Pour a Miss France 2026, Hinaupoko Devèze, esse “pormenor” tomou a forma de uma alcunha cruel: “a girafa”. Tudo começou com um vídeo viral, um plano em contra‑picado sobre o seu pescoço muito comprido, um comentário irónico: “Look where the giraffe is…”. Em poucas horas, a frase tornou-se um meme, uma punchline, um pretexto para a troça organizada.
Quando Hinaupoko aparece nessa noite num estúdio de televisão, a luz dos holofotes mistura-se com a luz azul dos smartphones no público. Alguns filmam-na mais do que a ouvem. Ela, direita na cadeira, mantém o queixo erguido. Já sabe o que a espera: montagens no TikTok, piadas fáceis, comparações com animais. Respira fundo, olha a câmara de frente e lança uma frase que muda o ambiente no estúdio. Uma frase curta, quase um desafio.
“Look where the giraffe is…”: quando uma alcunha se torna um símbolo
Nos camarins, antes do programa, uma maquilhadora sussurra-lhe: “Viste o que dizem no X?” Hinaupoko acena com a cabeça. Viu tudo. As capturas de ecrã, os vídeos em câmara lenta, os comentários em rajada sobre o seu pescoço “demasiado comprido”, o rosto “demasiado alongado”, o físico “pouco Miss France”. Viu até aquela montagem em que a colocam entre duas girafas verdadeiras, com a legenda: “Encontra o intruso.”
Nas redes sociais, a frase “Look where the giraffe is…” repete-se até ao infinito. No início, era um comentário deixado sob um vídeo da sua passagem em vestido de noite. Em poucas horas, aparece em stories, threads, reels. Adolescentes repetem-na a rir, adultos partilham-na com um sorriso constrangido. Ninguém sabe bem onde acaba a piada e quando começa a violência. Ela sabe.
Quando o apresentador lhe mostra o comentário em direto, o estúdio sustém a respiração. Hinaupoko sorri por instantes - um sorriso que parece mais um escudo do que alegria verdadeira. Depois responde, com calma: “Look where the giraffe is? The giraffe is here, on national TV, representing a lot of girls who were told they were ‘too much’ of something.” De repente, a alcunha já não tem exatamente o mesmo sabor.
A situação não tem nada de anedótico. Segundo um estudo do IFOP sobre ciberassédio em França, quase um jovem em cada cinco diz já ter sido publicamente gozado pela sua aparência online. Para uma Miss France, tudo se amplifica. Cada ângulo de câmara vira pretexto para análise. Cada detalhe é ampliado pelas lupas que são as redes sociais. Comenta-se o corpo como se comenta a meteorologia.
Desde a sua eleição, Hinaupoko Devèze recebe milhares de mensagens por dia. No meio dos parabéns, há frases que magoam: “Parece um poste de eletricidade”, “Usou um filtro de esticar ou quê?”, “É Miss France ou Miss Zoo?”. O famoso “Look where the giraffe is…” virou um código. Alguns escrevem-no apenas para dizer que a acham “estranha”, sem o admitirem frontalmente.
Uma noite, no seu quarto de hotel, Hinaupoko percorre os comentários em silêncio. Dá com um vídeo de uma aluna do básico que imita a sua forma de andar, exagera o pescoço e provoca as gargalhadas dos colegas. A legenda diz: “Futura Miss France 2035”. Ela fecha os olhos por uns segundos. Depois abre a app de notas e começa a escrever. Não para se queixar. Para enquadrar a história antes que outros o façam por ela.
O mecanismo é conhecido: a aparência das Miss France é dissecada, escrutinada, transformada em debate nacional. Só que, desta vez, o corpo visado não corresponde aos padrões habituais. Hinaupoko é muito alta, muito esguia, com um pescoço que chama a atenção antes de tudo o resto. Noutro contexto, numa passerelle de alta-costura, falar-se-ia de “linha elegante”. Nas redes, alguns falam em “deformação”.
Há algo mais profundo por trás da alcunha “girafa”. Usa-se como forma de dizer: “Fuges à norma. És demasiado visível. Vamos pôr-te no teu lugar com uma piada.” Este reflexo atinge sobretudo mulheres que não encaixam exatamente no molde reconfortante: demasiado altas, demasiado baixas, demasiado musculadas, demasiado marcadas, demasiado tudo. A Miss 2026 torna-se, sem querer, um ecrã gigante onde cada um projeta os próprios complexos.
Hinaupoko recusa-se a ser reduzida a um animal-totem. Mais tarde, explica: “I knew if I stayed silent, the joke would swallow me.” Ao reaproveitar “Look where the giraffe is…” e transformá-la numa punchline de orgulho, faz um gesto simples, mas poderoso: recuperar o microfone. Virar a vergonha do lado de quem ri alto demais.
Como Hinaupoko vira a troça a seu favor
A primeira coisa que faz é responder sem se justificar. Sem desculpas, sem “sim, mas eu sofri”, sem um longo discurso dramático. No Instagram, publica uma foto num vestido justo, perfil assumido, pescoço em destaque. Na legenda: “Look where the giraffe is today.” Sem texto enorme. Sem hashtags tristes. Apenas essa frase e um piscar de olho discreto numa story.
Esta escolha está longe de ser irrelevante. Em vez de se esconder, acentua aquilo de que a acusam. Mantém-se ainda mais direita. Escolhe penteados que deixam a nuca à mostra. No TikTok, filma-se a caminhar numa rua de Paris, em ligeira câmara lenta, com texto sobreposto: “For years, they told me to ‘shrink’. I guess I grew instead.” O efeito é imediato: milhares de comentários de raparigas muito altas, muito magras, que se reconhecem nela.
Sejamos honestos: quase ninguém faz isto no dia a dia. Na maior parte das vezes, quando atacam o nosso físico, encolhemo-nos um pouco. Mudamos de roupa, endireitamo-nos menos, evitamos fotos. A própria Hinaupoko admite que, na primeira noite, chorou. Mas definiu uma regra simples: “If it’s going viral anyway, it will go viral on my terms.” É uma forma dura de se proteger, mas terrivelmente moderna.
A outra arma é a palavra clara. Numa entrevista de rádio, a locutora lê-lhe as críticas mais duras, incluindo a famosa “Look where the giraffe is…”. O silêncio dura um segundo a mais. Sente-se a equipa técnica a prender a respiração. Depois Hinaupoko responde: “You know what is funny? When I was a child, kids called me ‘giraffe’ in the playground. Now the same word is used while I’m wearing a crown. Maybe the word didn’t change. I did.”
Esta resposta espalha-se por todo o lado, recortada, colada, remixada no TikTok com música dramática. Ela não fez um grande sermão sobre tolerância. Contou uma mini-cena do recreio, suficientemente concreta para despertar memórias em muita gente. De repente, a alcunha parece menos uma piada inofensiva e mais um mecanismo antigo e enferrujado que todos conhecemos de cor.
Começa então a receber mensagens inesperadas: mães de adolescentes altas, jovens mulheres modelos, homens muito altos que passaram a adolescência curvados para “caber no enquadramento”. O que toca as pessoas não é o estatuto de Miss France. É a sensação de que ela fala a partir de um lugar vulnerável, não apenas de um pedestal.
Noutra entrevista televisiva, Hinaupoko solta uma frase que surpreende: “I don’t want people to stop saying ‘giraffe’. I want them to think about why they need to say it so loudly.” Não pede silêncio, nem censura total da troça. Pede uma forma de autoquestionamento. Esse desvio, quase filosófico, muda a dinâmica: a conversa sai do registo de mera defesa pessoal e toca algo mais amplo.
“If my neck is the problem, then the problem is very small. If the way we talk about women’s bodies is the problem, then we have work to do.” - Hinaupoko Devèze
Ao longo dos dias, ela deixa alguns pontos de referência simples para quem a segue:
- Não responder a insultos com insultos, mesmo quando apetece.
- Guardar capturas de ecrã dos ataques mais graves, sem os republicar.
- Falar do que se sente com pelo menos uma pessoa “fora das redes”: uma amiga, um familiar, um profissional.
- Escolher, uma vez, uma forma simbólica de recuperar o controlo (foto, frase, vídeo).
- Lembrar que as troças muitas vezes dizem mais sobre o medo do outro do que sobre o corpo visado.
E agora, o que fazemos com esta “girafa” que incomoda?
A frase “Look where the giraffe is…” já mudou de significado várias vezes. No início, era um comentário trocista sobre um corpo fora do padrão. Depois tornou-se uma hashtag de defesa, usada por quem a apoia. Hoje, também aparece na boca de criadores de conteúdos que se filmam a assumir aquilo de que foram acusados durante anos: orelhas salientes, nariz partido, cicatrizes visíveis.
Esta viragem diz algo sobre a nossa época. Vivemos num mundo em que qualquer detalhe físico pode ser alvo de um zoom planetário em minutos. Mas vivemos também num mundo em que a pessoa visada pode responder, publicar, virar a câmara. A fronteira entre humilhação pública e tomada de poder é, por vezes, uma simples story com algumas palavras bem escolhidas.
Talvez seja esse o verdadeiro mudança: a possibilidade de quem era apontado no recreio passar, agora, a segurar o microfone. Hinaupoko Devèze não vai apagar as troças por magia. Não vai tornar a Internet subitamente terna e delicada. Mas abre um espaço: aquele em que uma Miss France pode dizer, sem rodeios, que chorou, que hesitou, que decidiu deixar de se encolher para tranquilizar toda a gente.
Da próxima vez que vir um “Look where the giraffe is…” nos comentários, a pergunta talvez já não seja “Tem graça?”, mas “O que é que isto diz sobre nós?”. Rimos porque ficamos desconfortáveis com o que foge ao enquadramento? Repetimos só uma frase ouvida mil vezes sem pensar? Ou conseguimos escolher outro reflexo: olhar para a pessoa inteira, não apenas para o detalhe que sobressai?
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Recuperar a alcunha | Transformar “Look where the giraffe is…” numa frase de orgulho | Mostrar como virar uma troça a seu favor |
| Resposta medida | Responder sem pedir desculpa nem insultar, com uma frase clara | Propor um modelo concreto de reação às críticas |
| Partilha de experiência | Hinaupoko fala do recreio e das redes | Ajudar cada um a ligar a sua própria história à dela |
FAQ:
- Porque é que chamam “a girafa” a Hinaupoko Devèze? A alcunha começou online por causa da sua silhueta muito alta e esguia e do pescoço comprido. Um único comentário - “Look where the giraffe is…” - tornou-se viral e virou meme.
- Como reagiu a Miss France 2026 às críticas? Optou por responder publicamente, sem pedir desculpa pelo seu corpo. Reutilizou a frase “Look where the giraffe is…” como afirmação de orgulho, sobretudo no Instagram e em entrevistas.
- Ela falou do impacto na saúde mental? Sim. Admitiu que a primeira vaga de troça a magoou e a fez chorar, mas explicou que falar e assumir o controlo da narrativa a ajudou a sentir-se menos impotente.
- O que podem as pessoas comuns aprender com a reação dela? Que é possível definir o tom da própria história, documentar ataques graves e escolher uma forma simbólica de recuperar aquilo que os outros usam contra nós, em vez de desaparecer.
- Transformar uma alcunha dolorosa num emblema de orgulho resulta sempre? Nem sempre, e não para toda a gente. Por vezes, o silêncio, o distanciamento ou ajuda profissional são opções melhores. O exemplo de Hinaupoko mostra um caminho possível, não uma obrigação.
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