A mulher à frente do psicólogo está zangada e um pouco envergonhada.
“Fiz tudo bem”, diz ela. “Diário de gratidão, quadro de visualização, ioga, batidos verdes. Continuo sem ser feliz. O que é que há de errado comigo?”
O psicólogo não se apressa a tranquilizá-la. Faz uma pergunta diferente.
“Diga-me”, diz ele, “quando foi a última vez que algo foi mesmo importante para si, mesmo que não soubesse bem?”
Ela pára. A sala fica estranhamente silenciosa.
Porque essa pergunta toca num nervo de que não falamos muito.
Porque é que perseguir a felicidade continua a escapar-lhe por entre os dedos
Percorra o seu feed numa terça-feira qualquer e quase sente a pressão: seja feliz, otimize a sua vida, faça um glow up, manifeste alegria.
É como se a felicidade tivesse passado a ser um projeto, com apps, trackers e hacks.
Os psicólogos têm um nome para isto: a “armadilha da felicidade”.
Quanto mais se obsesssiona com o seu estado de espírito, mais frágil ele se torna, como uma bolha de sabão que está sempre a picar.
Começa a monitorizar-se o dia todo: “Já estou feliz? Hoje foi um bom dia? Porque é que não me estou a sentir melhor?”
É aí que a felicidade deixa de ser um sentimento e passa a ser um teste em que está sempre a chumbar.
Há um estudo famoso que costuma surpreender as pessoas.
Os investigadores analisaram vencedores da lotaria e pessoas que tinham tido acidentes graves, e verificaram os seus níveis de felicidade meses depois.
O resultado não foi nenhuma curva mágica de Hollywood.
A maioria das pessoas, vencedoras e não vencedoras, voltou gradualmente ao seu patamar emocional habitual.
O carro, a viagem, o aumento, o momento “finalmente mudei-me para Bali” - fazem o seu humor disparar e depois esbatem-se.
Pode sentir isto na sua própria vida.
Pense na última coisa de que tinha a certeza que ia “mudar tudo”: a relação, o emprego, a dieta.
Seis meses depois, voltou a preocupar-se com e-mails e roupa para lavar.
O psicólogo Viktor Frankl, que sobreviveu aos campos, escreveu que a felicidade não pode ser perseguida; tem de acontecer como consequência.
Ele reparou em algo estranho em condições muito piores do que o nosso stress diário: as pessoas ainda conseguiam sentir momentos de sentido, mesmo sem conforto ou alegria.
Os psicólogos modernos retomaram esse fio.
Estão a descobrir que uma vida construída em torno de “sentir-se bem” é frágil, porque a realidade não quer saber do nosso calendário de humor.
Uma vida construída em torno de sentido, porém, consegue conter alegria e dor sem se desfazer.
O sentido nem sempre sabe bem, mas sente-se sólido.
E essa solidez é aquilo de que muitos de nós, secretamente, estamos a morrer de fome.
Como deixar de perseguir a felicidade e começar a perseguir sentido
Um psicólogo com quem falei usa um exercício simples.
Pede aos clientes para escreverem três momentos do último ano em que se sentiram profundamente tocados, não necessariamente felizes.
Depois pede-lhes que circulem o que esses momentos tinham em comum.
Talvez tenha sido cuidar de um pai ou de uma mãe doente.
Talvez terminar um projeto difícil por que ninguém aplaudiu.
Talvez ficar acordado até tarde a falar com um amigo que estava a desfazer-se.
A partir daí, faz uma pergunta direta: “Pelo que é que esteve disposto a sofrer em cada um destes momentos?”
Aí começa o trilho do sentido.
Não onde se sentiu melhor, mas onde esteve pronto a pagar um preço.
Muitos de nós batemos na mesma parede.
Dizemos que queremos propósito, mas no fundo esperamos que ele saiba a retiro de bem-estar.
Por isso andamos aos saltos entre picos de dopamina: novos cursos, hábitos frescos, mais um método de produtividade.
No momento em que algo parece aborrecido, assustador ou humilhante, dizemos a nós próprios “isto não deve ser o meu propósito” e desistimos.
Depois sentimo-nos perdidos e vamos à caça da próxima coisa “alinhada”.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar.
Mesmo as pessoas que parecem profundamente “com propósito” ainda têm manhãs apagadas, reuniões estranhas, fins de semana que sabem a vazio.
A diferença é que não interpretam cada mau humor como um sinal de que a vida está avariada.
O psicólogo Paul Wong disse uma vez: “A felicidade não é o propósito da vida. O propósito da vida é viver uma vida com sentido, e a felicidade é um subproduto.”
Agora traduza isso da teoria para algo que possa mesmo usar.
Se vivesse 10% mais “pelo sentido” este mês, o que mudaria na sua agenda?
Aqui vai uma caixa simples para começar a esboçar:
- Troque um plano “para me sentir bem” por semana por uma ação “isto importa-me”, mesmo que seja desconfortável.
- Pergunte: “Se o meu humor não contasse hoje, o que ainda valeria a pena fazer?”
- Faça uma coisa pequena por alguém que não lhe pode retribuir, e não publique sobre isso.
- Em vez de “dias bons”, comece a registar “momentos com sentido” na app de notas.
- Uma vez por semana, escreva uma frase: “Esta semana teve sentido quando…”
O que muda quando aponta ao sentido em vez do humor
Há uma mudança subtil quando deixa de tratar a felicidade como um objetivo e passa a tratá-la como um efeito colateral.
Deixa de interrogar cada hora da sua vida pelo ROI emocional.
Continua a desfrutar do prazer - o café com gelo, a manhã preguiçosa de fim de semana, a noite de cinema - mas não entra em pânico quando o brilho passa.
Começa a fazer perguntas mais certeiras: “Em quem é que eu quero tornar-me através disto?” em vez de “Como é que isto me faz sentir agora?”
Com o tempo, a sua vida pode parecer mais silenciosa à superfície e mais rica por baixo.
Menos sobre perseguir picos, mais sobre construir algo que ainda faria sentido para si num dia mau.
Esse tipo de segurança é diferente daquilo que os anúncios de bem-estar prometem.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O sentido dura mais do que o humor | A felicidade sobe e desce; o sentido pode manter-se em dias bons e maus | Reduz a ansiedade de “ter de se sentir bem” o tempo todo |
| Siga aquilo por que sofreria | Repare onde aceita desconforto, esforço ou risco porque importa | Revela as suas prioridades reais, não as aspiracionais |
| Registe momentos com sentido | Faça diário ou notas de momentos em que se sentiu tocado, não apenas feliz | Constrói uma sensação de progresso mais sólida e ancorada |
FAQ:
- Pergunta 1 Isto significa que devo deixar de tentar ser feliz por completo?
- Resposta 1 Não. Significa que deixa de perseguir a felicidade como um estado constante e permite que ela surja naturalmente quando a sua vida está alinhada com o que lhe importa.
- Pergunta 2 Como encontro o meu “sentido” se me sinto completamente perdido?
- Resposta 2 Comece pequeno: olhe para momentos passados que o tocaram, em que se sentiu orgulhoso, útil ou profundamente ligado, e pergunte qual era o valor por baixo de cada um.
- Pergunta 3 E se o meu trabalho não tiver sentido para mim?
- Resposta 3 Então, por agora, o sentido pode viver noutras áreas: relações, projetos paralelos, cuidar de outros, aprendizagem - enquanto explora discretamente melhores opções de trabalho.
- Pergunta 4 Isto não é apenas produtividade tóxica disfarçada?
- Resposta 4 Não. O sentido não é sobre fazer mais; é sobre fazer menos coisas que importam profundamente e largar a pressão de “otimizar” cada minuto.
- Pergunta 5 Quanto tempo demora até eu sentir uma diferença se me focar no sentido?
- Resposta 5 Muitas pessoas notam um alívio subtil em poucas semanas: menos autojulgamento nos dias maus, e mais sensação de que o esforço está realmente a somar para algo.
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