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Um psicólogo afirma: “a última fase da vida começa quando alguém passa a pensar assim.”

Homem sorrindo, sentado numa cozinha, a olhar o telemóvel, com chávena de café e frutas sobre a mesa.

Há um ponto de viragem silencioso em que os aniversários passam a importar menos, e a forma como pensa muda subitamente tudo.

Os psicólogos dizem que a verdadeira “fase final” da vida não é marcada pela reforma, pelos cabelos brancos ou por uma crise, mas por uma mudança mental radical: o momento em que deixa de perseguir um passado dourado ou um futuro perfeito e começa a relacionar-se com o presente de uma forma completamente diferente.

O mito da idade mais feliz

Pergunte às pessoas qual foi a altura mais feliz da sua vida e muitas apontam para trás.

A infância, com os seus jogos e verões intermináveis. O início da vida adulta, cheio de festas, primeiros amores e planos imprudentes. Por vezes até a velhice, idealizada como uma estação calma e sábia.

No entanto, os psicólogos avisam que este guião nostálgico é enganador.

A infância também significa dependência e regras definidas por outros. A juventude vem muitas vezes acompanhada de ansiedade, pressão para ter sucesso e medo de falhar. A fase mais tardia da vida pode trazer sabedoria, mas também pode envolver doença, solidão ou stress financeiro.

Os dados voltam sempre à mesma ideia: nenhuma idade é, por si só, a mais feliz; a mentalidade faz a maior parte do trabalho.

Estudos de grande escala sobre bem-estar mostram uma curva em U da felicidade ao longo da vida, mas a forma varia muito entre indivíduos e países. O fio comum não é a data de nascimento. É a forma como as pessoas interpretam o que lhes acontece.

O que esta “fase final” significa realmente

O psicólogo espanhol Rafael Santandreu, cujas ideias suscitaram debate no artigo francófono que inspirou este texto, defende que a melhor fase da vida começa quando decide pensar de forma diferente.

A fase “última” não tem a ver com a idade. Começa no dia em que deixa de viver como vítima das circunstâncias e passa a agir como editor dos seus próprios pensamentos.

Em vez de perguntar “Quando fui mais feliz?”, a pergunta muda para “Como estou a escolher olhar para a minha vida agora?”

Esta mudança pode acontecer aos 22 após um esgotamento, aos 45 depois de um divórcio, ou aos 70 após um susto de saúde. O calendário é irrelevante. O gatilho é o mesmo: uma decisão de deixar de centrar a vida em queixas e começar a dar valor ao que já existe.

Da nostalgia passiva à presença ativa

Nesta fase, as pessoas afastam-se normalmente de dois hábitos mentais:

  • Glorificar o passado: “Antes é que era bom, nunca mais me vou sentir assim.”
  • Adiar a vida: “Vou ser feliz quando me mudar, quando ganhar mais, quando encontrar alguém.”

Ambas as posições mantêm a felicidade à distância. O pensamento da “fase final” inverte essa lógica. A alegria deixa de ser uma recompensa concedida por eventos externos e passa a ser algo alimentado diariamente pela atenção e pela interpretação.

Como o cérebro muda quando muda a lente

Isto não é apenas conversa espiritual. A ciência cognitiva e comportamental apoia-o.

Quando treina a sua atenção para detalhes agradáveis ou significativos, o cérebro reforça os circuitos associados à satisfação e à calma. Com o tempo, este foco repetido torna-se uma configuração por defeito.

Os investigadores chamam a este processo “plasticidade neural”: o cérebro reorganiza-se de acordo com a forma como é utilizado.

Hábito mental antigo Novo hábito mental na “fase final”
Procurar o que correu mal no dia Reparar em pelo menos três coisas que correram bem
Comparar a sua vida com a dos outros Comparar o hoje apenas com o seu próprio ontem
Pensar “Porquê eu?” perante problemas Pensar “O que posso aprender ou ajustar aqui?”
Confundir conforto com felicidade Associar crescimento e coerência à felicidade

Quanto mais vezes ensaia pensamentos construtivos, menos espaço encontra a frustração crónica na sua mente.

Terapias como a terapia cognitivo-comportamental (TCC) usam exatamente este princípio: mudar padrões de pensamento altera a experiência emocional e o comportamento. A mentalidade da “fase última” é, essencialmente, uma versão autoaplicada e de longo prazo dessa abordagem.

A felicidade como decisão diária, não como recompensa distante

Esta perspetiva não nega o impacto da idade, do trauma ou da desigualdade social. Esses fatores moldam o campo de jogo. Ainda assim, dentro desse campo, os psicólogos destacam um grau de liberdade que permanece: a forma como enquadramos a nossa história.

Em vez de esperar que chegue a fase “certa” da vida, a pessoa que entra nesta fase mental pergunta diariamente, quase teimosamente: “O que posso apreciar e o que está ao meu alcance controlar hoje?”

Essa pergunta leva a ações pequenas mas repetidas:

  • Escrever à noite uma frase de gratidão.
  • Fazer dez respirações lentas antes de reagir a más notícias.
  • Limitar o tempo passado a consumir conteúdos que alimentam inveja ou raiva.
  • Falar consigo com gentileza depois de um erro, em vez de se insultar.

Nada disto é dramático. Em conjunto, inclina o clima emocional de uma vida.

Sinais de que pode estar a entrar nesta fase mental

Os psicólogos descrevem uma série de indicadores subtis de que uma pessoa iniciou esta mudança.

Menos drama, mais proporção

Acontecimentos que antes pareciam catástrofes agora parecem problemas para resolver.

Ficar preso no trânsito já não é sinal de que “nada me corre bem”; é apenas um incómodo. Um conflito com o parceiro torna-se uma oportunidade para clarificar necessidades, não uma prova de que é “impossível de amar”.

Maior apreciação dos momentos comuns

O café da manhã, uma breve conversa com um vizinho ou uma caminhada depois do jantar ganham um peso inesperado.

A vida começa a parecer menos uma sequência de “melhores momentos” e mais um filme em que até as cenas silenciosas contam.

Muitas pessoas descrevem a sensação de que os seus dias estão mais cheios sem que aconteça nada de espetacular.

Menor medo de envelhecer

Outro sinal marcante: os números nas velas do bolo de aniversário perdem parte do seu poder intimidante.

Quem está nesta fase continua a preocupar-se com saúde e planos, mas não vê cada década como um passo para longe da felicidade. Em vez disso, cada período torna-se mais um contexto onde praticar a mentalidade escolhida.

Formas práticas de treinar esta mentalidade

Para leitores que querem pontos de partida concretos, os psicólogos recomendam frequentemente pequenas experiências estruturadas em vez de grandes resoluções.

Um desafio de atenção de uma semana

Durante sete dias, leve uma nota no telemóvel ou um pedaço de papel consigo.

Todas as noites, escreva três linhas:

  • Um detalhe de que gostou (um cheiro, um gesto, uma vista).
  • Uma dificuldade e uma coisa que fez para a lidar.
  • Uma coisa que espera para amanhã, mesmo que seja pequena.

Ao fim de uma semana, a maioria das pessoas relata uma mudança subtil: a mente começa a procurar “o que escrever hoje à noite” e, assim, passa a observar a vida de forma diferente.

A experiência da “queixa mínima”

Escolha um domínio durante três dias: trabalho, saúde ou relações.

Durante esse período, compromete-se a:

  • Não verbalizar queixas automáticas sobre esse domínio.
  • Quando surgir mentalmente uma queixa, acrescentar um pensamento construtivo: “E o que posso fazer?” ou “Que limite posso estabelecer?”

Isto não apaga problemas reais. Simplesmente enfraquece o ciclo de prazer da queixa, que muitas vezes mantém as pessoas presas em fases mais reativas da vida.

Riscos e limites da mensagem “pensa diferente”

Esta abordagem psicológica vem com ressalvas.

Usada de forma desajeitada, pode transformar-se numa nova forma de pressão: se não está feliz, a culpa é sua por “pensar mal”. Essa narrativa pode ser dura, sobretudo para pessoas sob forte stress financeiro, discriminação ou doença.

Os clínicos insistem que o trabalho de mentalidade não deve substituir tratamento médico, apoio social ou ação política. Uma lente positiva não resolve um local de trabalho abusivo nem a falta de habitação. Apenas pode influenciar a forma como navega essas realidades e que escolhas vê como possíveis.

A “fase final” mental não é pensamento mágico. É uma forma de recuperar aquilo que é seu - a sua atenção e a sua interpretação - reconhecendo ao mesmo tempo aquilo que é realmente difícil.

Como esta fase interage com outras mudanças de vida

Curiosamente, as pessoas que chegam a esta forma de pensar lidam muitas vezes de forma diferente com mudanças externas.

Mudanças de carreira deixam de ser dramas de tudo-ou-nada e passam a ser experiências. Relações, incluindo separações, são vistas menos como veredictos sobre valor pessoal e mais como capítulos de uma história mais longa. Até sustos de saúde podem tornar-se impulsos para redefinir prioridades de tempo e energia.

Os psicólogos notam um efeito cumulativo: quanto mais vezes alguém responde à mudança com esta mentalidade, mais resiliente se sente, o que por sua vez o torna mais disposto a tentar coisas novas. Esse ciclo de retroalimentação é uma das razões pelas quais esta fase é por vezes descrita como “última”: estabiliza e aprofunda-se com o tempo.

Da teoria à realidade vivida

Se isto soar abstrato, imagine dois adultos de 55 anos a perderem o emprego.

Um lê o acontecimento como prova de que a vida atingiu o auge há muito, que colegas mais jovens “roubaram” o seu lugar e que nada de bom o espera. O outro sente choque e medo na mesma, mas também pergunta: “O que é que isto pode libertar? O que tolerei durante tempo demais? Que competências posso reaproveitar?”

Partilham o mesmo revés objetivo; não partilham a mesma fase de pensamento. Nos anos seguintes, os seus caminhos provavelmente separar-se-ão de forma acentuada, não apenas por sorte, mas por como cada um fala consigo todos os dias.

Esta é a revolução silenciosa a que psicólogos como Santandreu apontam. A fase última da vida não é um escalão etário. É uma prática mental, disponível a partir de agora, que lentamente o ensina a habitar o único fuso horário que realmente controla: hoje.

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