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Autoridades marítimas alertam para comportamento cada vez mais agressivo de orcas em relação a embarcações.

Homem num barco a velejar interage com uma orca na água, usando um microfone e nota em papel.

O iate abrandou ao bater na ondulação curta ao largo da costa espanhola, com o sol do fim da tarde a transformar a água num cobre alaranjado. No convés, um casal filmava golfinhos com o telemóvel, a rir-se de como os animais se aproximavam da proa. Depois, o riso cortou-se de repente. Uma forma maior e negra emergiu a poucos metros, recortada contra o mar cintilante. Outra seguiu-se. A expressão do capitão foi a primeira a mudar. Desligou o motor, os olhos fixos na alta barbatana dorsal a fatiar as ondas.

O primeiro embate veio de baixo: um baque surdo e violento que fez os copos caírem do balcão da cozinha. Alguém gritou. O volante rodou nas mãos do capitão como se tivesse sido puxado por uma força invisível. Por baixo do casco, algo pesado investiu de novo, desta vez mais deliberadamente. A câmara do casal continuou a gravar - não golfinhos, mas orcas a circular, a empurrar, a bater. Ouvimos uma voz no vídeo a sussurrar: “Porque é que estão a fazer isto?”

É a mesma pergunta que guardas costeiros, cientistas e marinheiros estão agora a fazer por todo o Atlântico Norte e Mediterrâneo. Porque aquilo que costumava ser um encontro raro, quase mítico, está a transformar-se num padrão difícil de ignorar. E os avisos tornam-se mais contundentes semana após semana.

Da curiosidade às colisões: o que está a mudar no mar

Durante anos, as orcas foram o encontro de sonho para quem navega: silhuetas preto-e-brancas a deslizar junto à proa, um sinal de sorte selvagem mais do que de perigo. Essa imagem mental está a estalar. Autoridades marítimas de Espanha a Portugal, e mais a norte em direção ao sudoeste de França, estão agora a emitir alertas oficiais sobre repetidas “interações” entre grupos de orcas e embarcações em trânsito. Não são toques suaves. Os relatos descrevem lemes danificados, motores parados e tripulações abaladas, deixadas à deriva até chegar o resgate.

Os pontos críticos não são aleatórios. O Estreito de Gibraltar, partes da costa portuguesa e algumas rotas para as Canárias têm registado concentrações de incidentes desde cerca de 2020. Marinheiros falam do mesmo guião: aparecem algumas orcas, vão diretas à popa e concentram os impactos no leme. Uma análise de 2023 do Atlantic Orca Working Group contabilizou centenas destes encontros, muitos envolvendo pequenos veleiros com menos de 15 metros. Nas redes sociais, vídeos de metal dobrado, pás de leme partidas e olhos arregalados espalham-se mais depressa do que os relatórios oficiais.

Biólogos marinhos evitam usar a palavra “ataque”, preferindo termos como “interação disruptiva” ou “comportamento anómalo”. Ainda assim, o padrão é inquietante. As orcas não parecem estar simplesmente a esbarrar em barcos durante a caça. Parecem visar componentes críticos de governo com uma precisão desconcertante, muitas vezes em equipa. Alguns investigadores suspeitam de um comportamento aprendido, possivelmente desencadeado por um evento traumático envolvendo uma única orca e depois copiado pelo grupo. Outros apontam para alterações nas presas e para o tráfego marítimo intenso, que comprime as baleias em corredores mais estreitos. Seja como for, isto não é apenas uma história de verão estranha e isolada. Parece uma tendência.

Como as autoridades querem que os skippers reajam (e o que normalmente corre mal)

Os avisos da guarda costeira já parecem listas de verificação para manter a calma enquanto um predador de duas toneladas empurra o seu barco. A orientação recorrente é surpreendentemente simples: reduzir a velocidade ou parar, manter mãos e pés afastados da água, desligar o piloto automático e evitar mudanças bruscas de rumo. A ideia é tornar a embarcação menos “interessante” e reduzir o dramatismo. As autoridades desaconselham atirar objetos ou tentar afugentar as orcas com ruído. São animais protegidos, e a escalada pode sair pela culatra rapidamente.

No papel, estas regras parecem fáceis. No mar, com pancadas que fazem tremer o casco e passageiros em pânico, o instinto humano costuma ir pelo caminho oposto. As pessoas pegam nas câmaras em vez dos coletes salva-vidas. Os skippers aceleram o motor, na esperança de fugir aos animais, o que só cria mais ruído e turbulência. Algumas tripulações gritam, batem no convés ou atiram very-lights. Todos já sentimos isto: o momento em que o medo pega no leme muito antes de a lógica alcançar. Os protocolos de emergência não vivem nos nossos músculos até os ensaiarmos - e a maioria dos marinheiros de fim de semana nunca o fez.

As autoridades marítimas e os cientistas repetem uma verdade simples: o oceano é a casa delas, não a nossa. Ainda assim, a carga emocional destes encontros é real. Um skipper francês descreveu recentemente como ficou paralisado enquanto orcas circundavam o seu iate de 12 metros, com os filhos a chorar por baixo do convés. Mais tarde admitiu que tinha passado os olhos pelos e-mails de aviso antes da partida e descartou-os como “cenários improváveis do pior caso”. Como ele disse: “Li-os como o cartão de segurança num avião.” O Ministério dos Transportes espanhol apela agora a que as tripulações façam um briefing aos passageiros à partida e partilhem:

“Um comportamento calmo protege mais do que qualquer equipamento a bordo. O pânico torna as orcas imprevisíveis - e os humanos, ainda mais.”

  • Conselho-chave: Faça um briefing à tripulação sobre os protocolos em caso de orcas antes de sair do porto.
  • Erro comum: Tratar os alertas como ruído de fundo até acontecer alguma coisa.
  • Realidade emocional: O medo é contagioso num barco pequeno; alguém tem de dar o exemplo de calma.
  • Ângulo legal: Assediar ou ferir orcas pode acarretar penalizações graves.
  • Vantagem prática: Uma conversa de cinco minutos na marina pode poupar horas de caos no mar.

Entre fascínio e medo: o que isto diz sobre nós e o oceano

Estes incidentes expõem uma tensão estranha na forma como nos relacionamos com animais selvagens. Por um lado, as orcas são ícones da cultura pop: as caçadoras majestosas nos documentários, as estrelas trágicas dos debates sobre cativeiro, as mascotes elegantes de um oceano “intocado”. Por outro, quando começam a partir fibra de vidro e metal, tornam-se uma ameaça - algo a ser seguido, mapeado e evitado. As comunidades costeiras equilibram agora estes dois impulsos. Pescadores perguntam se as baleias estão a afastar o atum. Empresas de charter recebem chamadas ansiosas de clientes que viram vídeos virais e, de repente, querem itinerários “sem orcas”.

Os cientistas têm cuidado em não antropomorfizar, mas a linguagem que se infiltra nos relatórios soa quase pessoal: “comportamento lúdico”, “associação negativa”, “deslocação”. Alguns marinheiros falam abertamente de “vingança” ou “revolta”, dando a estes episódios um arco narrativo que encaixa na nossa obsessão cultural com a natureza a retaliar. A realidade é menos cinematográfica e mais complexa. As orcas são predadores altamente inteligentes, sociais e adaptáveis, num mar que está mais quente, mais ruidoso e atravessado por tráfego marítimo como nunca. Mudanças de comportamento podem ter menos a ver com drama e mais com pressão.

Para quem vai ao mar - de skippers de fim de semana a tripulações de navios de carga - a questão não é se as orcas são “boas” ou “más”. É como aprendemos a navegar num mundo em que os animais selvagens já não ficam nos papéis que lhes atribuímos. As autoridades marítimas continuarão a publicar coordenadas e protocolos. Os marinheiros continuarão a trocar histórias nos bares dos cais. Algures entre o medo e a admiração, há espaço para repensar como pode ser, na prática, uma coexistência segura - para lá de hashtags e manchetes.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Aumentam os alertas oficiais As autoridades em Espanha, Portugal e águas próximas reportam um aumento claro de “interações” orca–embarcação desde 2020. Ajuda a encarar os avisos como uma tendência real e documentada, e não como um acaso viral.
Protocolo de resposta calma Abrande ou pare, desligue o piloto automático, evite reações ruidosas, proteja o leme e mantenha todos dentro do barco. Dá-lhe um guião mental a que recorrer quando o stress dispara a bordo.
Alteração comportamental nas orcas Impactos focados no leme sugerem um comportamento aprendido, possivelmente disseminado socialmente em certos grupos. Oferece contexto para perceber “porque agora?” e acompanhar futuras atualizações científicas.

FAQ:

  • Os encontros com orcas são realmente perigosos para os humanos? Até agora, a maioria dos incidentes reportados envolve danos nas embarcações e não ferimentos em pessoas, mas o risco aumenta se os passageiros entrarem em pânico, se movimentarem no convés ou caírem ao mar durante uma colisão.
  • Porque é que as orcas visam especificamente os lemes? Os investigadores suspeitam que aprenderam que bater no leme pára o movimento do barco, seja por curiosidade, brincadeira ou por uma associação negativa com embarcações; o gatilho exato ainda está a ser estudado.
  • Que tipo de barcos é mais afetado? Veleiros mais pequenos, especialmente entre 10 e 15 metros, aparecem mais frequentemente nos relatos, provavelmente porque os lemes são mais acessíveis e a velocidade é inferior à dos grandes navios comerciais.
  • É legal tentar afugentar as orcas? As orcas estão protegidas por enquadramentos nacionais e internacionais; ações agressivas, fogo de artifício ou armas podem ser ilegais e também aumentar o stress do animal e a imprevisibilidade.
  • Como posso preparar-me se estou a planear uma travessia por uma zona crítica? Verifique as cartas e avisos mais recentes, faça um briefing à sua tripulação sobre os passos de resposta, prenda o material solto, tenha opções de governo redundantes e ensaie mentalmente manter-se calmo em vez de reagir por impulso se surgirem orcas.

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