A primeira vez que me aconteceu, estava no corredor dos cereais, a olhar para o que pareciam ser umas cem caixas quase iguais. O meu carrinho estava meio cheio, a minha lista era curta e, ainda assim, o meu cérebro tinha, silenciosamente, acionado o seu próprio botão de “desligar”. Ruído, cores, pessoas a passar atrás de mim, uma mensagem a vibrar no bolso. O coração acelerou sem razão nenhuma de especial. Apeteceu-me abandonar o carrinho e sair.
Nada de mau tinha acontecido. Ninguém tinha sido mal-educado. Eu estava apenas… cheio. Saturado. Sem mais margem.
Durante a maior parte da minha vida, conseguia fazer malabarismos com dez coisas ao mesmo tempo sem pestanejar: trabalho, filhos, vida social, idas ao banco na hora de almoço. Agora, aos 67, três pequenas tarefas podem parecer uma maratona. A parte estranha não é o cansaço. É ter de aceitar um limite mental que eu nem sabia que tinha.
Naquele dia, em frente à prateleira dos cereais, percebi que alguma coisa tinha mudado, sem alarido.
Quando o teu cérebro levanta a bandeira branca mais cedo do que antes
Há um momento, depois dos 65, em que reparas que a tua mente desiste mais depressa - como um pugilista que antes aguentava doze rounds e agora fica ofegante ao sexto. Estás a meio de uma conversa, alguém acrescenta mais um detalhe, mais um pedido, e, de repente, as palavras baralham-se. Não estás confuso; estás simplesmente inundado.
Segues o que está a ser dito, mas uma vozinha interior sussurra: “Demasiado. Devagar. Preciso de sair daqui.” Esse é o novo limite. Não é dramático. Só está mais perto do que costumava estar. E, depois de o sentires, já não consegues deixar de o ver.
Uma amiga minha, de 72 anos, contou-me que lhe aconteceu num aniversário de família. Nada de especial: três netos a correr de um lado para o outro, duas conversas ao mesmo tempo, a música um pouco alta, toda a gente a falar por cima dos planos para a sobremesa. Ela sorriu, assentiu, serviu café. Por dentro, sentiu um pânico silencioso.
Escapou-se para a casa de banho, trancou a porta, sentou-se na borda da banheira e limitou-se a respirar. Cinco minutos depois, voltou. Ninguém reparou. “Há dez anos, uma tarde dessas dava-me energia”, disse ela. “Agora preciso de uma sala de recobro.”
Rimo-nos, mas houve um travo nesse riso.
Há uma razão real para esta mudança. Depois dos 65, o cérebro muitas vezes processa a informação um pouco mais devagar e cansa-se um pouco mais depressa. Não está avariado, não é “velho e inútil”. Simplesmente tem menos vontade de funcionar em modo de sobrecarga.
Todas aquelas microdecisões, ruídos de fundo, ecrãs, alertas, perguntas - acumulam-se como papéis em cima de uma secretária. Antes, a pilha mantinha-se estável. Agora, chega ao teto a meio do dia. A tua capacidade não desapareceu; está apenas menos tolerante ao caos e às interrupções constantes. Isso não é fraqueza. É um novo manual de funcionamento.
Aprender a viver dentro deste novo perímetro mental
O meu ponto de viragem aconteceu quando comecei a planear os dias como quem gere uma bateria limitada num telemóvel antigo. Uma coisa exigente de cada vez. Deixei de enfiar três compromissos numa manhã e fingir que “descansava depois”.
Agora, agrupo as tarefas com suavidade. Compras num dia, papelada noutro, planos sociais por conta própria. Escrevo listas para o meu cérebro não ter de carregar todos os detalhes. Deixo, sem vergonha, “espaços em branco” na agenda, como margens brancas numa página. É aí que a minha mente respira. E, estranhamente, faço mais coisas por fazer menos ao mesmo tempo.
A armadilha em que muitos de nós caímos é fingir que ainda funcionamos com o mesmo orçamento mental de quando tínhamos 45. Dizemos que sim a tudo e depois perguntamo-nos porque é que estamos exaustos e irritadiços às quatro da tarde. Pensamos que estamos apenas “fora de forma” ou a “perder capacidades”.
Sejamos honestos: ninguém vive como aqueles reformados perfeitamente organizados dos folhetos, que passam do ioga ao voluntariado e a visitas à família todos os dias. Pessoas reais cansam-se. Mentes reais precisam de pausas. Não há nada de nobre em ignorar os alarmes que o teu corpo toca quando o ruído e as exigências se acumulam. Não é preguiça; é auto-respeito.
“Tive de admitir que a minha mente tem agora um limite de velocidade”, disse-me um professor reformado. “Quando deixei de lutar contra isso e comecei a respeitá-lo, senti-me, na verdade, mais inteligente outra vez - não mais burro.”
Aqui ficam alguns pequenos “cintos de segurança mentais” que me ajudaram a aceitar e a trabalhar com este novo limite:
- Bloquear uma hora de silêncio por dia, sem ecrãs, chamadas ou obrigações, como uma zona protegida.
- Dizer “respondo-te esta tarde” em vez de responder imediatamente a todos os pedidos.
- Escolher uma tarefa “grande” por dia e tratar o resto como extras opcionais.
- Sair de espaços barulhentos ou caóticos durante alguns minutos quando sentires os pensamentos a acelerar.
- Dizer à família mais próxima: “Eu ouço melhor se falarmos um de cada vez” - e manter esse limite.
Estes pequenos ajustes não mudam a tua idade. Mudam o quão esgotado te sentes ao fim do dia.
Viver com limites sem te sentires menor
O mais difícil não é o cansaço em si. É a mudança de identidade. Muitos de nós construímos o orgulho em ser a pessoa capaz, a que ajuda, a que aguenta tudo. Agora damos por nós a dizer: “Dá-me um segundo” ou “Podemos falar disto mais tarde?” - e isso roça na imagem que tínhamos de nós.
Mas talvez essa imagem pertença a outra fase da vida. Não pior. Não melhor. Apenas diferente. Esta etapa pede menos heroísmos e mais honestidade. Recompensa quem consegue dizer: “Isto é demasiado para mim, tudo ao mesmo tempo” sem vergonha. E, surpreendentemente, as pessoas muitas vezes respeitam essa franqueza mais do que admiravam o nosso antigo excesso.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Aceitar o novo limite | Reparar quando a mente se sente “cheia” e encarar isso como real, não como falha | Reduz a culpa e a autocrítica, aumenta o auto-respeito |
| Organizar para uma grande tarefa por dia | Planear à volta de uma única atividade exigente, mantendo o resto mais leve | Diminui a sensação de estar sobrecarregado e mantém a energia mais estável |
| Comunicar limites | Dizer aos mais próximos o que ajuda a acompanhar conversas e a manter a calma | Melhora as relações e reduz a frustração escondida |
FAQ:
- Ficar sobrecarregado mais depressa depois dos 65 é sinal de demência? Não necessariamente. Muitas pessoas sem qualquer demência sentem sobrecarga mental mais cedo devido a uma velocidade de processamento mais lenta, stress ou falta de descanso. Se também notares perda de memória significativa ou desorientação, fala com um médico.
- Devo forçar-me a “treinar” mais o cérebro? Manter-se mentalmente ativo é bom, mas a sobrecarga constante não é. Procura atividades desafiantes e agradáveis, com descanso real entre elas, em vez de pressão sem parar.
- Como posso explicar isto à minha família sem parecer fraco? Usa linguagem simples e factual: “Acompanho melhor quando falamos à vez” ou “Preciso de uma pequena pausa depois de saídas movimentadas para as aproveitar mais.” A honestidade calma costuma resultar.
- É normal evitar lugares barulhentos agora? Sim. Muitas pessoas com mais de 65 acham ambientes cheios e ruidosos esgotantes. Escolher espaços mais tranquilos é apenas adaptar-se ao que o teu cérebro e sistema nervoso toleram melhor.
- Pequenas rotinas podem mesmo reduzir essa sensação de sobrecarga? Sim. Sono regular, rituais simples de manhã, listas escritas e pausas planeadas reduzem a “tralha” mental que leva à sobrecarga. Pequenos hábitos acumulam-se ao longo do tempo.
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