A mesa de jantar está ali, a meio da sala, como um monumento de família que já quase ninguém visita. De manhã, alguém larga ali as chaves. À hora de almoço, fica soterrada de portáteis e roupa meio dobrada. À noite, come-se no sofá, em frente a uma série, com os pratos equilibrados nos joelhos e a promessa de que “amanhã, sentamo-nos como deve ser”.
Todos já passámos por isso: aquele momento em que se percebe que a mesa virou uma unidade de arrumação com quatro pernas.
E se o resto do mundo já tivesse seguido em frente?
Porque é que a mesa de jantar clássica está a desaparecer (em silêncio)
Em Berlim, Copenhaga, Toronto, visita-se apartamentos e nota-se algo estranho. Nada daquela grande mesa de jantar a dominar a sala, nenhuma peça maciça de madeira a devorar metade da área útil. Em vez disso, vêem-se ilhas flexíveis, balcões altos, consolas modulares que se dobram contra a parede. As pessoas continuam a comer juntas - simplesmente já não dedicam uma peça inteira de mobiliário a isso.
De repente, a divisão parece mais leve, quase como se alguém tivesse aberto uma janela na planta.
Os designers de interiores falam disto como se fosse óbvio. Nos microapartamentos de Tóquio, balcões rebatíveis substituem as mesas. Nas casas nórdicas, uma ilha comprida de cozinha funciona também como escritório, bar e zona de trabalhos de casa. Em Nova Iorque, uma “mesa” de parede com abas rebatíveis só aparece quando há amigos em casa.
Um designer dinamarquês que conheci ri-se quando lhe pergunto pela mesa clássica: “Porque é que hei de congelar três metros quadrados para algo que uso vinte minutos por dia?”
Essa frase fica connosco quando voltamos para a nossa sala de jantar sobrecarregada de mobiliário.
Por detrás desta mudança há uma lógica simples. As casas são mais pequenas, as vidas estão menos sincronizadas, e os ecrãs roubaram o antigo ritual de toda a gente se sentar à mesma hora. A mesa, desenhada para o horário familiar dos anos 1950, já não encaixa num estilo de vida de 2026 feito de refeições desencontradas, trabalho remoto e petiscos a solo.
Por isso, lá fora, as pessoas não comem menos juntas. Apenas exigem que o mobiliário trabalhe mais do que uma superfície fixa com seis cadeiras iguais.
A nova estrela: “zonas de refeição” multiusos que se adaptam a si
A grande substituição não é uma única peça de mobiliário. É um pequeno ecossistema de “zonas de refeição” espalhadas pela casa. Uma ilha generosa na cozinha onde se corta legumes, se liga o portátil e se bebe café com uma amiga. Um bar estreito preso ao parapeito de uma janela, perfeito para um pequeno-almoço rápido com vista para a cidade. Uma mesa baixa que sobe até à altura de jantar quando chegam convidados.
Estes elementos não gritam “refeição formal”. Sussurram: “senta-te, onde quer que estejas no teu dia”.
Imagine esta cena num apartamento holandês. De manhã, o casal bebe café numa prateleira fina de carvalho fixada por baixo da janela, sentado em dois bancos. Ao meio-dia, a mesma prateleira vira secretária de pé. À noite, uma mesa de centro elevatória na sala sobe em dois movimentos, aparecem pratos, e quatro convidados apertam-se à volta, a rir.
Ninguém diz: “Vamos para a sala de jantar.” A refeição simplesmente junta-se à vida que já está a acontecer no espaço.
Os designers lá fora falam muito de “fluxo”. Em vez de dividir a casa em funções rígidas, deixam as atividades sobrepor-se. Comer, trabalhar, conversar, jogar jogos de tabuleiro, desenhar com as crianças: tudo isso pode acontecer na mesma superfície, desde que se adapte.
Sejamos honestos: ninguém se senta todos os dias numa mesa impecavelmente posta. Assim, a tendência não mata a refeição - mata a culpa de não se viver como numa fotografia de catálogo. Liberta-se a divisão, e os rituais voltam discretamente, numa forma mais realista.
Como viver sem uma mesa de jantar tradicional (sem arrependimentos)
Se tem vontade de se despedir da sua mesa de jantar, o primeiro passo não é levá-la para o lixo. Comece por observar onde come realmente. Conte uma semana inteira. Sofá? Bancada da cozinha? De pé em frente ao frigorífico? Registe esses pontos.
Depois, escolha uma “âncora” principal para as refeições: um bar, uma ilha, uma mesa de centro elevatória ou uma consola rebatível. Será o seu novo núcleo - o lugar onde se pode sentar “como deve ser” quando quiser.
A maioria das pessoas que experimenta isto cai na mesma armadilha: livra-se da mesa e depois nunca cria uma alternativa a sério. Resultado: caos, migalhas por todo o lado, modo piquenique permanente. Não tenha pressa. Dê-se tempo para encontrar uma solução que seja sólida e confortável ao ponto de o corpo dizer: “Ok, consigo sentar-me aqui todos os dias.”
Seja gentil consigo. Não está a quebrar uma regra sagrada - está a ajustar a casa à sua vida real. E isso é permitido.
Depois de escolher o novo setup, trate-o como um lugar a sério, não como um remendo. Adicione um candeeiro, uma planta, um tabuleiro - qualquer coisa que sinalize “é aqui que partilhamos comida”. Os pequenos rituais importam muito mais do que o tamanho do móvel.
“As pessoas acham que estão a perder algo ao dispensar a mesa de jantar”, diz a arquiteta de interiores francesa Lila M., que desenha microapartamentos para viver. “A maioria ganha, na verdade, uma sala que finalmente usa e um sítio para comer que reflete como come de facto.”
- Experimente uma mesa de centro elevatória para salas pequenas: baixa para Netflix, alta para jantar.
- Crie um bar estreito encostado à parede debaixo de uma janela ou ao longo de um corredor para refeições rápidas.
- Use cadeiras empilháveis ou dobráveis, guardadas num armário e só trazidas quando há visitas.
- Guarde uma toalha bonita ou um caminho de mesa para “vestir” qualquer superfície quando quiser algo mais cerimonial.
- Proteja sofás macios com mantas laváveis se optar por assumir o modo “jantar no sofá”.
Para lá do mobiliário: uma nova forma de viver as refeições em casa
A tendência lá fora não é apenas trocar uma peça de mobiliário por outra. É uma mudança cultural silenciosa. As refeições acontecem a horas diferentes, em cantos diferentes, com pessoas diferentes. Uma criança a fazer os trabalhos de casa na ilha enquanto um dos pais acaba uma salada. Um amigo sentado no braço do sofá, prato na mão, num almoço informal de domingo. Um jantar a solo no bar da janela, a ver as luzes da cidade.
O que desaparece é a obrigação de centrar tudo à volta de um único retângulo imponente.
Alguns vão sentir falta daquela mesa grande, como um palco para aniversários e festas. Ainda assim, muitas pessoas lá fora “batoteiam” de forma inteligente: mantêm uma mesa de banquete dobrável debaixo da cama, ou uma placa modular que se prende à ilha da cozinha só para noites grandes. No resto do ano, a casa respira.
Talvez essa seja a verdadeira tendência: não “acabou-se a mesa de jantar”, mas “acabou-se o mobiliário que não justifica o espaço que ocupa todos os dias”.
Esta mudança também abre espaço para outras necessidades que foram sendo empurradas para o lado. Um tapete de ioga que finalmente pode desenrolar-se ao fim do dia. Um canto de brincadeira para as crianças que não fica encravado entre pernas de cadeiras. Uma poltrona grande junto à janela onde as conversas duram mais, porque há espaço para sentar, esticar, existir.
Ainda pode acender velas, brindar e fazer refeições longas. Só que vai fazê-lo numa sala que parece a sua vida - não um showroom de outra era.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| “Zonas de refeição” flexíveis | Bares, ilhas, mesas elevatórias, consolas de parede | Adapta-se a espaços pequenos e a ritmos diários variáveis |
| Mobiliário multiusos | Uma superfície para trabalho, refeições, hobbies e convívio | Liberta área útil e reduz a desarrumação |
| Rituais acima do mobiliário | Luz, objetos e hábitos criam a sensação de refeição partilhada | Mantém a ligação mesmo sem uma sala de jantar tradicional |
FAQ:
- Tenho mesmo de me desfazer da mesa de jantar para seguir esta tendência?
Não. Pode simplesmente reduzi-la, encostá-la à parede ou usá-la como superfície multiusos. A verdadeira mudança é usar o espaço todos os dias, não manter uma peça de museu.- O que pode substituir uma mesa de jantar num apartamento pequeno?
Uma ilha de cozinha com bancos, uma mesa de parede rebatível, uma mesa de centro elevatória ou um bar estreito ao longo de uma parede funcionam bem. O essencial é ter assentos confortáveis e profundidade suficiente para um prato e um copo.- Comer no sofá não faz mal à postura e não causa migalhas?
Pode fazer, se for a única opção. Muitas pessoas combinam um sofá confortável com uma mesa de centro mais alta ou mesas de apoio. Capas laváveis e tabuleiros ajudam muito com migalhas e derrames.- Como recebo convidados sem uma mesa grande?
Pense em “buffet informal” ou noites de “pratos no colo”. Também pode guardar uma mesa dobrável para ocasiões maiores e contar com cadeiras empilháveis ou bancos corridos.- Vou perder a sensação de refeições em família?
Não, se mantiver o ritual: comer à mesma hora, sem telemóveis, num sítio dedicado, talvez com uma vela ou música. A ligação vem da atenção, não de quatro pernas pesadas de madeira.
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