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Em 2008, a China construiu estações de metro no meio do nada; agora finalmente percebemos porquê.

Homem de pé numa saída de metro segurando um mapa, rodeado por construção e arranha-céus ao fundo.

Num cinzento amanhecer de inverno em 2009, um trabalhador de escritório de Pequim chamado Liu saiu de um comboio de metro acabado de estrear e ficou a olhar para… nada.
Sem centros comerciais, sem torres, sem multidões. Apenas campos vazios, estradas meio construídas e uma entrada solitária de estação a erguer-se da lama como uma nave espacial que aterrou no filme errado.

As portas do comboio fecharam-se atrás dele com um bip nítido e futurista. O silêncio lá fora parecia quase embaraçoso.

Na altura, as redes sociais chinesas estavam cheias de piadas sobre “estações fantasma” e “linhas fantasma”. As pessoas partilhavam fotografias de plataformas reluzentes onde mal aparecia uma dúzia de passageiros na hora de ponta.

As autoridades insistiam que tudo fazia sentido “para o futuro”. Mas ninguém explicava realmente como seria esse futuro.

Quinze anos depois, a paisagem em redor dessas estações conta uma história muito diferente.

De campos vazios a polos de arranha-céus

Vejamos a Linha 4 em Pequim. Quando abriu em 2009, algumas estações no troço sul pareciam paragens de metro para lado nenhum. Saídas largas davam para cruzamentos poeirentos, com apenas algumas lojas de noodles e uma grua de construção solitária ao longe.

Os moradores brincavam dizendo que a cidade tinha construído um metro só para cães vadios e bicicletas de entregas. Ainda assim, os comboios chegavam de poucos em poucos minutos - como uma promessa teimosa de que as pessoas acabariam por aparecer.

Os urbanistas repetiam baixinho o mesmo mantra: primeiro constroem-se os carris, a vida vem depois.

Avançando para 2024, essas paragens “no meio do nada” estão agora cravadas no coração de zonas densas e hiperconectadas. Em redor de Gongyi Xiqiao, outrora uma área semi-rural no fim da Linha 4, existem hoje enormes complexos residenciais, centros comerciais e escolas cheias de estudantes que andam na mesma linha que Liu apanhou naquela manhã fria.

As imagens de satélite mostram a transformação de forma quase brutal. Manchas castanhas de campo tornam-se grelhas de ruas e, depois, quarteirões compactos com fachadas iluminadas por néon.

As escadas solitárias que antes subiam da terra desembocam agora em avenidas de seis faixas cheias de táxis, TVDEs e bicicletas partilhadas.

O que em 2008 parecia loucura de planeamento era, na verdade, uma inversão deliberada da lógica habitual de construir cidades. Em vez de perseguirem o crescimento urbano com linhas de metro tardias e sobrecarregadas, as cidades chinesas tentaram outra coisa: plantaram o metro primeiro como coluna vertebral e fizeram crescer o corpo da cidade à sua volta.

O desenvolvimento orientado para o transporte público tornou-se o guião silencioso por trás dessas paragens “fantasma”. O solo perto das futuras estações foi classificado, vendido e urbanizado precisamente porque o metro já lá estava.

Não foi uma aposta aleatória no deserto. Foi uma forma de fixar onde a cidade iria crescer - e quem capturaria esse valor.

A estratégia escondida por trás das “estações fantasma”

Há um truque de planeamento simples enterrado dentro dessas plataformas vazias: se só se constroem linhas de metro onde as pessoas já vivem, chega-se sempre tarde.

As autoridades chinesas decidiram inverter o guião. Identificaram corredores para onde a cidade queria expandir-se e, depois, traçaram rotas de metro por essas áreas anos antes de a maioria dos residentes chegar.

Os promotores imobiliários leram essas linhas como mapas do tesouro. Os preços dos terrenos perto das futuras estações subiram cedo, seguiram-se os empréstimos para construção e, de repente, o “meio do nada” já não parecia assim tão vazio nos balanços.

Muitos visitantes estrangeiros que andaram no metro de Xangai por volta de 2010 têm a mesma lembrança: estações elegantes e impecáveis nos extremos das linhas, pisos a brilhar, ecrãs LED… e quase ninguém à espera na plataforma. Era surreal, como caminhar por um modelo 3D renderizado em vez de uma cidade real.

Depois veio o ponto de viragem. Alguns anos mais tarde, os subúrbios extensos de Xangai - lugares como Zhangjiang ou Lingang - tinham parques de escritórios, universidades e polos tecnológicos. O metro tornou-se a forma padrão de deslocação; os comboios antes vazios ficaram subitamente cheios de engenheiros e estudantes a olhar para o telemóvel.

Todos conhecemos esse momento em que uma ideia “cedo demais” de repente parece perfeitamente cronometrada em retrospetiva.

Por trás desse timing, existe outra camada menos fotogénica: dinheiro. Os governos municipais podiam usar o futuro acesso ao metro para aumentar o valor dos terrenos e, depois, financiar parte da construção vendendo esse solo a promotores.

A estação na lama não foi um erro; foi um instrumento financeiro.

Ao construir cedo, as autoridades também empurraram os residentes para o transporte público em vez do automóvel, antes de maus hábitos se consolidarem. Sejamos honestos: quase ninguém passa de dois carros por família para o metro se a linha só chegar décadas depois.

O que a China de 2008 ensina discretamente a qualquer cidade em crescimento

Há uma espécie de paciência teimosa em construir infraestruturas antes de as pessoas as pedirem. Significa aceitar anos de críticas, fotografias de comboios vazios e comentários indignados sobre “dinheiro público desperdiçado”.

Ainda assim, o método é estranhamente claro: primeiro, mapear onde a cidade idealmente deve crescer - não onde já está a transbordar. Segundo, prender esse plano a infraestruturas duras: carris, estações, oficinas. Terceiro, ligar esse esqueleto a emprego e serviços depressa o suficiente para que as pessoas queiram mesmo viver ao longo da linha.

Os planeadores chineses não apostaram apenas em betão. Apostaram no tempo.

Muitas cidades fora da China ficam presas num ciclo: o trânsito torna-se insuportável e alguém propõe um novo metro ou elétrico. Debatem-se soluções, os orçamentos disparam, as eleições mudam e, quando o projeto finalmente abre, a procura já se deslocou ainda mais para fora.

As estações chinesas “no meio do nada” expõem esse ciclo sem piedade. Dizem: se só reagires ao trânsito de hoje, nunca alcançarás a cidade de amanhã.

Ao mesmo tempo, ninguém deve romantizar este modelo. Algumas linhas serviram realmente quase ninguém durante anos. Algumas estações ainda parecem sobredimensionadas - salas de espera para um futuro que está a demorar.

“Na altura dizíamos: ‘Porque é que o governo está a desperdiçar dinheiro? Não vive ninguém aqui’”, recorda um professor reformado em Chengdu, cuja paragem outrora isolada está agora enterrada sob centros comerciais. “Agora os meus netos visitam-me todos os fins de semana de metro. Já não me queixo.”

  • Plantar a rede cedo
    Construir linhas estruturantes antes de a procura aparecer por completo, para que a cidade aprenda desde o primeiro dia a crescer ao longo dos carris - e não das autoestradas.
  • Ligar as estações à vida diária
    Escolas, centros de saúde e mercados junto às saídas transformam uma plataforma nua num íman de bairro.
  • Usar o valor do solo, não apenas as tarifas
    O verdadeiro dinheiro está na subida dos preços imobiliários em torno das estações, não só nos bilhetes.
  • Aceitar os “anos vazios”
    Essas plataformas silenciosas e pouco usadas fazem parte do custo do planeamento de longo prazo - não são prova de falhanço.
  • Manter flexibilidade nas periferias
    Se uma paragem continuar vazia, o zonamento e as ligações de autocarro podem ser ajustados em vez de congelar o erro.

O que essas plataformas vazias dizem sobre o nosso próprio futuro

Se hoje se atravessarem algumas destas estações antes desertas, é difícil imaginar o vazio que existia antes. Pendulares da manhã empurram-se nas barreiras de acesso, crianças de uniforme arrastam mochilas com rodas, casais reformados discutem com calma onde almoçar.

As “estações no meio do nada” tornaram-se invisíveis, engolidas pela própria cidade que foram acusadas de ultrapassar. Esse é o paradoxo silencioso: quando estas apostas resultam, já ninguém lhes chama apostas.

Há também uma pergunta escondida por trás do exemplo chinês: que tipo de futuro estamos a construir? Carros a gasolina ou linhas de metro? Subúrbios dispersos ou corredores compactos ao longo dos carris? Aquelas plataformas anónimas e sobredimensionadas de 2008 foram uma resposta rude e concreta a essa pergunta.

Algumas cidades nunca adotarão a escala ou a velocidade da China. E não deveriam. Mas a lição de fundo - ousar construir antes de a multidão o exigir aos gritos - é menos estrangeira do que parece. É a mesma lógica de isolar uma casa antes de a fatura da energia explodir, ou aprender uma competência antes de o trabalho a exigir.

Da próxima vez que vir uma fotografia de uma estação reluzente e quase vazia na periferia de uma cidade em rápido crescimento, talvez a olhe de outra forma. Talvez não seja um monumento ao desperdício. Talvez seja um contrato silencioso com o futuro, escrito em aço e azulejo.

E algures, uma criança a sair hoje desse comboio “fantasma” dirá aos seus netos, décadas mais tarde: “Sabem, quando construíram isto, aqui não havia nada.”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Construir antes da procura A China instalou linhas de metro através de zonas vazias no final dos anos 2000 Mostra como o planeamento de longo prazo pode parecer errado no curto prazo, mas compensar mais tarde
O transporte molda as cidades As estações atraíram habitação, centros comerciais, escritórios e escolas à sua volta Ajuda a perceber porque decisões de transporte orientadas para o futuro mudam o quotidiano
Financiamento através do solo A valorização dos terrenos junto às estações ajudou a financiar redes dispendiosas Oferece um modelo concreto de como grandes projetos de transporte podem tornar-se financeiramente viáveis

FAQ:

  • Porque é que a China construiu estações de metro em áreas com quase ninguém? Porque as autoridades queriam que o metro orientasse onde as cidades iriam crescer, em vez de correr atrás do crescimento depois de ele acontecer. As linhas foram colocadas em zonas de expansão planeada para que habitação e emprego se concentrassem ali mais tarde.
  • Essas “estações fantasma” chegaram a ficar movimentadas? Muitas sim. Lugares que pareciam vazios entre 2008 e 2012 são hoje subúrbios densos ou centros urbanos secundários, com comboios cheios na hora de ponta e bairros totalmente integrados na rede.
  • Esta estratégia foi financeiramente sustentável? Em parte, sim. Os governos muitas vezes recuperaram custos vendendo ou concessionando terrenos perto das estações a preços mais elevados e usando o metro para aumentar o valor global e a base fiscal de novos distritos.
  • Outros países podem copiar este modelo? Não à mesma velocidade nem escala, dadas as diferenças de política e orçamento, mas a ideia central - primeiro planear o transporte, depois o crescimento - pode ser adaptada, sobretudo em corredores de rápido crescimento.
  • Ainda existem estações de metro subutilizadas na China hoje? Sim. Algumas linhas e paragens continuam pouco usadas, especialmente em novos distritos que ainda estão a consolidar-se. Fazem parte de um jogo de longo prazo que pode levar décadas a validar por completo - ou a corrigir.

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