Claire, meio a dormir e já atrasada, tentou enfiar o enorme edredão de inverno de volta na capa depois de o lavar. O edredão inchava, torcia-se, parecia um balão. Partiu uma unha, entornou um copo de água e acabou sentada no chão, a rir e quase a chorar ao mesmo tempo.
Nessa noite, em casa da irmã, meteu-se numa cama feita apenas com mantas sobrepostas e uma colcha macia de algodão. Sem edredão barulhento, sem calor a mais, sem luta. Apenas um calor que parecia adaptar-se ao corpo e ao quarto.
- Nós deixámos de usar edredão em 2025 - encolheu os ombros a irmã. - Melhor decisão do ano.
Ela ainda não sabia, mas essa cena silenciosa no quarto é precisamente o caminho para onde as casas francesas estão a caminhar em 2026.
Chega de edredões: como os quartos franceses estão a mudar em silêncio
Passe um domingo a deambular por interiores franceses no Instagram e começa a reparar numa coisa estranha. O velho edredão fofo, outrora estrela das fotos de quartos acolhedores, está a desaparecer discretamente do enquadramento. Em vez dele: camas mais baixas, mantas bem sobrepostas, colchas texturadas, cobre-leitos leves com um ar ligeiramente hoteleiro.
Continue a deslizar e vai vê-lo em apartamentos haussmannianos em Paris, em prédios novos nos arredores de Nantes, até em pequenos estúdios de estudantes em Lille. Camas que parecem arrumadas, calmas, quase “feitas à medida”. Chega de um marshmallow branco gigante a escorregar para um lado da cama. Esta nova forma de dormir é chique, mas também estranhamente prática. Depois de a ver uma vez, o seu edredão de repente parece datado.
O que está a acontecer é simples. O grande edredão “para o ano todo”, comprado uma vez e depois esquecido, já não combina com a forma como os franceses vivem, aquecem as casas ou decoram os interiores. Preços da energia, espaços mais pequenos e o gosto por camas ao estilo hotel estão a empurrar um novo padrão: bases mais leves, mantas empilháveis, colchas finas que se podem mover e combinar. A roupa de cama está a tornar-se modular. O conforto já não é uma peça única e grande, mas várias camadas que se ajustam como a roupa.
O movimento vê-se tanto nos números como nas fotografias. Vários grandes retalhistas franceses reportaram discretamente uma queda nas vendas de edredões muito espessos em 2024, com um aumento claro de colchas finas, mantas de algodão e mantas de lã. Uma cadeia de lojas parisiense chegou mesmo a criar um corredor inteiro “Sans couette”, dedicado apenas a sistemas de cama por camadas.
Na prática, isto revela-se em histórias simples. Em Marselha, Samir e Juliette vivem num apartamento pequeno e muito soalheiro. O edredão 260×240 dominava o quarto e retinha calor à noite. No verão passado, arrumaram-no e substituíram-no por uma manta leve de algodão, uma colcha fina de linho e uma manta de lã aos pés da cama para as noites mais frescas. “Dormimos melhor”, diz Juliette, “e mudar a cama já não parece um treino.”
Outro motor silencioso: a limpeza. Os edredões são grandes, pesados, difíceis de lavar em máquinas pequenas e irritantes de secar em apartamentos sem varanda. Com camadas, as pessoas lavam o lençol e a peça superior com mais frequência e vão rodando as mantas conforme a estação. O quarto cheira mais a fresco e a higiene passa a parecer viável.
Há também um lado emocional. O fim do edredão não é só uma questão de tendências de design ou de contas: é uma questão de controlo. Um edredão grosso dá um único nível fixo de calor. Uma cama por camadas permite que cada pessoa afine o seu casulo. Tem frio? Acrescente a pequena manta de lã. Está com calor? Deslize a colcha para baixo sem acordar o/a parceiro/a. É a lógica do guarda-roupa aplicada à cama: base leve e depois camadas conforme o seu “tempo” pessoal. A cama deixa de ser um bloco pesado e monolítico e volta a ser algo com que podemos brincar.
Como passar do edredão para as camadas sem virar as noites do avesso
A forma mais suave de dizer adeus ao edredão não é um grande gesto. É um teste simples durante algumas noites. Comece por tirar o edredão, mas manter a respetiva capa como um lençol superior leve. Acrescente por cima uma manta de peso médio ou uma colcha fina, idealmente em algodão ou linho para o corpo respirar. Dobre uma manta um pouco mais quente ao fundo da cama, ao alcance dos pés.
Nas primeiras noites, ouça o seu corpo. Se acordar com frio às 3 da manhã, não entre em pânico: puxe a manta extra em vez de andar às escuras à procura de meias. Se acordar com calor, retire a manta e durma só com a colcha/lençol superior. Este sistema progressivo ajuda a descobrir o seu verdadeiro conforto térmico, sem o efeito “tamanho único” do edredão.
Um erro comum é sobrecarregar a cama logo de início por medo do frio. Três mantas pesadas, duas mantinhas e uma colcha depois, recriou… um superedredão, só que menos prático. Comece leve e vá acrescentando uma peça de cada vez. Outra armadilha: misturar demasiadas texturas que irritam a pele ou escorregam durante a noite. Escolha um material principal junto ao corpo (percal de algodão, linho lavado, viscose de bambu) e deixe as tramas mais “artísticas” e ásperas para as mantas exteriores.
Sejamos honestos: ninguém dobra todas as mantas na perfeição todos os dias. Aceite uma bela imperfeição - uma colcha largada com naturalidade, uma manta enrolada na borda da cama. O objetivo é uma cama em que lhe apetece entrar às 23h, não uma foto de montra que tem medo de desarrumar.
Designers de interiores que acompanham tendências domésticas francesas já estão a ver esta mudança nos projetos. Um deles disse-me recentemente:
“Antes, os clientes pediam o edredão maior e mais fofo. Agora perguntam como conseguir aquele aspeto calmo, em camadas, de hotel, que se vê em Copenhaga ou Lisboa. Menos volume, mais detalhe.”
Para construir esse visual sem perder conforto, pense em três níveis e uma reserva:
- Camada base: um lençol ajustável e, se gostar, um lençol de cima para um toque mais “hotel”.
- Camada de conforto: uma colcha média ou cobre-cama de algodão que fica o ano inteiro.
- Camada de calor: uma boa manta (lã, algodão ou fibra mista) para outono e inverno.
- Reserva: uma manta pequena extra dobrada ao fundo da cama ou numa cadeira próxima para vagas de frio.
Com esta arquitetura simples, consegue lidar com quase qualquer variação de temperatura - de noites de canícula só com o lençol a manhãs de janeiro com o conjunto completo. E o efeito visual no quarto é imediato: a cama fica menos volumosa, mais leve, um pouco mais “adulta”.
O quarto reinventado: mais espaço, mais ar, mais personalidade
Quando o edredão sai, aparece algo inesperado: espaço. Na cama, primeiro, que de repente parece maior, mais arrumada, mais leve. Na prateleira da roupa de casa, onde um quadrado grande embalado a vácuo é substituído por várias peças mais finas e fáceis de empilhar. E também na cabeça. Um volume mais baixo e plano em cima da cama muda a sensação do quarto inteiro, sobretudo em quartos urbanos pequenos.
Fala-se muito de bem-estar em termos de apps de meditação e chás de ervas, e muito menos sobre aquilo que, visualmente, nos pesa todas as noites. Um edredão a cair para o chão, impossível de arrumar como deve ser, pode criar aquela sensação de desordem “de fundo”. Uma cama por camadas oferece linhas claras, ritmo, apontamentos de cor que pode mudar com as estações. Na primavera, uma manta de algodão amarelo pálido. No inverno, uma manta de lã verde-escura. Cada elemento é mais fácil de escolher, comprar e substituir do que um edredão grande e caro.
Há também uma mudança cultural. A cama “sans couette” lembra aquilo que os nossos avós tinham antes da globalização do edredão nórdico. Volta a ligar-nos às mantas de lã do Maciço Central, aos boutis da Provença, às colchas acolchoadas à mão de Portugal. Ainda assim, a versão atual é mais minimalista, mais urbana, muitas vezes bastante neutra nas cores. Esta mistura de tradição e gosto contemporâneo diz muito a muitos franceses em 2026, divididos entre a nostalgia e o desejo de uma vida mais calma e menos volumosa.
Esta mudança abre espaço para histórias pessoais. Casais com necessidades térmicas diferentes encontram finalmente uma solução que não envolve batalhas noturnas sobre quem roubou o edredão. Pais em apartamentos pequenos voltam a conseguir usar a máquina de lavar sem planear um “dia do edredão” uma vez por mês. Estudantes que mudam frequentemente deixam de arrastar uma nuvem sintética enorme de casa em casa. O fim do edredão não é uma revolução espetacular. É um recentramento silencioso - mais um sinal de que a casa francesa está a ficar mais leve, mais flexível, mais em camadas, tal como os nossos dias, as nossas responsabilidades, os nossos desejos. A cama, essa ilha central da vida privada, está apenas a acompanhar.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o/a leitor/a |
|---|---|---|
| Roupa de cama por camadas substitui edredões grossos | Use um lençol base, uma colcha de peso médio e uma boa manta | Melhor controlo da temperatura e limpeza mais fácil |
| Impacto visual no quarto | Cama mais plana e calma, com texturas e cores combináveis | Quarto mais chique, mais leve e com sensação de maior amplitude e menos desordem |
| Benefícios práticos no dia a dia | Lavagem mais leve, calor modular, arrumação mais fácil | Menos stress, mais conforto e rotinas realistas |
FAQ:
- Deixar de usar edredão é mesmo mais quente no inverno? Sim, se fizer camadas corretamente. Uma colcha de peso médio mais uma boa manta de lã ou de algodão denso isolam muitas vezes melhor do que um edredão sintético, sobretudo em edifícios mais antigos.
- Que materiais devo escolher para uma cama “sans couette”? Prefira fibras naturais ou semi-naturais: algodão ou linho junto à pele; lã ou algodão grosso nas mantas; talvez uma mistura sintética leve para a manta de cima, se quiser manutenção fácil.
- Vou demorar mais tempo a fazer a cama de manhã? Não necessariamente. A maioria das pessoas só estica o lençol, puxa a colcha principal para cima e dobra a manta extra ao fundo. Dois gestos, em menos de um minuto.
- Isto é adequado para pessoas com alergia a ácaros? Muitas vezes sim, porque pode lavar com mais frequência e a temperaturas mais altas as peças que ficam junto à pele do que um edredão grande. Basta escolher materiais laváveis e programas adequados à sua alergia.
- Tenho de comprar tudo novo para mudar? Não. Comece por reaproveitar mantas e cobertores que já tem e depois invista, aos poucos, em uma ou duas peças de qualidade: uma boa colcha e uma manta quente podem transformar por completo as suas noites.
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