Saltar para o conteúdo

Este psicólogo de renome mundial garante: wabi-sabi é a melhor filosofia de vida, e eis porquê.

Pessoa segurando uma caneca enquanto escreve num caderno em mesa de madeira. Pêras e pano na mesa.

A terapeuta de renome mundial afirma agora que um conceito japonês com séculos de história pode ser o caminho mais realista para uma vida mais calma e plena - não pela perseguição da perfeição, mas por fazer as pazes com falhas, fissuras e caos.

O que este psicólogo de renome está a dizer

O psicólogo norte-americano Mark Travers, terapeuta e colaborador regular da Forbes e da Psychology Today, tem acompanhado a explosão de novas “filosofias de vida”. Da positividade tóxica aos cultos da produtividade, a maioria promete transformações rápidas. E a maioria também deixa as pessoas com a sensação de que estão constantemente a falhar.

Wabi-sabi, defende ele, oferece algo radicalmente diferente: uma forma de sentir estabilidade emocional sem fingir que a vida é arrumada ou indolor.

Travers aponta para um hábito-chave partilhado por pessoas com boa saúde mental: não desperdiçam energia a lutar contra experiências difíceis. Em vez disso, desenvolvem a capacidade de estar com elas, aprender com elas e seguir em frente.

Na sua perspetiva, o wabi-sabi não é apenas uma estética. É um terreno de treino psicológico para aceitar desconforto, perda e imperfeição como partes normais de estar vivo. Essa mudança, diz ele, apoia um sistema de regulação emocional mais saudável do que qualquer mantra de “só boas vibrações”.

O que o wabi-sabi significa, afinal

O termo vem da estética japonesa e do Budismo Zen. Não existe uma tradução perfeita, mas combina, de forma aproximada:

  • Wabi - a beleza silenciosa da simplicidade e da humildade
  • Sabi - a beleza que surge com a idade, o desgaste e a transitoriedade

Juntos, wabi-sabi valoriza coisas simples, naturais e ligeiramente gastas. Rejeita a ideia de que algo tem de ser impecável para merecer atenção.

No wabi-sabi, uma chávena lascada, um banco de madeira envelhecido pela chuva ou um sorriso com rugas não são problemas para corrigir, mas histórias para guardar.

Esta forma de ver não se aplica apenas a objetos. Aplica-se também a carreiras que fazem ziguezagues, relações com cicatrizes e corpos que mudam. Onde a autoajuda ocidental muitas vezes enquadra isto como defeitos, o wabi-sabi trata-os como prova de vida.

De tendência de design a filosofia de vida

A maioria das pessoas fora do Japão conheceu o wabi-sabi através de interiores do Instagram e cerâmica cuidadosamente estilizada. Isso esbateu a linha entre uma filosofia profunda e uma moda passageira. Ainda assim, investigadores dizem que há mais em jogo do que cores neutras bonitas.

Um artigo na revista Art and Society analisou como a estética wabi-sabi se mistura com o minimalismo nórdico no design de interiores contemporâneo. Os autores concluíram que ambas as abordagens valorizam o espaço vazio, a calma e os materiais naturais, mas por razões ligeiramente diferentes.

O wabi-sabi celebra a imperfeição e a passagem do tempo, enquanto o minimalismo escandinavo se foca na clareza e em linhas limpas.

Em conjunto, reformularam a forma como muitas pessoas desenham casas e escritórios: menos objetos, mais “ar”, menos ruído visual. Segundo o estudo, esta mudança pode apoiar a atenção plena, a tranquilidade e a funcionalidade - três condições que também se alinham com objetivos modernos de saúde mental.

Porque é que psicólogos o veem como “a melhor” abordagem

Quando Travers descreve o wabi-sabi como a filosofia de vida mais poderosa disponível, está, na verdade, a comparar o seu impacto psicológico com o de mentalidades ocidentais populares.

Muitas filosofias modernas de sucesso assentam na maximização: ganhar mais, otimizar mais, alcançar mais. Não deixam muito espaço para luto, doença ou simplesmente ser mediano. Esse fosso entre o ideal e a realidade é onde a ansiedade muitas vezes se instala.

O wabi-sabi reduz esse fosso ao tratar a imperfeição como ponto de partida, não como estado de falha.

Isto pode beneficiar a saúde mental de várias formas:

  • Menos perfeccionismo: se as fissuras são permitidas, os erros parecem menos catastróficos.
  • Maior resiliência: aceitar a mudança ajuda as pessoas a adaptarem-se quando a vida muda de repente.
  • Relações mais autênticas: quando aceitas os teus próprios defeitos, julgas os outros com menos dureza.
  • Menos comparação: o foco passa de “melhor” para “verdadeiro”, aliviando a pressão das redes sociais.

Numa perspetiva clínica, esta combinação apoia diretamente a regulação emocional: reconhecer sentimentos, enraizar-se no presente e escolher respostas flexíveis.

Como trazer o wabi-sabi para o dia a dia

Adotar wabi-sabi não exige uma cerimónia do chá japonesa nem um novo conjunto de cerâmica. Envolve pequenas mudanças na forma como tratas o teu espaço, o teu tempo e a ti próprio.

Em casa

  • Mantém alguns objetos que mostrem idade - uma mesa antiga, uma fotografia desbotada - e coloca-os onde os possas ver.
  • Desfaz-te de tralha puramente decorativa que não tenha história nem função.
  • Escolhe materiais naturais quando possível: madeira, linho, barro, plantas, pedra.
  • Permite pequenas imperfeições na decoração - uma prateleira ligeiramente desnivelada, peças feitas à mão, pratos diferentes entre si.

Na tua agenda

  • Deixa “espaço vazio” na tua semana em vez de marcares todas as noites.
  • Define objetivos diários realistas, não heroicos.
  • Planeia pequenas pausas entre tarefas para fazeres um check-in ao corpo e à respiração.
  • Aceita que alguns dias serão menos produtivos sem os rotulares como fracassos.

Na forma como falas contigo

Wabi-sabi também significa falar contigo de outra maneira. Frases comuns como “já devia ter ultrapassado isto” ou “estraguei tudo” partem do pressuposto de que a vida tem de ser suave.

Uma mentalidade wabi-sabi troca essas frases por outras mais gentis: “Isto está confuso, e isso é permitido.” “Continuo a ter valor, mesmo aqui.”

Esta mudança linguística pode soar pequena, mas terapeutas frequentemente veem-na como um ponto de viragem para pessoas que lutam com vergonha ou auto-crítica crónica.

Práticas simples para experimentar esta semana

Para quem gosta de ferramentas concretas, especialistas em saúde mental sugerem tratar o wabi-sabi como um conjunto de pequenas experiências.

Prática O que fazes Efeito psicológico
Apreciação de fissuras Repara num objeto “imperfeito” por dia e diz o que gostas nele. Treina o cérebro a ver valor onde, à primeira vista, vê defeito.
Uma fotografia imperfeita Tira uma fotografia sem repetições nem filtros e guarda-a. Reduz a pressão de “performar” para os outros.
Reset de 5 minutos ao quarto Passa cinco minutos a desimpedir uma superfície e a deixar espaço vazio. Cria um sinal visual de calma e de “já chega”.
Check-in meteorológico Duas vezes por dia, nomeia o teu humor como um boletim meteorológico, sem julgar. Desenvolve consciência emocional sem drama.

Conceitos-chave que vale a pena destrinçar

Vários termos ligados ao wabi-sabi aparecem na psicologia e conectam-se de perto com esta filosofia.

  • Impermanência: a ideia de que tudo muda - empregos, corpos, relações. Quando as pessoas resistem a isto, muitas vezes sentem tensão constante. Aceitá-lo pode diminuir a ansiedade em torno da perda e do envelhecimento.
  • Mindfulness (atenção plena): prestar atenção ao momento presente em vez de reviver o passado ou ensaiar o futuro. O wabi-sabi usa objetos e espaços físicos como âncoras dessa atenção.
  • Aceitação radical: um conceito terapêutico em que deixas de lutar contra a realidade e, em vez disso, decides como responder-lhe. O wabi-sabi oferece uma versão cultural e estética desse movimento.

Como poderia ser, na prática, um dia wabi-sabi

Imagina uma segunda-feira com esta filosofia em vigor. O alarme toca tarde porque adormeceste e não ouviste o primeiro. Em vez de dizeres que o dia ficou arruinado, ajustas o plano. Cortas uma tarefa não essencial, tomas um pequeno-almoço mais simples e aceitas que a manhã vai ser mais lenta.

No trabalho, uma apresentação tem um erro ortográfico. Corriges, pedes desculpa de forma breve e segues, em vez de entrares numa espiral de auto-crítica. Ao almoço, sentas-te num banco com tinta a descascar, reparando em quantas mãos ali pousaram ao longo dos anos. Essa atenção simples afasta-te das métricas constantes de desempenho.

De volta a casa, resistes ao impulso de fazer scroll por “casas perfeitas”. Arrumas um canto da sala, pousas na mesa uma caneca lascada de que gostas e deixas o resto para outro dia. Continuas a importar-te. Só que deixas de tratar a impecabilidade como o preço do autorrespeito.

Riscos, limites e expectativas realistas

Psicólogos também alertam contra transformar o wabi-sabi numa desculpa para desistir. Dizer “nada dura” pode tornar-se uma forma de evitar compromissos ou conversas difíceis. O objetivo não é apatia; é aceitação envolvida.

Há também uma questão cultural. O wabi-sabi vem de um contexto japonês específico, moldado pela prática Zen e pelas artes tradicionais. Retirá-lo desse contexto e usá-lo como ferramenta de marketing para velas e almofadas pode achatar o seu significado. Profissionais de saúde mental sugerem abordá-lo com curiosidade e respeito, não como mais um emblema de autoaperfeiçoamento.

Usada com ponderação, porém, esta filosofia pode coexistir com terapia, medicação ou outras estratégias de bem-estar. Não substitui tratamento médico para depressão ou ansiedade, mas pode suavizar as narrativas internas duras que muitas vezes as acompanham.

Para pessoas exaustas da corrida a uma vida impecável, o wabi-sabi oferece um alívio: podes continuar a crescer, a importar-te e a mudar, sem apagar todas as fissuras pelo caminho.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário