O segredo não é a sorte. Começa meses antes, quando as flores se desvanecem e o ar cheira a folhas húmidas. A pergunta que muitos jardineiros murmuram: o que é que eles fazem exatamente no outono para preparar uma primavera assim?
Vi um homem de casaco azul dobrar os joelhos junto a uma hortênsia em Quioto. Não teve pressa. Tocou com os dedos dois gomos gordos num caule, acenou para si mesmo e fez um único corte silencioso. Uma caixa arrumada encheu-se de flores já passadas e de algumas hastes velhas. Ouvia-se o som das aparas a cair como pássaros de papel.
Falou baixinho, quase para a planta. “Deixa-a respirar antes do inverno. Deixa a promessa para a primavera.” Os caules não ficaram rapados; ficaram apenas abertos, como se ele tivesse entreaberto uma janela. Limpou a tesoura de poda num pano, olhou para o céu, atou dois caules com um fio de ráfia e seguiu em frente. Uma planta, três minutos, uma estação inteira posta em movimento. Ele chamou-lhe uma promessa.
Poda de outono, à japonesa: leve, precisa e cheia de primavera
O que se vê no Japão não é um corte brutal. É uma arrumação leve e deliberada que respeita as flores do próximo ano. Os jardineiros falam em gomos, não em centímetros. Mantêm uma estrutura de caules fortes, desbastam a madeira cansada e apenas encurtam as varas que seriam fustigadas pelo vento de inverno. Contar gomos, não centímetros. Esse é o ritmo.
Há também um olhar para o movimento. Tufões e neve húmida podem partir um arbusto demasiado pesado no topo. Por isso, abrem o centro para circulação de ar e atam alguns caules entre si, como amigos de mãos dadas. No fim, ficam nove a doze canas boas, espaço entre elas, e as cabeças florais gastas cortadas até um par de gomos cheios. Nada parece dramático - até chegar a primavera.
Num pequeno pátio em Tóquio, uma professora reformada poda as suas ajisai todos os finais de outubro. No verão, marca com fio vermelho os caules que floriram e, no outono, remove um terço das canas mais antigas, mesmo junto à base. As restantes encurta-as logo acima do segundo par de gomos saudáveis. A planta mantém a forma, os gomos mantêm o futuro e o vento tem por onde passar.
Na costa, em Kamakura, os jardineiros dos templos fazem quase o mesmo, apenas mais depressa. Uma pequena equipa avança numa linha calma: corta, corta, recua um passo, ata, coloca cobertura morta. Raramente medem. “Leem” a planta. Se um caule está a cruzar outro, sai. Se um caule está fino e cansado, vai para o composto. Parece que pouco aconteceu. Depois chega junho, chegam as multidões, e os arbustos carregam nuvens de flores.
Porque é que este toque de outono resulta? Depois da queda das folhas, a estrutura fica visível. Consegue ver os gomos florais grandes nos tipos que florescem em madeira velha - as hortênsias de folha grande (Hydrangea macrophylla) e as hortênsias-da-montanha (Hydrangea serrata) - e evitá-los. Um desbaste leve reduz focos de doença e quebras no inverno. Remover as canas mais antigas desvia energia para madeira mais jovem, onde vive o espetáculo da próxima estação.
Há também um ritmo na própria planta. Os caules formam gomos florais no fim do verão e depois entram em repouso. Um corte suave acima desses gomos não cancela a floração. Posiciona-a. A planta entra no inverno sem uma “vela” de flores mortas a apanhar vento ou humidade. Na primavera, a seiva sobe com limpeza, e esses gomos poupados incham como pérolas.
Faça em casa: a sequência simples de outono
Comece quando as flores estiverem papiráceas e as noites finalmente arrefecerem. Use uma tesoura de poda de lâminas cruzadas (bypass), bem afiada, e limpe as lâminas. Primeiro, retire as flores passadas cortando logo acima do segundo par de gomos cheios - sente-os com os dedos. Depois, retire um terço dos caules mais antigos, lenhosos, mesmo ao nível da base para rejuvenescer o arbusto. Mantenha uma silhueta calma e equilibrada e abra o centro para o ar circular.
Em seguida, encurte as varas compridas em cerca de um terço, cortando para um gomo virado para fora. Faça o corte ligeiramente inclinado, a uma distância de “uma largura de dedo” acima do gomo, para não o deixar secar. Evite tosquias agressivas. Está a editar, não a rapar. Termine removendo rebentos fracos e finos perto do solo e folhas que tocam na terra. Uma camada leve de cobertura morta (mulch) de folhas trituradas ou palha de arroz alimenta as raízes e estabiliza a humidade durante o inverno.
Crie também espaço para a sua vida real. Todos já tivemos aquele momento em que planeámos um dia perfeito para podar, e depois caiu um aguaceiro ou o jantar atrasou. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Se falhar outubro, o início de novembro ainda funciona em muitos sítios. Em jardins frios, espere pela queda das folhas e pela primeira geada leve, e depois pode num dia seco. A planta perdoa pequenas imperfeições; só não corte os gomos florais do próximo ano nos tipos que florescem em madeira velha.
Uma grande cautela que os jardineiros japoneses repetem discretamente: nem todas as hortênsias seguem a mesma regra. As de folha grande e as da montanha florescem em madeira velha, por isso a poda de outono deve ser leve. As hortênsias-de-folha-de-carvalho (H. quercifolia) recebem um toque suave semelhante. As hortênsias paniculadas (H. paniculata) e as hortênsias lisas (H. arborescens) florescem em madeira nova, por isso a modelação mais pesada faz-se no fim do inverno. No outono, para essas, é apenas limpeza - tirar cabeças gastas, remover partes partidas, e aplicar cobertura morta.
“Deixe dois pares fortes de gomos, deixe a luz entrar na copa e remova a cana mais velha. A primavera trata do resto.” - Jardineiro-chefe, templo de Quioto
Aqui fica um cartão mental rápido para levar consigo até lá fora:
- Dois gomos cheios abaixo de cada flor passada - corte logo acima deles.
- Mantenha 9–12 canas saudáveis; remova cerca de um terço da madeira mais velha.
- Corte caules que se cruzam e ate duas ou três canas altas contra o vento de inverno.
- Para tipos paniculados e lisos: a poda profunda fica para o fim do inverno.
- Termine com uma cobertura morta leve; adube na primavera, não no outono.
O que acontece a seguir: a primavera começa no outono
O presente silencioso da poda de outono é o ambiente. Um arbusto através do qual se consegue ver um pouco. Um caminho que já não agarra no casaco. Não está a perseguir uma forma perfeita; está a limpar o caminho para a primavera.
Em março, os gomos guardados estão gordos e brilhantes. O ar fica mais quente, e os seus cortes leves guiam a planta como carris para um comboio. Rebentos novos sobem onde a luz do sol conseguiu entrar no inverno. As flores parecem inevitáveis, como se fossem sempre acontecer. Não seriam - não assim.
A cor da primavera começa com uma mão calma no outono. Partilhe uma fotografia com o seu “eu” do futuro; é fácil esquecer como pequeno e arrumado tudo parecia em novembro. Depois junho vai parecer uma espécie de magia que ajudou a criar sem pressa. Isso é a coisa mais japonesa nisto.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Poda leve de outono para hortênsias que florescem em madeira velha | Retirar flores passadas até dois gomos cheios; remover um terço das canas mais velhas junto à base | Protege as flores do próximo ano enquanto rejuvenesce o arbusto |
| Estrutura acima do comprimento | Manter 9–12 canas fortes, abrir o centro, atar caules altos | Reduz danos de inverno e doenças; prepara um crescimento mais cheio na primavera |
| Conheça a sua espécie | Folha grande/montanha em madeira velha; paniculada/lisa em madeira nova | Evita cortar as flores do próximo ano ao usar o momento certo |
FAQ:
- Quando exatamente devo podar no outono? Depois da queda das folhas e quando as noites arrefecerem, num dia seco. Em zonas amenas, do fim de outubro a meados de novembro funciona; em zonas mais frias, antecipe.
- Como identifico os gomos certos para manter? Procure com os dedos dois “olhos” cheios, em pares opostos no caule. Estão abaixo da cabeça floral passada nas hortênsias de folha grande e da montanha.
- Posso fazer uma poda drástica numa hortênsia de folha grande agora? Evite cortes duros no outono para tipos de madeira velha. Retire as canas mais antigas junto à base e encurte o resto apenas ligeiramente acima de bons gomos.
- E as hortênsias paniculadas ou lisas? Florescem em madeira nova. Faça limpeza mínima no outono e modele mais a fundo no fim do inverno, antes de começar o crescimento.
- É aconselhável adubar depois de podar? Evite adubos ricos em azoto no outono. Aplique cobertura morta agora e adube na primavera, quando o crescimento começa, para uma floração mais forte.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário