A primeira vez que vi o Gérard, 72 anos, entrar no parque com os seus dois bastões de caminhada, pensei sinceramente que se tinha perdido a caminho de uma estância de esqui. Dez minutos depois, enquanto eu ainda acordava com o café num banco ali perto, ele já tinha dado duas voltas ao lago, faces coradas, a conversar com quem se cruzava no caminho. Sem saco de piscina, sem tapete de yoga, sem equipamento sofisticado de ginásio. Apenas ténis, um boné e aqueles paus estranhos que faziam um clique leve no passeio.
À volta dele, outros reformados estavam sentados, a ver os patos, a massajar joelhos rígidos. Alguns seguiam-no com o olhar, meio curiosos, meio céticos. O Gérard sorriu e disse: “Experimentem uma vez e hoje dormem que nem bebés.” Ninguém se mexeu.
Semanas depois, três dessas mesmas pessoas caminhavam atrás dele. E não estavam apenas a caminhar.
Porque é que as atividades clássicas falham para muitos seniores com dores nas articulações
À primeira vista, toda a gente repete o mesmo conselho para quem tem mais de 65 anos e joelhos em mau estado ou ancas doloridas: “Vá nadar, faça Pilates, é suave.” No papel, parece perfeito. Na vida real, a coisa complica-se. As piscinas são barulhentas, cheias, com azulejos escorregadios e horários difíceis. O Pilates exige tapetes, aulas e, muitas vezes, levantar-se e deitar-se no chão - o que já é uma proeza atlética quando as costas parecem de betão.
Tantos seniores começam com boas intenções, vão duas vezes e depois deixam de ir em silêncio. Não porque sejam preguiçosos, mas porque toda a logística simplesmente não se ajusta ao corpo, ao ritmo e ao quotidiano.
Veja-se o caso da Marie, 68 anos, ex-secretária com uma prótese no joelho e uma vontade de ferro. O médico recomendou natação, “o desporto menos traumático”. Ela comprou o fato de banho, a touca, até uns óculos desconfortáveis que embaciavam de cinco em cinco minutos. Na primeira semana, foi duas vezes. Na segunda semana, uma. Na terceira, nenhuma. O caminho até à piscina doía-lhe no joelho, o cloro irritava-lhe a pele e ela detestava estar semi-nua sob luzes fluorescentes, à frente de desconhecidos.
Um dia, no regresso de mais uma tentativa falhada, cruzou-se no parque com um pequeno grupo a andar depressa com bastões. Sem balneários, sem mudanças complicadas, sem apitos a ecoar. Apenas ar fresco e gargalhadas que se espalhavam pelo caminho.
Para muitas pessoas com mais de 65 anos, o verdadeiro obstáculo não é só físico - é logístico e emocional. Atividades como Pilates ou natação exigem um local específico, horários rígidos e um certo conforto em expor o corpo em público. Quando as articulações já limitam, cada passo extra parece uma montanha. É aí que a caminhada nórdica entra na história, discretamente, sem alarido. Aproveita a simplicidade de caminhar e acrescenta um toque técnico que muda radicalmente a carga nas articulações. Menos impacto, mais apoio e uma sensação de avanço que é estranhamente libertadora numa idade em que tudo tende a abrandar.
Caminhada nórdica: a aliada subestimada das articulações frágeis
A caminhada nórdica parece apenas caminhar com bastões, mas é mais do que isso. Os bastões não estão lá apenas “para equilíbrio”. Eles redistribuem parte do peso dos joelhos e das ancas para a parte superior do corpo. Cada passo transforma-se num movimento suave de corpo inteiro, com braços, ombros, costas e core a entrarem na dança.
Para alguém com mais de 65 anos, esta mudança é enorme. As articulações ficam menos comprimidas, a passada torna-se mais estável e, de repente, terreno irregular ou pequenas inclinações passam a ser geríveis em vez de assustadoras. Anda-se mais, com menos dor e menos medo de cair. E pode começar mesmo à porta de casa.
Há um pequeno estudo da Finlândia - o país onde a caminhada nórdica nasceu - que costuma circular entre fisioterapeutas. Mostrou que a prática regular de caminhada nórdica reduzia a pressão nos joelhos em cerca de 20 a 30% face à caminhada normal, envolvendo ao mesmo tempo até 90% dos músculos do corpo. Para lá dos números, o que as pessoas descrevem é ainda mais marcante.
O Gérard, o homem do parque, não conseguia andar mais de dez minutos antes de o tornozelo “gritar”. Com os bastões, foi passando gradualmente de uma volta ao lago para três. Não se tornou um superatleta. Apenas redescobriu o que é mexer-se sem temer cada passo. Como ele diz: “Agora as minhas articulações queixam-se menos do que os meus vizinhos coscuvilheiros.”
A lógica é simples e poderosa. Quando pressiona os bastões, ajuda as pernas a empurrar o chão, em vez de serem elas a absorver todo o impacto. A bacia fica mais alinhada, as costas endireitam quase sozinhas e os braços funcionam como dois estabilizadores extra. Pessoas com tendência para artrose sentem menos atrito, menos “bloqueio” depois do exercício. Terminam a sessão cansadas, mas de uma forma boa. E isso muda toda a relação com o movimento: deixa de ser castigo e passa a ser uma pequena vitória diária.
Como começar a caminhada nórdica quando as articulações já doem
O primeiro passo não é comprar os bastões mais caros. É avançar devagar, como quem testa a água com a ponta dos pés. Comece num percurso plano que já conhece: a volta do parque, o passeio à volta do quarteirão, até o caminho atrás do prédio. Depois, foque-se neste ritmo simples: perna direita à frente, bastão esquerdo à frente; perna esquerda à frente, bastão direito à frente. As pontas dos bastões tocam o chão ligeiramente atrás do pé, nunca à frente.
No início, quinze minutos é mais do que suficiente. Deve conseguir conversar enquanto anda, até brincar um pouco. Se terminar ofegante ou a coxear, o ritmo foi ambicioso demais. As suas articulações precisam de tempo para perceber que esta nova forma de se mover está do lado delas.
Um erro comum é querer ir longe demais, depressa demais, por orgulho ou medo de “não estar a fazer o suficiente”. Não há medalha no fim - há apenas o seu corpo, que terá de carregar outra vez amanhã. Outra armadilha é agarrar os bastões como se estivesse pendurado num penhasco. As mãos devem manter-se relaxadas, deixando a correia fazer parte do trabalho. A tensão nos dedos sobe para os ombros e, de repente, aquilo que devia aliviar as articulações dá-lhe novas dores.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. A vida real mete-se no caminho. O objetivo não é perfeição, é consistência ao longo de meses. Duas ou três sessões por semana já mudam o panorama da dor, do sono e até do humor.
“Aos 70, achava que o meu corpo era uma lista de coisas que já não podia fazer. Com os bastões, encontrei algo que consigo fazer sem pagar o preço a noite inteira.” diz a Anne, que vive com artrose na anca. Não segue programas milagrosos. Apenas caminha, três manhãs por semana, faça chuva ou faça sol.
- Equipamento essencial: bastões de caminhada nórdica ajustáveis com correias de pulso, ténis confortáveis com amortecimento e um corta-vento leve.
- Superfícies ideais: caminhos de parque, trilhos de terra firmes, passeios largos longe de tráfego intenso.
- Tempo de início: 10 a 20 minutos, a um ritmo em que falar frases completas seja fácil.
- Progressão: acrescentar 5 minutos a cada 7–10 dias, desde que a dor não aumente mais do que ligeiramente após a caminhada.
- Sinais de alerta: dor aguda, inchaço súbito ou dor que piora durante a noite após caminhar.
Mover-se de forma diferente depois dos 65: mais do que um desporto, uma forma de estar no mundo
Ao observar um pequeno grupo de seniores a praticar caminhada nórdica, nota-se algo para lá dos bastões e da técnica. Os queixos levantam. As passadas alongam. As conversas animam-se ao longo do caminho. Há menos daquele andar arrastado, menos daquele olhar cauteloso que diz: “Um movimento errado e fico preso a semana inteira.” Em vez disso, há uma confiança tranquila, a sensação de recuperar o espaço público em vez de apenas o atravessar.
Para alguns, esta saída semanal ou diária torna-se a coluna vertebral do horário. Uma razão para se vestir, sair, ver caras familiares. Os benefícios nas articulações são reais, mas também o é o impacto suave na mente: dormir melhor, preocupar-se um pouco menos, ousar fazer novos planos.
A beleza da caminhada nórdica é que não exige passado desportivo, um certo tipo de corpo ou um estatuto social específico. Pode começar com cabelos brancos, um joelho substituído e ténis velhos. Pode caminhar sozinho, com um vizinho ou num pequeno grupo organizado pela câmara municipal ou por um centro de saúde. Ninguém quer saber se não anda depressa. A única competição real é com a versão de si que achava que a mobilidade só iria piorar.
Muitas pessoas descobrem, quase por surpresa, que mover-se ainda lhes é acessível. Que os problemas nas articulações não são uma sentença final, mas algo a negociar com as ferramentas certas. E que, por vezes, dois bastões leves podem abrir discretamente uma porta que piscinas e estúdios de Pilates tinham deixado fechada.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Alívio articular | Os bastões transferem parte do peso dos joelhos e das ancas para a parte superior do corpo | Menos dor durante e após o exercício, mais liberdade de movimento |
| Rotina acessível | Pode ser feito perto de casa, sem logística complexa nem balneários | Mais fácil de manter durante meses, mesmo com horários preenchidos ou irregulares |
| Benefícios globais | Envolve a maioria dos músculos, melhora equilíbrio e postura, apoia o humor | Ajuda a preservar autonomia, confiança e energia diária após os 65 |
FAQ:
- A caminhada nórdica é mesmo mais suave para as articulações do que a caminhada clássica? Sim, porque os bastões ajudam a distribuir a carga e a estabilizar a passada. Muitas pessoas com artrose referem menos crises e menos rigidez pós-caminhada em comparação com a caminhada rápida normal.
- Posso começar se já fiz uma prótese ao joelho ou à anca? Muitas vezes, sim, desde que o cirurgião ou o fisioterapeuta dê luz verde. A caminhada nórdica pode até fazer parte da reabilitação a longo prazo, desde que progrida gradualmente e evite terreno irregular no início.
- Preciso de calçado especial para caminhada nórdica? Ténis confortáveis de caminhada ou corrida, com amortecimento, são suficientes. Não precisa de botas de montanha a menos que esteja em terreno muito acidentado; solas demasiado rígidas podem, na verdade, tornar a passada mais pesada.
- Em que difere a caminhada nórdica de fazer caminhadas com bastões? A técnica é mais dinâmica e rítmica. Os bastões cravam ligeiramente atrás do corpo para ajudar a impulsioná-lo para a frente, em vez de servirem apenas de apoio em trilhos íngremes ou pedregosos.
- Com que frequência devo praticar para sentir diferença? A maioria das pessoas nota mudanças na dor, na resistência e no sono após 3 a 4 semanas com duas ou três sessões de 20–30 minutos por semana. A chave é a regularidade, não a intensidade.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário