Saltar para o conteúdo

Cardiologista alerta: este sintoma nos pés pode indicar insuficiência cardíaca.

Pessoa segura tornozelo em cima de cama, ao lado de tensiómetro e medicamentos.

A mulher hesita antes de tirar os sapatos. É fim de tarde na clínica de cardiologia, e os pés estão tão inchados que as costuras das sapatilhas deixaram sulcos vermelhos profundos na pele. Ela ri um pouco, envergonhada, e diz: “Os meus pés fazem sempre isto quando estou cansada. Basta pô-los para cima, certo?” O cardiologista inclina-se para a frente e não responde com um sorriso. Observa-lhe os tornozelos, pressiona suavemente com a ponta de um dedo e vê uma pequena depressão ficar no lugar mais tempo do que deveria. A sala parece, de repente, mais silenciosa. Quase se consegue ouvir, naquele silêncio, o coração dela a trabalhar demais.
Há qualquer coisa nos pés dela a contar uma história diferente.

Quando os seus pés sussurram o que o seu coração está a gritar

Pés inchados ao fim do dia parecem a coisa mais normal do mundo. Muitas horas em pé, sapatos apertados, uma onda de calor na plataforma do metro - culpamos tudo o que está à vista. Mas alguns tipos de inchaço não têm apenas a ver com calçado inadequado. São um alarme subtil a tocar lá de dentro, no peito. Os cardiologistas chamam-lhe “edema”, mas para muitas pessoas começa como uma preocupação vaga: as meias deixam marcas que antes não deixavam. Os pés parecem mais pesados, a pele fica brilhante, e os ossos do tornozelo vão desaparecendo lentamente. Não dói muito, por isso adiamos fazer alguma coisa.
O corpo, no entanto, raramente muda sem uma razão.

Pergunte a qualquer cardiologista de urgência num domingo à noite. Vai ouvir a mesma história com caras diferentes. Um homem na casa dos cinquenta chega por falta de ar, jurando que está apenas “fora de forma”, e ainda assim, ao fim do dia, os sapatos já não lhe servem. Uma avó vem por cansaço e menciona, de passagem, que teve de comprar chinelos novos porque os antigos “encolheram”. Depois começa o exame. O médico pressiona com o polegar o dorso do pé, perto do tornozelo. A pele afunda e fica marcada durante vários segundos, como plasticina. Esse gesto simples é muitas vezes o primeiro sinal visível de insuficiência cardíaca.
É nos pés que o segredo se revela.

Eis o que se passa. Quando o coração começa a enfraquecer, já não bombeia o sangue com a mesma eficácia. O sangue e os líquidos começam a estagnar nas partes mais baixas do corpo, puxados pela gravidade. Os pequenos vasos sanguíneos nas pernas e nos pés ficam sobrecarregados e a água extravasa para os tecidos à volta. É por isso que, de repente, as meias “marcam” e os tornozelos ficam mais redondos ao longo do dia. O inchaço associado à insuficiência cardíaca é, em geral, mole, afecta frequentemente ambos os pés e tende a piorar ao fim do dia ou após muitas horas sentado. O coração está a lutar “a montante”, por isso o problema aparece “a jusante”.
O que parece ser “apenas pés cansados” pode ser a ponta visível de uma sobrecarga invisível.

Como ler os seus pés como um cardiologista

Há um teste rápido, surpreendentemente simples, que muitos médicos fazem na consulta. Pode experimentá-lo em casa, com calma e boa luz. Sente-se, descalço, e observe bem os tornozelos e o dorso dos pés. Ainda consegue ver claramente o osso do tornozelo? A pele parece esticada, quase brilhante? Agora pressione com firmeza o polegar na pele junto ao osso do tornozelo durante pelo menos cinco segundos e depois solte. Observe o local.
Se ficar uma pequena “cova” que demora vários segundos a desaparecer, isso chama-se “edema depressível”.

Há manhãs em que os pés parecem perfeitamente normais e, depois, às 19h, parecem ter duplicado de volume. Esse contraste é uma pista. As pessoas dizem muitas vezes aos médicos: “Pensei que estava a engordar”, quando o que está realmente a acontecer é acumulação de líquidos dia após dia. Já todos passámos por isso: culpar a balança em vez de perguntar o que o corpo está a tentar dizer. Um dos erros mais comuns é atribuir tudo à idade, ao calor ou à “má circulação” sem nunca avaliar o coração. Outro é esperar até caminhar se tornar desconfortável ou até os sapatos deixarem de apertar antes de pedir ajuda.
Sejamos honestos: ninguém examina os pés todos os dias, sem falhar.

O cardiologista Dr. Luis Andrade, que acompanha doentes com insuficiência cardíaca quase diariamente, diz-o sem rodeios: “A dor não é o único sinal de que algo está errado. O inchaço silencioso dos pés é um dos alarmes mais subestimados do corpo. Quando os doentes reparam que mudaram de número de sapato, o coração muitas vezes já anda em esforço há meses.

  • Inchaço persistente de ambos os pés e tornozelos que piora ao fim do dia
  • Marcas de meias mais profundas e visíveis do que antes
  • Falta de ar ao subir escadas ou ao deitar-se completamente
  • Cansaço invulgar, mesmo em dias calmos
  • Aumento rápido de peso em poucos dias, devido a líquidos e não a comida

Estes sinais não significam automaticamente insuficiência cardíaca, mas merecem uma conversa a sério com um médico - não apenas um par de sapatos novos.

Ouvir os seus pés antes de a urgência o fazer

Depois de detectar um inchaço invulgar, o passo seguinte não é entrar em pânico, mas observar. Tente perceber quando aparece o inchaço: só ao fim do dia, o dia todo, de forma súbita ou gradual ao longo de semanas. Compare os dois pés: é simétrico ou um lado está claramente maior? Mantenha um registo simples durante alguns dias - peso de manhã, peso à noite, grau de inchaço, falta de ar ao subir escadas. Este pequeno “diário dos pés” pode ser extremamente útil numa consulta. Os médicos gostam de detalhes concretos, não apenas da frase “estão assim há algum tempo”.
Os seus pés podem tornar-se um pequeno “check-in” diário do seu coração.

Outro gesto importante é repensar quanto tempo passa sentado ou em pé sem se mexer. Quando os músculos da barriga da perna não contraem, o líquido acumula-se nos membros inferiores. Caminhar alguns minutos a cada hora, fazer pequenos círculos com os tornozelos debaixo da secretária ou flectir suavemente os dedos dos pés para cima e para baixo pode funcionar como uma bomba natural. Muitas pessoas acham que precisam de exercício intenso para “proteger o coração” e depois não fazem nada porque esse objectivo parece impossível. Movimento leve e regular já é um presente para a circulação. Se, além disso, elevar os pés numa almofada quando descansa no sofá, ajuda o líquido a regressar para cima.
O corpo gosta de ritmo, não de extremos.

Claro que existe o medo de “incomodar o médico por nada”. Muitos doentes confessam isto depois de um diagnóstico tardio. Esse medo prende-se, sobretudo, quando a linguagem médica parece intimidante. Ainda assim, uma simples conversa pode mudar toda a história. O médico de família pode examinar os seus pés, auscultar o coração, medir a tensão arterial e pedir exames básicos se necessário. Se houver suspeita de insuficiência cardíaca, o tratamento pode começar cedo, muito antes de um cansaço esmagador ou de idas à urgência.
Pequenas dúvidas hoje podem evitar grandes alarmes amanhã.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Tipo de inchaço Mole, frequentemente em ambos os pés, deixando uma “cova” após pressão Ajuda a distinguir um inchaço benigno de um sinal de alerta
Sintomas associados Falta de ar, cansaço, aumento rápido de peso, sapatos mais apertados Incentiva uma avaliação mais cedo, em vez de esperar por uma crise
Hábitos diários Movimento, elevar os pés, diário de sintomas, acompanhamento médico Oferece acções concretas para proteger a saúde do coração dia após dia

FAQ:

  • Pés inchados podem mesmo ser o primeiro sinal de insuficiência cardíaca? Sim. Em algumas pessoas, o edema nos tornozelos e pés aparece antes de qualquer dor no peito ou problemas respiratórios evidentes. É frequentemente uma das primeiras pistas visíveis.
  • Como sei se o meu inchaço é grave ou apenas de estar em pé o dia todo? Pés inchados por estar muito tempo em pé costumam melhorar rapidamente com descanso e não deixam marcas profundas de meias. O inchaço ligado à insuficiência cardíaca tende a ser mais mole, mais persistente, afecta ambos os pés e agrava-se ao longo de vários dias.
  • Devo ir às urgências por causa de pés inchados? Vá com urgência se o inchaço vier acompanhado de falta de ar súbita, dor no peito ou sensação de sufoco ao deitar-se. Caso contrário, marque uma consulta com brevidade com o seu médico para investigar com calma.
  • Posso reduzir este tipo de inchaço apenas com dieta? Reduzir o sal, evitar alimentos processados muito salgados e beber uma quantidade adequada de água pode ajudar, mas a dieta, por si só, não trata a insuficiência cardíaca. A avaliação e o tratamento médicos são essenciais.
  • A insuficiência cardíaca é sempre fatal quando começa? Não. Com diagnóstico precoce, medicação moderna e mudanças de estilo de vida, muitas pessoas vivem anos com insuficiência cardíaca estável e boa qualidade de vida. O objectivo é identificar os sinais de aviso antes de o dano se tornar avançado.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário