Num salão movimentado de rua principal, numa quinta-feira chuvosa, entra uma mulher nos seus cinquenta e poucos anos, tira um gorro e diz, quase a pedir desculpa: “Só preciso de uma coisinha… só dos meus brancos.”
O cabelo está brilhante, o corte é recente, as raízes… já desfocadas. O cabeleireiro fica imóvel por um segundo e depois ri, nervoso.
Já viu isto antes. O truque viral. Aquele que agora todas as clientes lhe mostram no telemóvel, prometendo: “Vai adorar isto, poupa-me imenso dinheiro.”
Ele sorri e faz de conta que concorda, mas os olhos fogem para o livro de marcações vazio no balcão.
Este ano, mudou alguma coisa na forma como lidamos com os cabelos brancos.
E nem toda a gente está contente com isso.
O truque viral para disfarçar brancos que está, discretamente, a esvaziar os salões
O truque é enganadoramente simples: em vez de colorações completas, as pessoas pegam numa caneta barata, num aplicador tipo varinha ou num pó e “pintam” apenas os fios brancos que as incomodam.
Uma passada ao longo da risca, uns toques nas têmporas, e os fios prateados desaparecem como se nunca tivessem existido.
Demora menos de dois minutos e custa o preço de um café para levar.
Sem marcação, sem papel de alumínio, sem a luz do salão a expor cada linha do teu rosto.
Desliza no TikTok ou no Instagram e encontras vídeos intermináveis de mulheres a filmarem-se ao espelho da casa de banho, a dar pequenas pancadinhas com uma esponja junto à linha do cabelo.
Sorriem, inclinam a cabeça e depois passam o dedo no ecrã para revelar uma versão dramaticamente “mais jovem” de si mesmas.
Um vídeo de uma criadora dos EUA a usar um pó para cobrir brancos ultrapassou 10 milhões de visualizações numa semana.
As vendas de sticks para retoque de raiz, fibras e escovas dispararam silenciosamente na Amazon e nos supermercados.
Para muitas pessoas, isto sabe a batota ao sistema.
Porquê aguentar duas horas de coloração quando só queres esconder aquela risca teimosa na raiz antes de um encontro, de uma chamada no Zoom, ou de veres o teu ex num casamento?
Não tens de te comprometer com coloração regular, não tens de mudar o teu visual inteiro - só “apagas” aquilo de que não gostas.
É a ilusão de juventude, aplicada à velocidade do rímel.
O truque “mágico” que os cabeleireiros dizem estar a roubar-lhes o trabalho
Pergunta a cabeleireiros o que acham destes gadgets para cobrir brancos e a reação raramente é neutra.
Alguns encolhem os ombros e dizem que faz parte do jogo. Outros ficam visivelmente tensos.
O problema, dizem, não é apenas a canetinha em si, mas a forma como muda hábitos.
Clientes que antes vinham de quatro em quatro ou de seis em seis semanas, agora esticam as visitas para dez, às vezes doze.
Em linguagem de salão, isso é uma crise financeira silenciosa.
Vejamos a Laura, 42 anos, especialista em cor há quase duas décadas.
Conta-me que costumava ver uma das suas clientes mais fiéis, uma advogada de empresa, todos os meses como um relógio.
Depois a cliente descobriu uma técnica viral de “picar os brancos” com uma escova com cor e passou a marcar a coloração “só quando fosse mesmo necessário”.
Isso transformou-se em três visitas por ano em vez de dez.
Multiplica isto por dezenas de clientes regulares e os números começam a doer.
Há também uma ferida mais funda, para lá do dinheiro perdido.
Os cabeleireiros são treinados para trabalhar textura, tom, movimento - para criar harmonia entre um rosto e uma cor.
Quando os fios brancos são “pintados” ao acaso em casa com pigmentos espessos e opacos, esse equilíbrio perde-se.
As raízes ficam manchadas, a linha do cabelo fica estranhamente plana e, quando as clientes finalmente voltam ao salão, corrigir o resultado pode ser mais complexo do que uma simples cobertura de brancos.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, religiosamente.
Como o truque funciona (e porque é tão viciante)
O princípio é o mesmo na maioria destes truques virais para os brancos.
Identificas os fios que apanham a luz primeiro - normalmente à volta das têmporas, na risca e no topo da cabeça - e aplicas cor apenas nesses.
Pode ser um stick com cera, uma esponja com pó com pigmento, um pincel pequeno com pigmento líquido, ou até uma escova de dentes mergulhada em sombra de olhos.
Empurras a cor suavemente para os brancos visíveis, esbates com os dedos ou com um pente e paras.
O resto do cabelo fica natural.
Usado com moderação, isto pode mesmo ficar bem.
Se a tua base for próxima do pigmento e te concentrares apenas nos fios mais refletivos, obténs uma espécie de efeito “filtro suave”.
O olho deixa de apanhar o brilho do branco junto à linha do cabelo, e o rosto parece mais liso, mais descansado.
Pareces tu depois de uma excelente sesta, não como alguém que acabou de fazer uma transformação completa.
O perigo começa quando a solução rápida passa a ser a única estratégia.
Os cabeleireiros dizem que o erro mais comum é transformar um truque subtil numa máscara diária.
Sticks para cobrir brancos são muitas vezes cerosos e podem acumular, entupindo a zona da raiz e deixando o cabelo com aspeto rígido e sujo.
Os pigmentos também podem manchar o couro cabeludo, deixando manchas acastanhadas difíceis de esbater, sobretudo junto à testa e às orelhas.
Um colorista de Londres disse-me:
“Eu não odeio os produtos. Odeio quando o meu trabalho é culpado por um mau resultado que vem de três meses de porcaria acumulada em camadas por cima do cabelo.”
- Usa estes truques como plano B entre marcações, não como única solução.
- Escolhe um tom ligeiramente mais claro do que a tua base para o resultado não ficar duro ou com efeito “capacete”.
- Lava o couro cabeludo regularmente com um champô esfoliante suave para evitar acumulação.
- Evita arrastar cor para a pele; dá pequenos toques e esbate com um pincel.
- Se estás totalmente “sal e pimenta”, considera abraçar algum branco em vez de perseguires o apagamento total.
Juventude, controlo e o que os cabelos brancos revelam realmente sobre nós
O mais surpreendente não é só que um truque para meia dúzia de fios prateados consiga abalar uma profissão inteira.
É a carga emocional desses fios.
O cabelo branco tornou-se um campo de batalha onde dinheiro, tempo e autoestima colidem.
De um lado, pessoas que se sentem empoderadas com este controlo DIY: chega de implorar por marcações de última hora, chega de se sentirem julgadas numa cadeira de salão, chega de pânico ao ver “raízes”.
Do outro, pequenos negócios a verem fontes de rendimento regulares evaporarem porque uma caneta e um vídeo viral prometeram juventude eterna em casa.
Há também uma pergunta mais silenciosa por baixo disto: o que é que estamos exatamente a tentar apagar?
Meia dúzia de fios prateados, ou os anos que eles representam.
Algumas mulheres agora usam estes truques de forma mais seletiva, deixando um halo suave de branco, mas apagando os mais “barulhentos”, os mais brilhantes.
Não querem fingir que têm 25 anos. Só não querem que o cabelo grite sobre cada noite mal dormida e cada década stressante.
O branco, nesse sentido, passa a ser algo que se edita, não algo que se elimina.
Entretanto, os cabeleireiros são forçados a repensar o seu papel.
Os que lidam melhor com isto são os que deixam de lutar contra os gadgets e começam a integrá-los.
Ensinam as clientes a escolher produtos que se dão bem com cor profissional, desenham cortes que trabalham com o branco em vez de contra ele, e oferecem serviços de “mistura” em vez de cobertura rígida.
O trabalho muda de esconder a idade para curar a forma como ela aparece.
O truque viral não desaparece, mas deixa de ser uma arma contra eles.
Talvez essa seja a verdadeira tensão: não entre cabelo branco e juventude, mas entre independência e conhecimento especializado.
Entre o entusiasmo de te arranjares no espelho da casa de banho e o alívio de entregares a tua cabeça a alguém que entende o jogo a longo prazo.
O stick minúsculo que apaga um branco teimoso na têmpora não é mau - tal como uma coloração arrojada no salão não é automaticamente “falsa”.
O que importa é se estamos a perseguir uma imagem que nunca vamos conseguir manter, ou a escolher, conscientemente, quanta da nossa história o nosso cabelo pode contar.
E essa conversa vai muito além de meia dúzia de fios brancos rebeldes.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para a leitora/o leitor |
|---|---|---|
| Truque viral para os brancos | Canetas, pós e escovas de retoque direcionado escondem apenas os fios visíveis | Forma rápida e barata de suavizar o aspeto do envelhecimento sem coloração total |
| Impacto nos salões | As clientes espaçam marcações, criando pressão financeira e desafios técnicos | Ajuda a compreender a tensão com os cabeleireiros e os seus conselhos |
| Uso inteligente | Aplicação ocasional e subtil, mais limpeza regular e orientação profissional | Permite parecer mais fresca/o sem danificar o cabelo nem sabotar futuras colorações |
FAQ:
- Este truque para cobrir brancos danifica o cabelo? A maioria das canetas e pós não altera quimicamente o cabelo, mas o uso pesado e diário pode causar acumulação, secura e quebra se nunca fizeres uma limpeza mais profunda (clarificante) nem condicionares corretamente.
- Posso usar estes produtos em cabelo totalmente branco? Podes, mas o resultado pode ficar plano e pouco natural; muitos coloristas sugerem misturar tons ou deixar algum branco visível para um efeito mais suave.
- A coloração do salão ainda funciona se eu usar sticks de raiz? Sim, mas avisa o teu cabeleireiro; pode ser necessário desintoxicar/limpar o cabelo primeiro para a tinta pegar de forma uniforme.
- Há opções melhores do que canetas e pós para brancos frequentes? Brilhos (gloss) semi-permanentes, lowlights ou técnicas de mistura de brancos no salão podem dar um resultado mais natural e duradouro.
- Com que frequência devo depender destes retoques virais? Uso ocasional antes de eventos ou entre marcações é ok; se estás a depender deles diariamente, talvez seja altura de explorar um plano de cor mais a longo prazo.
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