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"Ouro líquido": azeite alentejano eleito melhor do mundo em 2025

Homem prova azeite em copo azul numa mesa com garrafa de azeite, prato com azeite e azeitonas, campo de oliveiras ao fundo.

Uma moagem moderna, uma paisagem fustigada pelo sol e olivicultores que passam rapidamente da colheita à prensa dão o tom. Um júri internacional reparou, e uma série limitada de garrafas aponta agora a paladares curiosos, cá dentro e lá fora.

Uma revolução silenciosa no Alentejo

O Alentejo estende-se por colinas ondulantes que acumulam calor durante o dia e arrefecem depressa à noite. Os olivais preenchem as encostas, cobrindo atualmente cerca de 140.000 hectares. A região contribui com mais de 70% do azeite de Portugal, e essa quota continua a subir à medida que novas plantações entram em plena produção e os lagares modernizam os seus equipamentos.

A mais recente manchete vem do Lagar do Marmelo, um lagar de alta especificação em Ferreira do Alentejo, operado para a Oliveira da Serra pela sua área agrícola, a Nutrifarms. A equipa aposta na receção rápida da azeitona, na extração a frio e num controlo rigoroso de temperatura. O objetivo é fixar aromas voláteis e manter defeitos à distância. Não é vistoso, mas é rigoroso.

O Alentejo de Portugal fornece hoje a maioria do azeite do país e molda cada vez mais a sua identidade sensorial.

O que os jurados procuram

O Prémio de Qualidade Mario Solinas, organizado pelo Conselho Oleícola Internacional, classifica amostras de azeite virgem extra pela sua harmonia sensorial. Os painéis avaliam os azeites pela harmonia, complexidade e pela nitidez do caráter frutado. As categorias separam “frutado verde ligeiro” de perfis médios e intensos, e de estilos orientados para o frutado maduro.

Em 2025, o lote da Oliveira da Serra conquistou o primeiro lugar na classe de frutado verde ligeiro. A amostra destacou-se entre inscrições de Itália, Grécia, Tunísia, Turquia, China, França e outros países, com os jurados a sublinharem uma linha aromática limpa e consistente.

O perfil vencedor aponta para amêndoa verde e folha de oliveira, com notas de tomate, um amargor suave e um toque picante no final.

A garrafa por detrás da manchete

Este lançamento baseia-se em variedades locais que prosperam no Alentejo: Galega, Cordovil e Verdeal. Cada uma traz uma peça do puzzle. A Galega acrescenta suavidade e notas de fruto seco. A Cordovil eleva o amargor e a estrutura. A Verdeal afina as arestas verdes e a especiaria na garganta.

A marca vai colocar no mercado uma edição limitada, numerada, nos principais supermercados portugueses. A embalagem comunica um posicionamento premium sem resvalar para o território de colecionador. O objetivo é simples: permitir que o consumidor nacional prove o mesmo lote que impressionou o júri e reforçar o reconhecimento em mercados de exportação que seguem listas de prémios ao escolher fornecedores.

Como desfrutar de um perfil verde ligeiro

Azeites de frutado verde ligeiro ficam num ponto ótimo para o dia a dia. Os aromas mantêm-se frescos sem se tornarem agressivos, e o final dá energia sem dominar o prato.

  • Regue pão morno para libertar notas de amêndoa e folha.
  • Realce uma salada de tomate ou um prato de folhas verdes com citrinos.
  • Pincele legumes grelhados e finalize com flor de sal.
  • Coloque à colher sobre bacalhau escalfado ou frango assado, já à mesa.
  • Misture com raspa de limão e salsa para uma salsa verde rápida.

Por dentro da vitória: técnica e timing

Na região, muitos produtores colhem cedo para captar aromas mais verdes e níveis mais elevados de polifenóis. A azeitona chega ao lagar em poucas horas. As folhas são separadas rapidamente para evitar notas indesejadas. A pasta não sobreaquece durante a malaxação. As centrífugas operam limpas. Cada passo molda o resultado no copo.

Este calendário não é apenas uma questão de sabor. Também protege a acidez livre, o indicador laboratorial que deve ficar abaixo de 0,8% para a categoria virgem extra. Menos oxidação ajuda o azeite a envelhecer melhor na prateleira da cozinha, sobretudo quando as condições de armazenamento variam.

Estilo Aromas típicos Melhores utilizações
Frutado verde ligeiro Amêndoa verde, folha de oliveira, tomate verde Saladas, peixe branco, queijos frescos, pão morno
Frutado verde médio Alcachofra, ervas, rúcula, pimenta preta Legumes assados, leguminosas, aves grelhadas
Frutado maduro Maçã, banana, fruto seco, relva suave Maionese, pastelaria, salteados delicados

Porque isto importa para a economia do azeite em Portugal

As listas de prémios circulam rapidamente na distribuição. Compradores usam-nas como atalho ao selecionar fornecedores para marcas próprias e gamas de especialidade. Uma vitória no Mario Solinas muitas vezes influencia contratos de volume e abre portas em mercados que exigem painéis sensoriais documentados.

Para Portugal, o momento coincide com um modelo de produção que combina olivais tradicionais e pomares de alta densidade. Novos projetos de rega, quando disponíveis, estabilizam as produções. Vitórias de qualidade justificam prémios de preço que compensam o aumento de custos com mão de obra, energia e água.

Pressão climática e escolhas agrícolas

O Alentejo enfrenta orçamentos de água apertados e ondas de calor mais longas. Produtores investem em sondas de humidade, rega deficitária e gestão de sombra em linhas de alta densidade. Alguns ajustam a poda para reduzir stress na copa. Outros optam por porta-enxertos mais tolerantes à seca ou diversificam com variedades de maturação mais precoce e mais tardia para distribuir o risco.

O estilo sensorial também se adapta ao clima. Colheitas mais cedo trazem notas mais verdes e protegem a frescura. Essa mudança pode reduzir litros por hectare, mas melhora métricas de qualidade que o mercado recompensa quando a história é bem contada.

Provar em casa: uma ficha rápida

Qualquer pessoa pode avaliar um virgem extra rapidamente com uma rotina simples. Um copo pequeno ajuda, mas uma caneca serve em caso de necessidade.

  • Aqueça o copo com a mão durante 30 segundos para libertar aromas.
  • Rode suavemente e cheire duas vezes, com inspirações curtas.
  • Prove uma colher de chá, espalhe pela língua e puxe um pouco de ar pelos dentes.
  • Observe o amargor nas laterais da língua e o picante no fundo da garganta.
  • Repare como os aromas e o final se alinham. Harmonia indica qualidade.

Guia de compra: como ler um rótulo de virgem extra

Os rótulos trazem pistas ligadas à frescura e à origem. Alguns detalhes aumentam a confiança quando a prateleira está cheia.

  • Data de colheita: uma colheita recente é melhor do que um “consumir de preferência antes de” distante.
  • Origem: indicações de região única ou de propriedade única reforçam a rastreabilidade.
  • Variedades: as cultivares orientam o estilo; Galega, Cordovil e Verdeal tendem a perfis verdes e picantes.
  • Método de extração: “extração a frio” indica controlo de temperatura abaixo de 27°C.
  • Embalagem: vidro escuro protege da luz; uma lata também funciona se estiver bem selada.

Armazenamento, preço e o que observar

Calor, luz e oxigénio degradam o azeite. Guarde as garrafas longe do fogão. Feche bem após cada utilização. Idealmente, consuma garrafas abertas em oito semanas para manter o pico aromático. Uma despensa a 15–20°C ajuda a controlar a volatilidade.

O preço de edições limitadas costuma ficar acima da gama base da marca. O prémio reflete colheita mais seletiva, loteamentos mais apertados e o custo de marketing de pequenas séries. Para o consumidor, o valor está no salto sensorial e na oportunidade de provar um lote validado.

Há risco de fraude em qualquer país produtor. Procure números de lote rastreáveis e contactos do produtor. Um verdadeiro virgem extra deve saber a limpo, sem defeitos cerosos, bafientos (mofo) ou avinagrados. Se o azeite parecer “chato” e gorduroso, provavelmente não tem a frescura que define a categoria.

Para lá da garrafa: para onde aponta a tendência

Restaurantes em Lisboa, Porto e Évora já mencionam quintas e lagares nos menus, e os compradores do retalho seguem essa dinâmica. Espere mais micro-lotes focados em variedades únicas e micro-terroirs, com painéis sensoriais referidos no contrarrótulo. Códigos QR já transportam dados laboratoriais e de painel que antes ficavam em fichas comerciais.

Em casa, é possível fazer uma prova simples comparativa. Alinhe um frutado verde ligeiro ao lado de um verde médio e de um virgem extra de estilo maduro. Prove com pão, funcho cru e fatias de maçã. Repare como o amargor e o picante moldam cada trinca. Esse exercício treina o paladar e transforma uma manchete numa competência útil à mesa do jantar.

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