em geral, os especialistas em energia e saúde inclinam-se agora para esta regra base: cerca de 20 °C nas salas, um pouco mais fresco nos quartos e um pouco mais quente para pessoas vulneráveis. A palavra-chave é «cerca de».

Muitas agências nacionais referem 20 °C como a temperatura «padrão» de uma divisão aquecida, com flexibilidade até 21 °C para atividades sedentárias, como trabalho de secretária. As cozinhas podem ficar um pouco mais frescas, porque mexemo-nos mais. Já as casas de banho, por outro lado, são mais seguras e confortáveis a 22–23 °C durante a utilização, para evitar choque térmico ao sair do duche. Números que batem certo com a forma como nos movemos ao longo de um dia real.

A maior mudança diz respeito aos quartos. Durante anos, repetiu-se que dormir a 19 °C era o ideal. Os especialistas em medicina do sono estão agora a fazer uma nuance. Para a maioria dos adultos, 17–19 °C favorece um sono melhor; mas para bebés, idosos ou pessoas com certas doenças, uma temperatura ligeiramente mais alta pode ser mais segura.

Um especialista em pneumologia com quem falei resumiu assim: «Prefiro que um doente idoso aqueça o quarto para 21–22 °C e se mantenha saudável, do que congelar a 18 °C por culpa.» Nos bastidores, muitos médicos aconselham discretamente os doentes a adaptar o aquecimento ao corpo - não a um cartaz de campanha de outra década. O debate está a sair do moralismo e a entrar no bem-estar real.

Os especialistas em energia acrescentam outra nuance. A estratégia mais eficiente hoje não é viver miseravelmente a 19 °C, mas aquecer ligeiramente mais enquanto se estabiliza o uso. O verdadeiro inimigo não é 20 ou 21 °C. É o aquecimento «ioiô»: sobreaquecer uma divisão enquanto outra fica gelada, e ignorar o isolamento.

Sejamos honestos: ninguém verifica todos os radiadores todos os dias. Rodamos o manípulo quando temos frio e depois esquecemo-nos. Do ponto de vista energético, manter 20–21 °C estáveis nas principais áreas de vivência, combinado com isolamento razoável e portas fechadas, muitas vezes consome menos do que uma casa onde o termóstato salta entre 17 e 23 °C conforme o humor. A «nova regra» tem mais a ver com coerência do que com sacrifício.

Como ajustar o aquecimento sem rebentar com a fatura

O método mais prático que os especialistas recomendam hoje é criar zonas na casa. Em vez de uma única temperatura para tudo, definem-se «zonas de atividade». Sala e escritório: 20–21 °C, porque é onde se está parado. Quartos: 17–19 °C para a maioria dos adultos. Corredores e divisões pouco usadas: 16–18 °C, o suficiente para evitar humidade e paredes frias.

Se tiver um termóstato programável, definem-se horários. Mais quente de manhã e ao fim do dia, quando a casa está «viva»; ligeiramente mais baixo quando está tudo fora ou a dormir. O objetivo já não é sofrer a 19 °C o tempo todo, mas aquecer o suficiente, no sítio certo, no momento certo. De repente, o termóstato deixa de parecer um juiz e passa a ser uma ferramenta.

Uma armadilha comum é compensar em excesso. Está com frio às 7 da manhã, sobe o termóstato para 23 °C «só um bocadinho», e depois esquece-se. Esse «bocadinho» sai caro na fatura. Outro erro é aquecer uma divisão que quase não usa só porque o radiador lá está. Não há medalha por ter 20 °C no quarto de hóspedes o ano inteiro.

E depois há a culpa. Muita gente admite, em voz baixa, que aquece a 21 °C, como se estivesse a confessar um crime. O peso emocional em torno do consumo de energia é grande, especialmente depois de anos de mensagens de crise. Encontrar o seu equilíbrio passa por aceitar que tem direito a sentir conforto, mantendo ao mesmo tempo uma atitude responsável. Não é uma coisa ou outra.

Muitos especialistas repetem agora a mesma mensagem:

«Esqueça o número mágico. Procure um intervalo confortável, adapte-se a quem vive na casa e invista energia em cortar desperdício - não em cortar graus a qualquer custo.»

Na prática, isto traduz-se em:

  • Zonas de estar: 20–21 °C se estiver maioritariamente sentado(a), 19–20 °C se se mexer muito
  • Quartos: 17–19 °C para adultos, 19–21 °C para bebés e pessoas frágeis
  • Casa de banho: 22–23 °C durante a utilização e depois voltar a baixar
  • Idosos ou doentes crónicos: 21–23 °C nas divisões principais, com aconselhamento médico
  • Casa toda: priorizar vedação de correntes de ar e isolamento antes de obsessões com meio grau

Isto não são ordens; são referências vivas - daquelas que se adaptam às suas paredes, ao seu corpo e ao seu orçamento.

Uma nova forma de pensar conforto e responsabilidade

No fim, a regra dos 19 °C é um pouco como aquelas velhas pirâmides alimentares dos manuais escolares. Tinham razão em parte, moldaram hábitos, e depois a ciência e a vida avançaram. Estamos a entrar numa fase em que aquecer a casa já não é apenas rodar um botão: é negociar entre conforto, saúde e clima.

O que emerge das discussões entre especialistas é uma relação mais madura com a temperatura. Sem sofrimento heroico numa sala gelada, mas também sem sobreaquecimento inconsciente. Apenas adultos a tentar encontrar um meio-termo habitável, grau a grau.

Toda a gente conhece aquele amigo que diz, orgulhoso: «Eu nunca aqueço acima dos 18 °C.» E outro que mantém discretamente a casa a 22 °C, mas tem isolamento impecável e painéis solares. Entre esses dois extremos, a maioria de nós anda a tentar chegar a algo mais subtil. Talvez essa seja a verdadeira nova regra: em vez de perguntar «Qual é o número certo?», começar a perguntar «Qual é o número certo para nós, aqui, neste inverno?»

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Novo intervalo de conforto 20–21 °C nas principais salas de estar, ajustado ao nível de atividade Ajuda a definir uma temperatura realista sem culpa
Personalização Níveis mais altos recomendados (21–23 °C) para pessoas idosas ou vulneráveis Protege a saúde mantendo-se dentro do aconselhamento especializado
Estratégia inteligente Zonas, temperaturas estáveis e eliminar correntes de ar antes de baixar graus Reduz a fatura sem sacrificar o conforto do dia a dia

FAQ:

  • 19 °C ainda é aceitável para aquecer a casa?
    Sim, 19 °C pode continuar a funcionar para muitas pessoas, sobretudo em casas bem isoladas ou para quem se mexe bastante. Os especialistas veem-no agora como uma opção dentro de um intervalo, não como uma regra rígida para toda a gente.
  • Que temperatura é que os especialistas recomendam agora?
    A maioria das orientações aponta para cerca de 20–21 °C nas salas, 17–19 °C nos quartos de adultos e até 22–23 °C para pessoas idosas ou vulneráveis, especialmente em espaços onde ficam sentadas.
  • Subir o termóstato de 19 °C para 21 °C vai fazer disparar a fatura?
    Subir 1–2 °C pode aumentar o consumo, mas o impacto depende do isolamento e da estabilidade. Um aquecimento estável e ligeiramente mais alto pode sair mais barato do que grandes oscilações constantes entre valores muito baixos e muito altos.
  • Faz mal dormir num quarto quente?
    Para a maioria dos adultos saudáveis, quartos ligeiramente mais frescos (17–19 °C) favorecem melhor sono. Para bebés, idosos ou pessoas com certas condições, um pouco mais quente pode ser mais seguro. O conforto e a saúde estão acima do dogma.
  • O que devo mudar primeiro: o termóstato ou o isolamento?
    Em geral, os especialistas sugerem começar pelo isolamento, pela eliminação de correntes de ar e pela criação de zonas. Quando a perda de calor diminui, torna-se mais fácil afinar o termóstato sem se sentir forçado(a) a temperaturas desconfortáveis.

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