Os MacLeods não aquecem a casa com uma caldeira. Usam duas fontes “lentas” e previsíveis: calor da decomposição (composto) e ganho solar.
Numa manhã gelada, há vapor a sair de um monte de aparas de madeira no jardim. Um circuito de tubagem passa pelo interior do monte e segue para a casa. Lá dentro, não há radiadores quentes: o conforto vem do piso radiante, a baixa temperatura, de forma constante. As luzes estão acesas; o sol ainda não nasceu. E, mesmo assim, a casa está confortável.
Tom resume sem rodeios: “O monte é o nosso aquecedor.”
Calor da decomposição e da luz
A base é simples: micróbios a decompor matéria orgânica libertam calor. Os MacLeods fazem um monte grande de aparas de madeira e restos verdes, colocam uma serpentina de tubo no interior e fazem circular água num circuito fechado. Essa água vai carregar um depósito tampão de 1.000 L (na área técnica) e, daí, alimentar o piso radiante.
O solar térmico no telhado e uma marquise virada a sul entram como “reforço” nos dias com sol: ajudam sobretudo na água quente e nos picos de aquecimento. Em conjunto, o sistema trabalha melhor quando a casa pede pouco: boa estanquidade ao ar, isolamento forte e emissores de baixa temperatura.
O que torna isto credível (e não “mágico”) são números e expectativas realistas:
- Um núcleo de composto em fase termófila costuma estabilizar na ordem dos 55–65 °C se houver ar e humidade.
- O piso radiante pode dar conforto com água a 30–35 °C (muito mais eficiente do que radiadores de alta temperatura).
- Isto é calor “de baixa potência, mas constante”: funciona melhor como carga de base do que como resposta rápida.
Em fevereiro, com frio persistente, a sala manteve-se nos 20–21 °C. O monte ficou quente durante meses e só precisou de ser refeito uma vez em cerca de nove meses. Nos dias luminosos, o solar assumia grande parte da água quente; o composto segurava o resto.
Para leitores em Portugal: o princípio mantém-se, mas o “ponto ótimo” pode ser outro. Em muitas zonas, um sistema destes pode fazer sentido sobretudo para AQS + apoio ao aquecimento em casas muito bem isoladas (ou em anexos/estufas), porque os invernos são mais curtos e a radiação solar pode cobrir mais dias.
Como fazem isto, na prática
Eles tratam isto como um trabalho de manutenção sazonal: monta-se bem e esquece-se durante meses.
Na prática:
- Conseguem aparas de madeira frescas (muitas vezes de arboristas) e montam um volume grande, cerca de 3×3×2 m, sobre paletes para ajudar a ventilar por baixo.
- A meio da construção, colocam uma serpentina com cerca de 200 m de PEX, em espiras largas e uniformes, deixando ida e retorno acessíveis.
- Ajustam a humidade: a mistura deve sentir-se como “esponja bem torcida” (húmida, sem pingar). Regra útil: se secar, arrefece; se encharcar e ficar sem oxigénio, “azia” e perde performance.
- Cobrem com lona e protegem as laterais (fardos de palha funcionam como corta-vento/isolamento).
- Uma bomba pequena (na ordem dos 15 W) faz circular a água até ao depósito tampão.
Erros comuns (e como evitar):
- Material demasiado fino compacta e corta o ar; aparas mais grossas criam bolsas de oxigénio.
- Pouco azoto (só madeira) abranda; algum “verde” ajuda. Uma regra prática de compostagem é procurar uma mistura que não seja só carbono (madeira), aproximando-se de um equilíbrio típico de compostagem (muitas vezes na ordem de 25–30:1 carbono/azoto).
- Tubos mal distribuídos reduzem captação; espiras largas e bem espaçadas tendem a ser mais eficazes.
- Sem medição, anda-se às cegas: um termómetro de composto (sonda longa) poupa tentativas.
O que não se deve esperar: calor imediato. Normalmente o monte aquece ao fim de alguns dias, depois entra num patamar estável. Também vale pensar em pormenores práticos: drenagem do local (para não criar lama), acesso para carrinhos de mão, e proteção extra contra secagem em verões quentes (em Portugal, sombra e regas ocasionais podem ser necessárias).
O equipamento é simples:
- Circuito de 200 m de PEX, adequado a água quente
- Depósito tampão de 1.000 L com permutador de calor em serpentina
- Conjunto solar térmico de tubos de vácuo (12 tubos)
- Bomba de circulação e controlador
- Aparas de madeira, palha e tempo para montar/refazer
O que isto muda na nossa cabeça
A maior mudança não é “tecnológica”; é mental: aquecimento deixa de ser só uma fatura e passa a ser um sistema que se gere. O calor vem em silêncio (sem queimadores, sem ciclos agressivos), e o conforto é mais uniforme porque o piso radiante trabalha devagar.
Mas há trade-offs claros:
- Precisa de espaço exterior e de alguma logística (montagem, humidade, reposição).
- Funciona porque a casa é poupada: numa casa com fugas de ar e pouco isolamento, o calor produzido pode não chegar.
- Integração e segurança contam: circuito fechado, vaso de expansão, válvulas de segurança e controlo de temperaturas no depósito. Para AQS, é prudente garantir regimes que reduzam risco microbiológico (por exemplo, temperaturas adequadas/rotinas de anti-legionella, dependendo da instalação).
A família refaz o monte a cada 9–12 meses, consoante a mistura e a chuva. O “resíduo” vira composto escuro para o jardim. No fim, o custo inicial tende a ficar entre um sistema básico e soluções mais completas (o depósito e a tubagem pesam no orçamento), mas parte do “combustível” pode ser barato ou mesmo gratuito.
O ponto central é este: composto e sol não precisam de ser heróis se o edifício fizer a sua parte. Quando isolamento, estanquidade e baixa temperatura estão bem alinhados, sistemas simples passam a ser suficientes na maioria dos dias.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Circuito de calor no composto | Serpentina de ~200 m de PEX num monte de aparas de 3×3×2 m, a carregar um depósito tampão de 1.000 L | Mostra uma forma repetível de captar calor constante (baixa temperatura) |
| Multiplicadores da luz solar | Solar térmico, marquise a sul, massa térmica, desvio de excedentes FV para aquecer o depósito | Reduz consumo em dias luminosos e melhora autonomia |
| Envolvente primeiro | Vidros triplos, estanquidade ao ar, isolamento espesso, piso radiante de baixa temperatura | Menos perdas = mais conforto com menos energia |
FAQ:
- Um aquecedor a composto cheira ou atrai pragas? Em geral não, se a mistura estiver bem arejada e na humidade certa. Cheiros fortes costumam indicar falta de oxigénio (demasiado molhado/compactado). Evitar restos alimentares expostos também ajuda.
- O que acontece durante um período longo, escuro e gelado? O composto pode manter uma produção estável durante semanas/meses; a casa bem isolada e a massa térmica prolongam o conforto. Ainda assim, é sensato ter um backup para extremos raros ou avarias.
- Quanto custa uma instalação destas? Normalmente menos do que uma bomba de calor completa e mais do que um cilindro convencional. O depósito, permutadores, válvulas e tubagem são os itens que mais pesam; as aparas muitas vezes são baratas.
- É seguro circular água através de composto? Sim, quando é um circuito fechado em PEX e com componentes hidráulicos corretos (expansão, segurança, controlo). A AQS deve ser gerida de forma a cumprir boas práticas de higiene térmica.
- Inquilinos ou quem vive em espaços pequenos pode experimentar uma versão? Sim: versões pequenas podem aquecer uma estufa, pré-aquecer água, ou servir projetos comunitários. O segredo é testar com objetivos modestos e medir temperaturas.
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