From espaço, parece quase delicado. Uma fita castanha e fina, como uma mancha de café arrastada pela ponta de um dedo, estendendo-se do ressalto da América do Sul em direção ao ombro da África Ocidental. As imagens de satélite mostram-no com mais clareza do que o olho humano alguma vez conseguiria: uma faixa sinuosa e enevoada a derivar sobre o azul profundo do Atlântico, tão longa quanto um continente e estranhamente fora do lugar.
Numa praia em Barbados, essa fita não é uma abstração. Chega como um tapete espesso de algas em decomposição que range sob os pés e cheira a frigorífico avariado. As crianças procuram caminho à volta, os turistas torcem o nariz e os pescadores praguejam quando lhes entope os motores.
Do espaço, é apenas uma cor. Aqui em baixo, é um aviso.
Uma misteriosa faixa castanha a atravessar o Atlântico
A “fita” tem um nome: o Grande Cinturão Atlântico de Sargaço. Nos mapas de satélite, parece que alguém desenhou um risco castanho desde a costa do Brasil até à ponta da África Ocidental e depois o deixou à deriva. Esta enorme floração de algas flutuantes aparece agora todos os anos, a pulsar em tamanho como uma cicatriz viva sobre o oceano. Os cientistas estimam que, em alguns anos, se estende por mais de 8.000 quilómetros - aproximadamente a distância entre Nova Iorque e a Cidade do Cabo.
A partir do solo, claro, não se vê uma fita. Vêem-se praias a passarem do branco de postal para um castanho lodoso de um dia para o outro, à medida que tapetes espessos de algas se acumulam e se recusam a desaparecer.
Na costa mexicana de Quintana Roo, o pessoal dos hotéis já não começa o dia com café, mas com bulldozers. Os camiões alinham-se na areia antes do nascer do sol, recolhendo toneladas de sargaço que deram à costa durante a noite. A meio da manhã, começa a subir o cheiro a sulfureto de hidrogénio - o inconfundível odor a ovos podres - à medida que as algas se decompõem.
Os habitantes lembram-se de quando isto era um acontecimento raro, algo que sucedia uma vez por década. Agora é uma época. Há grupos de WhatsApp que avisam os residentes quando a mancha castanha se está a aproximar, entidades de turismo que acompanham a floração como se fosse uma previsão meteorológica e pequenos negócios que se vão desmoronando em silêncio quando o mar se transforma numa sopa malcheirosa durante semanas.
A ciência por detrás desta fita é menos poética e mais inquietante. O sargaço é uma alga marinha natural, há muito conhecida no Mar dos Sargaços, no Atlântico Norte. As mantas flutuantes sempre existiram e até oferecem abrigo a peixes, tartarugas e pequenos caranguejos. O problema é a escala. Águas mais quentes, chuvas intensas na bacia amazónica e escoamento rico em nutrientes - devido a fertilizantes e desflorestação - estão a alimentar um crescimento explosivo em todo o Atlântico tropical.
Esses nutrientes saem de rios como o Amazonas e o Congo, espalham-se pelo oceano e alimentam as algas como um buffet “à discrição”. O que antes era um ecossistema equilibrado comporta-se agora como uma experiência descontrolada.
Quando um cinturão de algas à deriva se torna um sinal de problemas
Se vive perto da costa, aprende depressa pequenas rotinas para lidar com isto. Algumas comunidades das Caraíbas transformaram as “linhas de algas” ao início da manhã num tipo de ritual: voluntários, trabalhadores e, por vezes, turistas pegam em ancinhos e carrinhos de mão para retirar o sargaço fresco da areia antes de apodrecer. Quanto mais perto o apanharem da linha de água, mais leve é e menos cheira.
Outros estão a instalar barreiras flutuantes ao largo, como vedações frágeis, tentando conduzir as algas para longe de praias sensíveis e para zonas de recolha, onde barcos as podem retirar enquanto ainda flutuam.
Há também experiências em curso que parecem quase improvisadas, mas nascem de uma urgência real. Agricultores na Jamaica e no Gana estão a testar o sargaço como composto, depois de devidamente limpo e seco. Empreendedores no México falam em transformá-lo em tijolos para construção, na esperança de converter um pesadelo costeiro num material de edificação.
Cientistas locais avisam, no entanto, que nem todas as utilizações são inofensivas. As algas podem acumular metais pesados, pelo que transformá-las diretamente em ração animal ou fertilizante sem tratamento pode sair pela culatra. As comunidades estão a improvisar soluções mais depressa do que a regulamentação consegue acompanhar, porque a alternativa é simplesmente ver a costa desaparecer sob uma manta castanha sufocante.
O peso emocional deste cinturão rastejante muitas vezes não aparece nas imagens de satélite. Em ilhas que dependem quase totalmente de visitantes à procura de água turquesa e areia branca, a época do sargaço tornou-se uma expressão dita com um receio silencioso e cansado. As receitas dos hotéis descem, as capturas da pesca diminuem à medida que os barcos lutam em águas entupidas, e pessoas com asma ficam em casa quando o gás das algas em decomposição torna o ar mais pesado.
“Do espaço, as pessoas vêem um padrão”, diz um ecólogo costeiro sediado em Dakar. “Daqui, vemos rendimentos perdidos, tartarugas a morrer e crianças que não conseguem brincar junto ao mar.”
- Fita castanha: um vasto cinturão de algas a atravessar o Atlântico.
- Causas de fundo: águas mais quentes, escoamento de nutrientes, padrões de precipitação.
- Impactos visíveis: praias sufocadas, problemas de saúde costeira, perdas no turismo.
- Impactos ocultos: zonas de baixo oxigénio ao largo, vida marinha sob stress, ecossistemas em transformação.
- Respostas emergentes: barreiras, barcos de recolha, reciclagem em tijolos, fertilizante ou biocombustível.
Um alerta entre dois continentes
A fita castanha entre África e as Américas é mais do que um incómodo; é um sinal de que o oceano está a absorver os nossos excessos em grande escala. Nutrientes de campos distantes, emissões de centrais elétricas longínquas, o calor retido por décadas de escolhas passadas - tudo acaba aqui, tecido neste cinturão vasto e errante de algas.
Todos já passámos por isso: aquele momento em que um pequeno problema doméstico só recebe atenção quando cresce e se transforma numa confusão total. O cinturão de sargaço é essa confusão, apenas estendida por um oceano.
Para comunidades costeiras do Gana à Guadalupe, a pergunta não é abstrata: as florações vão continuar a piorar, ou ainda as conseguimos travar? Oceanógrafos correm para afinar modelos, para prever como a chuva na Amazónia ou o uso de fertilizantes no Brasil e na África Ocidental se podem traduzir em mais anos de algas no futuro. Os decisores políticos falam em reduzir o escoamento de nutrientes, em melhor gestão do território, em metas climáticas que não fiquem apenas em relatórios vistosos.
Sejamos honestos: ninguém vive isto todos os dias. Poucos de nós acordam a pensar na regulamentação de fertilizantes noutro país ou na temperatura das águas superficiais a milhares de quilómetros de distância. E, no entanto, esses detalhes invisíveis estão agora a dar à costa aos nossos pés sob a forma de montes a fumegar e a apodrecer.
O que torna esta fita singularmente perturbadora é a sua visibilidade. Pode abrir um mapa público de satélite e literalmente seguir o arco do sargaço desde a costa do Brasil em direção à África Ocidental e depois para norte, rumo às Caraíbas. É um gráfico móvel e vivo do nosso impacto no mar, a circular entre dois continentes que partilham o mesmo oceano, mas que muitas vezes agem como se enfrentassem problemas separados.
O cinturão não é uma curiosidade científica distante - é um longo sublinhado castanho por baixo da frase que continuamos a escrever sobre clima e poluição.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O que é a fita castanha | O Grande Cinturão Atlântico de Sargaço, uma vasta floração sazonal de algas flutuantes entre África e as Américas | Dá uma imagem clara do fenómeno por detrás das manchetes |
| Porque está a crescer | Águas mais quentes, escoamento fluvial rico em nutrientes e alterações nos padrões de precipitação a alimentar um crescimento explosivo de algas | Ajuda a ligar atividades humanas do dia a dia ao que aparece em costas distantes |
| Como afeta as pessoas | Algas apodrecidas nas praias, queixas de saúde, danos no turismo e ecossistemas marinhos sob stress | Mostra porque isto não é apenas um “problema do oceano”, mas uma questão real para as comunidades |
FAQ:
- O cinturão de sargaço é perigoso para os humanos? O contacto direto com as algas em si normalmente não é tóxico, mas, ao decompor-se, pode libertar gás sulfureto de hidrogénio, que pode causar dores de cabeça, náuseas e desconforto respiratório, sobretudo em pessoas mais sensíveis.
- Esta fita castanha é resultado das alterações climáticas? As alterações climáticas são uma peça importante do puzzle, pois oceanos mais quentes favorecem o crescimento de algas; no entanto, a poluição por nutrientes transportados pelos rios e a desflorestação também têm um papel significativo. Os cientistas veem-no como um sinal combinado de aquecimento e escoamento.
- O sargaço tem algum benefício? No mar, o sargaço flutuante cria mini-ecossistemas que dão abrigo a peixes, tartarugas e invertebrados. O problema começa quando a quantidade se torna tão grande que sufoca praias e águas costeiras.
- As algas podem ser transformadas em algo útil? Sim. Investigadores e startups estão a experimentar usá-las para fertilizante, tijolos, papel e até biocombustível, mas é necessário tratá-las primeiro para remover o excesso de sal e possíveis metais pesados.
- Este cinturão castanho vai desaparecer por si só? As tendências atuais não apontam nessa direção. Sem reduções sérias da poluição por nutrientes e das emissões globais, os modelos sugerem que estas florações massivas podem continuar frequentes - ou até aumentar - nas próximas décadas.
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